quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Sobre o cuidado

Eu vi: cuidado é um presente. Dádiva. Zelo.
O encontro de duas almas, uma disposta e uma outra nem tão entregue, nem tão liberta, mas muito precisa. Cuidado é um alongar de brechas, um olhar que repousa, um abraço que descansa, uma noite mal dormida. Uma palavra muda que esgarça o seu bordado de silêncio mais compreensivo e revelador. 
Um nó na garganta caindo por terra. Uma mão aniquilando ansiedades.

Não estou falando daquele cuidado enfeitado, planejado, cheio de compromissos. 
Não estou falando daquele cuidado matemático que calcula os nossos pontos fracos, que nos conta a demora desse estar-dentro-do-outro. 
Estou falando do cuidado que é próprio, sem tantas ideias, que corre à frente dos relógios, daquele que rompe a nossa preguiça. 
Estou falando de um cuidado que não anuncia a sua valentia e busca - e que não é menos forte por isso.

E penso, no cuidado que não nasce com algumas gentes. 
No cuidado que em muitos, é lacuna. 
Penso no cuidado estreitado, raro, nunca vivenciado. 
No cuidado que não se mostra, tampouco se despe para os seus escolhidos. 
É que, assim como o amor, o cuidado só corre bem quando é entrega, quando é o outro dentro da gente, quando é a possibilidade de uma calmaria, uma intuição bem resolvida, um esclarecimento.

Cuidado não é uma tentativa. Não é uma válvula de escape. 
Cuidado é poesia pronta que nos conta novas saídas. 
É inaugurar sóis dentro do outro em dias feitos de chuva. 
Dispensando a avareza no partilhar dos naufrágios já acalmados, cuidar é ofertar ao outro um barco nunca antes usado, um abraço nunca antes pertencido.

Cuidado é recomeço para dois ou mais sorrisos.

Priscila Rôde

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Saber

Saber doar-se para saber se o outro se importa. 
Saber doer-se para entender o que realmente te importa. 
Saber dosar-se para saber o que é realmente válido. 
Exceder-se para conhecer as tuas sobras. 
Podar-se para livrar-se dos tais excessos.
Saber cair para mensurar a dimensão do sonho.
Saber sonhar-se na medida limitada imposta pelo mundo. 
Saber colocar-se com cuidado para caber direito. 
Saber produzir-se para causar o melhor efeito. 
Conhecer-se na procura dos próprios defeitos. 
Encontrar-se na procura do conhecimento. 
Saber se chorar por dentro, lavar-se inteiro. 
Saber esquecer-se quando já foi dito. 
Saber prosseguir, quando não te acompanha. 
Saber perder-se na imensidão do universo. 
Saber tatear no escuro das decepções. 
Saber esconder-se, encontrar-se. 
Saber-se. 
Ser.

Camila Heloíse

Dores

Dores vão e vem, mas enquanto tiver 
um sorriso no meio do caminho, 
um ombro pra encostar, 
uma piscada pra esquecer, 
um céu azul, 
uma janela aberta e 
um amanhecer de primavera 
você vai querer se reerguer e 
ver que quem perdeu não foi você.

Vanessa Leonardi

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

A estação de cada mulher

Em Fortaleza, o povo brinca que há quatro estações bem definidas durante o ano: Verão, Calor, Mormaço e Pegando Fogo. É uma maneira divertida de dizer que o tempo é um só, com pequenas variações, e aceitar rindo é o melhor a fazer. Mais ou menos como nós, mulheres. 
Somos muitas em uma e compreender cada “estação”, vivenciando sua plenitude sem tentar alterá-la ou negá-la é caminho saudável.

Um dia a flor enrubesce e nos tornamos mulheres. Meninas ainda na alma, o corpo já pronto para plantar sementes. A revolução começa. 
Dali pra frente, desabrocharemos a cada estação nossas múltiplas possibilidades. 
Mulheres aprendizes, exuberantes, sorridentes, mulheres executivas, compenetradas, decididas, mulheres melancólicas, introspectivas. 
Mulheres complicadas, instáveis, fúteis, práticas, dóceis, fartas, guerreiras, mulheres mães. Passamos por muitas fases, nos tornamos aquelas em que escolhemos ficar.

Encorpamos. Apesar de darmos muito valor à forma, com o tempo perceberemos o quão pouco ela importa. 
O físico está atrelado ao olhar do outro, nos sentimos valorizadas através da opinião alheia. 
A maturidade nos contempla com o olhar interno, já não precisamos mais de aprovação, nos sabemos plenas, lindas, inteiras. 
É uma estação sem idade, chega com as experiências vividas e com o que fazemos delas. Requer desapego ao que éramos e coração aberto ao novo. 
Nesta fase, o velho espelho torna-se mágico e mostra como nos enxergamos: únicas. 

Maternidade. Talvez a estação mais ambígua, com certeza a mais visceral. Um dia dormimos mulheres, no outro acordamos mães. E seguimos assim, instáveis entre sermos uma e outra, até conseguirmos unir em nós mesmas essas tão novas metades, uma recém-dividida, outra recém-acrescentada. 
Quem somos assim que parimos? Para mim, a grande questão foi conseguir me acostumar com esse triângulo amoroso: o novo serzinho, a mulher que eu era e essa nova “eu” que nasceu junto com a Ana Bia. E, principalmente, aceitar que jamais seria quem fui novamente.

É um longo processo. Parir não nos dá o mérito de sermos mães. É apenas o início, dar à luz uma nova vida. Mãe é tudo o que vem depois
É a extensa jornada de entrega e dedicação. É o conjunto de decisões tomadas, fraquezas superadas, dores reprimidas, novidades assimiladas, egoísmos abandonados. 
E tudo com o foco no bem-estar dos filhos, envolto numa capacidade inesgotável de perdoar a eles e a si própria. 
Do bolo, ser mãe é a cereja: o sentimento mais pleno de amor. Mas qual sentimento de amor não é?

E num dia bate aquele desânimo, no outro você não sabe viver sem a sua louca rotina. E há quem case, quem crie os filhos sozinha, há as que aprendem a pedir ajuda, outras carregam o mundo nas costas. 
Há solidárias e solitárias. E as duas coisas ao mesmo tempo. Porque somos múltiplas, mais que excludentes. Num momento você chora, no outro também, então você ri a gargalhada mais solta feito borboleta no ar e segue em frente. 
Ser mulher é ser fênix, é ressurgir das cinzas. Sempre. 

Enfim, a estação da sabedoria. O ponto de chegada. O momento em que você diz “então, era isso”. 
Dá vontade de gritar aos quatro ventos a sua grande descoberta, tudo o que vivenciou e como a vida pode ser vivida de maneira mais fácil e descomplicada. 
Você quer compartilhar a clareza de ideias, a sedimentação dos sentimentos, a verdadeira importância de cada coisa. Na ânsia, você sorri. Sabe que sabedoria não se ensina, se adquire. 
E lentamente se resigna a ajudar outras mulheres a, elas próprias, alcançarem suas respostas. 
A reformularem suas perguntas.

Ana Bia, menina-flor, ainda forma suas pétalas. Eu, mãe-regadora, jorro ensinamentos, orientação, atenção, amor. 
Busco adubá-la com bons nutrientes que transformem suas características natas em qualidades. E aditivos que otimizem seus talentos para usá-los da melhor maneira possível no futuro. 
Haverá o momento em que o seu botão irá se abrir e ela se revelará. Será a minha contribuição para enfeitar o jardim do mundo. 
Porque, ao me tornar mãe, estacionei na Primavera. 
E você, em que estação está?

Ana Kessler


segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Meus cartões II


Simples Assim

Gosto da minha casa.
Gosto das minhas flores: flores lilás, lavandas, hortências e tulipas rosas.
Gosto da cor branca (em tudo agora)...de sentir a paz, o silêncio e o perfume de alecrim.
Gosto de pisar no tapete de pele, sentir o ar gelado entrando pela fresta, usar meias listradas.
Gosto de olhar pela janela as folhas dançando com o vento, a palmeira arranhando meu vidro....
Gosto de sentir o sol da manhã aquecendo meu corpo.... de sentir o cheio de café novo.
Gosto do silêncio da noite, da lua cheia gigante na sala.... da taça de vinho na mão.
Gosto de sentir o conforto, o calor, o amor, as mãos entrelaçadas....
Gosto de misturar temperos, ouvir música francesa.... usar kimono florido.
Gosto de ver como as plantas crescem quando se cuida.... e murcham de repente.
De como a chuva cai sem pedir licença. De como se forma um arco-íris na parede.
Gosto de ver como a vida pode ser simples e surpreendente.
De como a rotina pode ser a mesma e ser diferente.
Gosto de sentir que o amor cresce... gosto de ver quando o olho brilha.
Gosto de sentir a leveza, a liberdade.
Gosto de me sentir assim: em plena Felicidade!
Simples, assim.

Carolina Salcides

Seiscentos e Sessenta e Seis


A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas: há tempo…
Quando se vê, já é sexta-feira…
Quando se vê, passaram 60 anos…
Agora, é tarde demais para ser reprovado…
E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre, sempre em frente…

E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.

( Mario Quintana )



domingo, 13 de janeiro de 2013

Ofertas de Aninha


(aos moços)
Eu sou aquela mulher
a quem o tempo
muito ensinou.
Ensinou a amar a vida.
Não desistir da luta.
Recomeçar na derrota.
Renunciar a palavras e pensamentos negativos.
Acreditar nos valores humanos.
Ser otimista.

Creio numa força imanente
que vai ligando a família humana
numa corrente luminosa
de fraternidade universal.
Creio na solidariedade humana.
Creio na superação dos erros
e angústias do presente.

Acredito nos moços.
Exalto sua confiança,
generosidade e idealismo.
Creio nos milagres da ciência
e na descoberta de uma profilaxia
futura dos erros e violências
do presente.

Aprendi que mais vale lutar
do que recolher dinheiro fácil.
Antes acreditar do que duvidar.

( Cora Coralina )

sábado, 12 de janeiro de 2013

Organize o luto...

Não se apresse em forjar as respostas para suas perguntas. 
Tenha paciência com suas circunstâncias. 
[...]
É, meu jovem amigo, a Filosofia é quase nada perto da sedução da simplicidade. 
Há mais encanto nos gestos, nas flores, que nas formulações elegantes que nossas palavras são capazes de produzir. 
Desculpe-me pela ousadia, mas, muito mais que receber respostas para sua dor, do que você verdadeiramente precisa é aprender a perder. 

Eu sei que não é fácil, mas é um caminho que você não poderá evitar. 
Se quiser recomeçar a sua vida de um jeito certo, terá de reconhecer que a batalha está perdida. 
Sem medo, tenha a coragem de se reconhecer perdedor. 
Não permita que esta derrota lhe retire a coragem de enfrentar novos desafios. A vida continua. 

Organize este luto. Há sepultamentos que são necessários para o prosseguimento da vida. 
Não prolongue no tempo o sofrimento. Não seja orgulhoso. 
Assuma a perda de forma criativa. A perda sofrida pode se transformar num ganho. 
É só permitir que dela você receba os ensinamentos. 

Semente que não aceita morrer não pode reproduzir frutos. É a regra vegetal a nos propor um jeito sábio de viver. 
Diante desse sofrimento, há um jardim de ensinamentos que precisa ser cultivado. 
Desculpe-me falar tanto de jardins, jardineiros e floristas. Sei que isso aguça ainda mais a sua angústia. 
Não se preocupe, olhar de frente o nosso inimigo já é um recurso que nos ajuda a desvanecer sua força. 

Os fantasmas só deixam de nos assombrar no dia em que fixamos neles os nossos olhos. 
Os fantasmas sobrevivem é do nosso medo. Somos nós que os alimentamos. 

Meu caro, eu vou ficando por aqui. Agora quem pede uma resposta sou eu. Estou curioso para saber apenas uma coisa. Em algum momento, naqueles breves dias de convivência, você lhe ofereceu flores?  

"Só as flores respondem o que as palavras ainda não sabem perguntar."

Pe. Fábio de Melo

Dentro de nós

De vez em quando sinto uma falta de ar violenta. Mas não se preocupe, acho que não tem nada de errado comigo ou com meus queridos pulmões. 
A coisa vai mais além (e vem mais de dentro): está difícil viver. 
É julgamento aqui e ali, feito bala perdida. Sobram juízes, sobram deuses, sobram entendidos em todos os assuntos. 
E falta um pouco de olho no olho e compaixão.

Esse nosso mundo está cada dia mais complicado, acho que os valores estão escorrendo pelas nossas mãos. E ninguém quer parar, pisar no freio, respirar fundo e olhar para os dois lados.
Todo mundo segue acelerando sem olhar para trás, sem se importar com o bem-estar do outro. 
Até quando? Até quando as agressões serão gratuitas? Até quando a gente vai aplaudir a moça que raspa a cabeça na televisão? Até quando a graça vai ser rir da desgraça alheia? Até quando vai ser bonito falar palavrão e tomar tarja preta? Até quando vai ser legal sair com a bunda aparecendo no meio da rua? Até quando você vai se preocupar se a filha de A ou B tem a doença C? Até quando você vai apontar o erro do outro ao invés de reconhecer seus próprios erros?

Não aguento mais esse ti-ti-ti, esse bafafá, essa gente que não é capaz de olhar para si primeiro. 
Tudo precisa de rótulo, tudo precisa ser debatido, tudo precisa virar confusão, tudo é levado para o outro lado e encarado como crítica. 
As pessoas estão sensíveis e agressivas demais. É contraditório, eu sei. Mas jogam mil pedras nos outros e ficam ofendidas por pouco. Isso é demais pra mim. 
É por isso que cada vez mais eu me fecho no meu mundinho. E lá entra quem eu quero, quem é da minha tribo. Porque esse mundo onde tudo é guerra, confusão e gritaria não é comigo. 
Não gosto do grito, prefiro os meus silêncios. Não gosto da confusão, sou do time da calmaria. Não gosto do tumulto, prefiro a paz. 
Não gosto da fofoca, prefiro falar com os olhos. É mais humano, mais leal, mais digno, mais legal.

Acho que as pessoas andam perdidas. E fazem a maior questão de se preocupar com o que está fora. Esquecem que o que nos acompanha é o que fica lá dentro. E essa é a nossa melhor e pior parte.

Clarissa Corrêa

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Alguém me disse

Tradução da linda música: Quelqu'un M'a Dit 
Disseram-me que as nossas vidas não valem grande coisa,
Elas passam em instantes como murcham as rosas.
Disseram-me que o tempo que desliza é um bastardo
Que das nossas tristezas ele faz seus investimentos

No entanto alguém me disse...
Que você ainda me amava,
Foi alguém que me disse que você ainda me amava.
Seria possível então?

Disseram-me que o destino debocha de nós
Que não nos dá nada e nos promete tudo
Faz parecer que a felicidade está ao alcance das mãos,
Então a gente estende a mão e se descobre louco

No entanto alguém me disse...
Que você ainda me amava,
Foi alguém que me disse que você ainda me amava.
Seria possível então?

Mas quem me disse que você ainda me amava?
Eu não recordo mais, já era tarde da noite,
Eu ainda ouço a voz, mas eu não vejo mais seus traços
'ele ama você, isso é segredo, não diga a ele que eu disse a você'

Sabe, alguém me disse...
Que você ainda me amava, disseram-me isso de verdade...
Que você ainda me amava, Seria isto possível então?

Disseram-me que as nossas vidas não valem grande coisa,
Elas passam em instantes como murcham as rosas.
Disseram-me que o tempo que se vai é um bastardo
Que das nossas tristezas ele faz a seus investimentos

No entanto alguém me disse...
Que você ainda me amava,
Foi alguém que me disse que você ainda me amava.
Seria possível então?

Composição: Carla Bruni / Léos Carax



quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Achado de palavras

Palavras são pássaros que pousam nas páginas que alguém lê. 
Palavras são bálsamo que curam a dor que alguém sente. 
Palavras são flores que perfumam. São cores que alucinam....
Fiz um achado de palavras
e amarrei com um laço de fitas
coloquei flores de margaridas
e perfume de frutas cítricas
soprei um beijo no canto
e um segredo escondido
escrevi teu endereço
depois joguei tudo ao vento.

Espero que tenha recebido.


Mas muitas vezes
palavras são flechas
que ferem sem dó.
São fogos que queimam
deixando corações em pó.

Palavras às vezes são
palavras que não deveriam ter sido.

Lou Witt

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O Amor é o segredo da vida.

Quando um homem ama, é desnecessário exigir que honre seu pai e sua mãe, ou que não mate.
Para o homem que quer bem a seu próximo é uma ofensa exigir que não roube - como poderia roubar quem ama? E seria supérfluo pedir que não levante falso testemunho - pois jamais faria isto, como seria incapaz de desejar a pessoa que o outro ama.

Portanto, “o amor é o cumprimento da Lei”.

O Amor é a regra que resume todas as outras regras.

O Amor é o mandamento que justifica todos os outros mandamentos.

O Amor é o segredo da vida.

São Paulo terminou aprendendo isto, e nos deu, na carta que lemos agora, a melhor e mais importante descrição do summum bonum, o Dom Supremo.

S.Paulo começa a comparar o Amor com outras coisas que, em seu tempo, tinham muito valor para os homens.

Faz pouco tempo, estive no coração da África, perto dos Grandes Lagos.

Ali, entrei em contato com homens e mulheres que lembravam-se com carinho do único homem branco que conheceram. David Livingstone.

E, ao seguir os passos dele pelo Continente Negro, o rosto das pessoas se iluminava quando me contavam sobre um doutor que por ali havia passado três anos antes.

Eles não podiam compreender o que Livingstone dizia. Mas sentiam o Amor que estava presente em seu
coração.

Carreguem este mesmo Amor com vocês, e o trabalho de suas vidas estará plenamente justificado.

Vocês não podem possuir nada mais eloqüente que isto, quando forem falar de Deus e do mundo espiritual. De nada adianta seguir adiante - levando relatos de milagres, testemunhos de Fé, belas orações.

Se vocês tiverem tudo isto, e esqueceram o Amor, para nada servirá tanto esforço.

Porque vocês podem conseguir tudo. Podem estar prontos para qualquer sacrifício.

Mas se entregarem seus corpos para serem queimados, e não tiverem Amor, isto não significará nada para vocês nem para a causa de Deus.

Paulo Coelho

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Sinto orgulho....

Sinto orgulho em saber
que meu passado me permitiu
ter mais sensibilidade.

Hoje me sinto menos tempestuosa e
mais, bem mais pronta, próxima de mim,
do que fui, do que sou, dessa pessoa
que o tempo me fez.

Hoje, sou mais compreensiva
diante desse futuro que me brinda
com gentil delicadeza.

Surpreendo-me quando
me pego espalhando flores
no caminho que cruzo.

Quem sabe essa não seja
a confirmação de que preciso continuar.

Acho que isso é o que me salva todos os dias.
É essa esperança de vida que me consome.

Bibiana Benites

Para obedecer, é preciso humildade

Quando tiveres de mandar, não humilhes: procede com delicadeza; respeita a inteligência e a vontade de quem obedece. 
Muitas vezes fala-nos através doutros homens e pode acontecer que, à vista dos defeitos dessas pessoas ou pensando que não estão bem informadas ou que talvez não tenham entendido todos os dados do problema, surja uma espécie de convite a não obedecermos.

Tudo isso pode ter um significado divino, porque Deus não nos impõe uma obediência cega, mas uma obediência inteligente, e temos de sentir a responsabilidade de ajudar os outros com a luz do nosso entendimento. 
Mas sejamos sinceros conosco próprios: examinemos em cada caso se o que nos move é o amor à verdade ou o egoísmo e o apego ao nosso próprio juízo. 
Quando as nossas ideias nos separam dos outros, quando nos levam a quebrar a comunhão, a unidade com os nossos irmãos, é sinal certo que não estamos a atuar segundo o espírito de Deus.

Não o esqueçamos: para obedecer, repito, é preciso humildade. 
Vejamos de novo o exemplo de Cristo. Jesus obedece, e obedece a José e a Maria. 
Deus veio à Terra para obedecer, e para obedecer às criaturas. São duas criaturas perfeitíssimas – Santa Maria, Nossa Mãe; mais do que Ela só Deus; e aquele varão castíssimo, José. Mas criaturas. E Jesus, que é Deus, obedecia-lhes! 
Temos de amar a Deus, para amar assim a sua vontade, e ter desejos de responder aos chamamentos que nos dirige através das obrigações da nossa vida corrente: nos deveres de estado, na profissão, no trabalho, na família, no convívio social, no nosso próprio sofrimento e no sofrimento dos outros homens, na amizade, no empenho de realizar o que é bom e justo... (Cristo que passa, 17)

São Josemaría Escrivá

Publicada por Spe Deus

sábado, 5 de janeiro de 2013

O último desejo

Fiquei pensando sobre o tal do fim do mundo. Tudo bem, eu sei que ele não vai acabar coisa nenhuma. Mas e se? Por mais que a gente lute e bata o pé, sempre tem o “se” e o “mas”. Eles se metem na vida da gente sem a menor educação.

Tenho tanto para realizar ainda. Tanto para dizer, mostrar, aprender. Já plantei árvore, já escrevi livro, mas ainda não tive filho. Será que uma cachorrinha vale? É como se fosse minha filha, mas não é humana (apesar de ser bem mais carinhosa e gentil que muita gente). Minha gaveta cerebral está lotada de projetos para o próximo ano. No meu coração tem tanto para arrumar. Não, o mundo não vai acabar. Mas e se?

Meu último desejo nem seria um desejo, mas sim um agradecimento. Obrigada. Obrigada, pai. Obrigada, mãe. Obrigada, irmão. Obrigada, amor. Obrigada, prima. Obrigada, tia. Obrigada, vó. Obrigada, amiga. Obrigada, amigo. Obrigada, leitor. Obrigada a você, que me ensina um pouco todo dia. Obrigada, também, àqueles que não gostam de mim. Minha vida é muito boa, tenho muito o que comemorar.

É claro que tenho arrependimentos, mas não fico debruçada neles. Certas coisas precisam ficar no passado, outras tantas necessitam ser superadas. Sabe aquela frase “que vive de passado é museu”? É a mais pura verdade. Gosto de olhar para frente, de ter esperança. Olhar para trás, muitas vezes, traz uma espécie de rancor amargo. Disso eu não gosto.

A vida de ninguém é um mar de rosas sempre. A gente tem altos e baixos, faz parte do dia a dia das pessoas. E tudo bem, sério, tudo bem. Mas não dá pra deixar a peteca cair ou se desesperar. Se dá para resolver o problema, vamos arregaçar as mangas, tentar dar o nosso melhor e resolver. Se não dá, paciência. Não dá pra perder o sono, ganhar rugas e marcas de expressão. Vida não é sinônimo de complicação.

Os sentimentos são simples. Você gosta ou não. Você gosta porque gosta, porque o outro é importante, porque ele te dá alguma paz, porque ele faz o teu sono ser mais tranquilo. Você não gosta porque o outro te dá arrepios ou não te dá coisa alguma. A gente complica muito as coisas vendo chifre em cabeça de galinha, enxergando o que não existe e nunca vai existir.

Vamos parar com isso. Vamos parar com a fofoca, com a maldade. Vamos nos preocupar com nossas próprias vidas ao invés de meter o bedelho na vida do outro sem ser convidado. Vamos dar importância ao que realmente tem importância. Vamos buscar a paz no trabalho. E se o trabalho vai ruim, troca. Não é complicado, não. Eu troquei. Ganho menos hoje? Sim. Mas ganho mais satisfação, alegria, tranqüilidade. E isso vale um dinheirão. Vamos fazer as pazes com nossos fantasmas. Vamos perdoar. Vamos deixar pra lá aquela história pequena. Vamos começar uma grande história. Vamos visitar aquela tia que mora longe. Vamos limpar as gavetas e as bagunças. Vamos dar lugar para o novo. Vamos parar de sofrer por quem não merece. Vamos entender que ninguém merece o nosso sofrimento. Vamos aceitar que quando alguém te quer não existe barreira que impeça. Vamos sorrir para o ciclo que a vida tem. Vamos, finalmente, buscar a serenidade necessária para viver bem.

Clarissa Corrêa

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Eu sei, mas não devia

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Marina Colasanti


Expressar nossos sentimentos

Muitas vezes quando expressamos nossos sentimentos não o fazemos da forma adequada e isso pode prejudicar consideravelmente nossos relacionamentos, sejam eles familiares, pessoais ou profissionais.

Primeiro precisamos adquirir a disposição de expressar nossos sentimentos, para isso é extremamente importante saber conversar no nível adequado com cada pessoa.

Frequentemente temos a tendência de achar que todos sabem como nos sentimos a respeito deles, geralmente nossas conclusões a esse respeito estão erradas. Ninguém tem obrigação de conhecer nossos sentimentos se nós não nos expressarmos.

John Powel, contou parte de sua história pessoal no dia em que seu pai morreu. “(...) Quando dei a notícia para minha mãe, a resposta dela me surpreendeu, ao invés de cair no desespero ela simplesmente disse: Oh, ele tinha tanto orgulho de você e o amava tanto! Então eu a abracei e comecei a chorar mansamente, as lágrimas não me permitiam falar, mas eu queria dizer-lhe: Não estou chorando a morte do papai, choro porque ele nunca disse que se orgulhava de mim, nunca me contou que me amava. Naturalmente esperava que eu soubesse estas coisas, esperava que eu soubesse o quanto eu significava na vida dele e o grande lugar que eu ocupava em seu coração, mas ele nunca me disse”.

Nossa felicidade plena esta atrelada ao fato de aprendermos a expressar os nossos sentimentos, não apenas pela voz, mas pelo tom, pelo olhar, por gestos.

Muitas vezes quando não conseguimos conversar com águem, o mais comum é pensar: ”O que há de errado com ele?”. Quando na verdade deveríamos questionar sobre os nossos métodos: “O que estou fazendo de errado”?Esta deveria ser nossa principal pergunta.

Um sorriso oportuno, um afago nos cabelos, um toque sensível nos ombros, são de suma importância. O silêncio embora oportuno algumas vezes, quando usado em demasia costuma isolar. Períodos de silencio tenso provocam questionamentos, mágoas e geralmente levam a conclusões erradas.

Quando temos a disposição para expressar o que sentimos, conseguimos criar o momento oportuno para deixar nossa mensagem, mas precisamos estar dispostos. Em outras palavras correr riscos.

Geralmente o que nos impede de expressar nossos sentimentos é o medo do que as pessoas vão pensar de nós.

Meu desafio hoje é: deixemos o medo de lado, não nos preocupemos com coisas sem importância. Sejamos bravos e fortes o suficiente para expressar o que sentimos sem medo de ser feliz.

Silvana Pelosi Silveira

domingo, 30 de dezembro de 2012

Oração de uma mãe de família, para começar o novo ano

Meu Deus, ofereço-te este ano que começa. 
É uma parcela deste tempo tão precioso, que me deste para te servir. 
Ponho-o sob o sinal da fidelidade.

Faz com que ele seja uma longa ascensão em direção a Ti,
e que, em cada dia, eu esteja cada vez mais rica de fé e de amor. 

Meu Deus, ofereço-te todos os que amo 
e por quem meu frágil coração estremece. 

Contudo, sei que os meus filhos te pertencem;
e que, desde agora, estão salvos, 
e que um rio de amor os conduzirá à bem-aventurança. 

Não permitas que eu lhes falte; 
mas, antes, que eu seja para eles o canal invisível da tua graça, 
que os edifique e console, 
que a minha vida lhes manifeste o teu amor. 

Meu Deus, 
também te ofereço a imensa dor deste mundo que criaste e resgataste, 
os sofrimentos das crianças inocentes, 
o longo exílio dos idosos, 
a angústia dos chefes das nações
e este peso da crise, 
que tão duramente se abate sobre nós todos. 

Meu Deus, 
que uma chispa da tua caridade ilumine em nós as trevas 
e que a aurora da paz se levante neste novo ano. 

Peço-te, tudo isto, 
em união com todos os homens e mulheres, 
que estão aqui e oram comigo, 
em união com os teus santos, com a tua Igreja, 
e com o teu Filho, Príncipe da Paz. 

Adaptado de MADELEINE DANIÉLOU (1880-1956)

Vitória na derrota

É só modificar o jeito como olha para a realidade...
Veja bem, perder Clara representou para você uma grande vitória, só que você ainda não foi capaz de perceber isso. Clara, ao lhe deixar, ao lhe trocar por um vendedor de flores, entregou-lhe uma chave poderosa que abrirá lugares nunca visitados do seu coração.

A tristeza, esse sentimento estranho que nos desinstala tanto, pode ser uma verdadeira fonte de virtudes.
Quando bem interpretado, o sofrimento se transforma num impulso fantástico para as superações que precisamos viver. 
"Toda perda sempre esconde um ganho". Essa frase é comum, já foi muitas vezes repetida, eu sei. Mas como é importante repetir essas coisas. Por isso volto a dizer, escute as mesmas coisas de sempre, mas de um jeito novo, diferente. Um dia eu precisei amar minha dor. 

Era o único jeito que tinha de continuar vivendo. Ou aprendia, ou morreria com ela. Resolvi aprender.
Desde então, minha dor é minha companheira, minha mestra, minha parceira.
Deixou de ser minha inimiga no momento em que eu a olhei nos olhos e acertei conhecê-la com mais propriedade. Quis entrar nos mistérios de seus mecanismos com o intuito de poder administrar melhor as suas conseqüências. 

Eu não a busco, mas, quando chega, abro as portas para que não force as janelas. Deixo que entre, ofereço-lhe uma café, olho nos seus olhos para que cesse o medo e depois me empenho em deixar que fique o tempo necessário, até que se dissolva por si só, pela força do tempo. 

Quando acolhida, a dor se dissipa aos poucos, e, de maneira incrível e surpreendente, o que parecia ser tão definitivo transforma-se em matéria transitória. Pode parecer-lhe estranho, mas eu prefiro que ela se acomode na sala.
Se eu não permito que ela entre, ela fica batendo na minha janela, dia e noite, impedindo-me o sono. Eu poderia muito bem ter escolhido lidar com ela a partir de todo o instrumental filosófico que tenho à minha disposição.
Foram anos e anos ensinando a milenar arte de arquitetar o pensamento, mas descobri que não era o melhor caminho.
Filosofar sobre a dor não amenizar o seu poder, ao passo que acolhê-la com simplicidade, isso sim faz sentido.


Pe. Fábio de Melo - Trecho do livro Tempo de Esperas