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quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Diagnóstico não é destino


Mãe é exagerada. Sempre romantiza a infância do filho. A minha, Maria Carpi, dizia que eu fui um milagre, que enfrentei sérias rejeições, que não conseguia ler e escrever, que a professora recomendou que desistisse de me alfabetizar e que me colocasse numa escola especial.

Eu permitia que contasse essa triste novela, dava os devidos descontos melodramáticos, entendia como licença poética.

Até que mexi na estante do escritório materno em busca do meu histórico escolar.

E achei um laudo, de 10 de julho de 1980, assinado por famoso neurologista e endereçado para a fonoaudióloga Zulmira.

“O Fabrício tem tido progressos sensíveis, embora seja com retardo psicomotor, conforme o exame em anexo. A fala, melhorando, não atingiu ainda a maturidade de cinco anos. Existe ainda hipotonia importante. Os reflexos são simétricos. Todo o quadro neurológico deriva de disfunção cerebral.”

Caí para trás. O médico informou que eu era retardado, deficiente, não fazia jus à mentalidade de sete para oito anos. Recomendou tratamento, remédios e isolamento, já que não acompanharia colegas da faixa etária.

Fico reconstituindo a dor dela ao abrir a carta e tentar decifrar aquela letra ilegível, espinhosa, fria do diagnóstico. Aquela sentença de que seu menino loiro, de cabeça grande, olhos baixos e orelhas viradas não teria futuro, talvez nem presente.

Deve ter amassado o texto no bolso, relido sem parar num cantinho do quintal, longe da curiosidade dos irmãos.

Mas não sentiu pena de mim, ou de si, foi tomada de coragem que é a confiança, da rapidez que é o aperto do coração. Rejeitou qualquer medicamento que consumasse a deficiência, qualquer internação que confirmasse o veredito.

Poderia ter sido considerada negligente na época, mas preferiu minha caligrafia imperfeita aos riscos definitivos do eletroencefalograma. Enfrentou a opinião de especialistas, não vendeu a alma a prazo.

Ela tirou licença do trabalho para me ensinar a ler e escrever, criou jogos para me divertir com as palavras e dedicou seus dias a aperfeiçoar minha dicção.

Em vez de culpar o destino, me amou mais.

Na vida, a gente somente depende de alguém que confie na gente, que não desista da gente. Uma âncora, um apoio, um ferrolho, um colo. Se hoje sou escritor e escrevo aqui, existe uma única responsável: Maria Carpi, a Mariazinha de Guaporé, que transformou sua teimosia em esperança. E juro que não estou exagerando.


Veja o meu depoimento emocionado no programa Encontro com Fátima Bernardes, da Rede Globo, nesta quarta (21/9):
http://gshow.globo.com/programas/encontro-com-fatima-bernardes/videos/t/programa/v/fabricio-carpinejar-teve-diagnostico-de-retardo-mental-aos-8-anos/5321109

domingo, 22 de novembro de 2015

Hidratação pelas palavras


Relacionamento se faz no detalhe, na pronúncia, no modo como nos comportamos longe das datas festivas e das folgas dos finais de semana.

Ou se tem uma rotina apaixonada ou se é levado pela agressividade. 
Não identificamos o quanto perdemos inúmeras chances de delicadeza ao longo do dia. 

Desperdiçamos a gentileza com quem amamos.

Parece que a educação deve ser usada para os estranhos, aquele que está ao nosso lado é obrigado a aguentar grosseria, irritação, azedume, maus tratos. 

Entramos no jogo de compensações: quando tristes, maltratamos; quando felizes, festejamos, e não enxergamos problema nenhum nesta alternância. 

É preciso criar um mínimo civilizacional, ainda que nos dias mais trágicos, para não ferir os próximos e não destruirmos os laços com as nossas mágoas. 

Se seguirmos os nossos impulsos, seremos bichos. Morderemos e atacaremos com as palavras.

Ninguém desperta de bom humor (trata-se de uma lenda), o que existe é um redobrado exercício de concentração para sorrir de manhã cedo. 
A docilidade é uma ardilosa construção psicológica e temperamental. Maquiamos o caráter para conviver.

Generosidade, portanto, consiste em atenção lapidada, em refinada vigilância, em não ser tomado pelo impulso egoísta de que o outro tem a obrigação de nos servir e nos entender. 

Só é acabar a água na geladeira que já podemos antever o temperamento de cada um na relação. 

É uma frase inofensiva que traduz uma gama variada de sentimentos. Por uma declaração banal e singela, já antevemos se a pessoa pretende discutir, agredir ou nos confortar.

– Você me deixou sem água? (autoritário)

– Nem água tem nesta casa! (apocalíptico)

– Esqueceu de comprar água? (acusatório)

– Esqueci de comprar água! (culpado)

– Temos que comprar água! (solidário)

– Você não presta atenção em nada! (oportunista)

– Acabou a água, vou sair para comprar! (engajado)

– Você deseja que eu morra de sede? (filial)

– Cadê a água? (curto e grosso)

– Não temos mais dinheiro para comprar água? (inseguro)

– Vamos beber água da torneira por enquanto. (conformado)

– Farei uma lista de supermercado para não esquecermos nada. (compreensivo)

Quando acabar a água, cuide também para não acabar o amor.

Fabrício Carpinejar

A alegria veste a tristeza


Tenho uma predileção por uma frase de Federico Fellini: para a sombra existir, o sol deve estar a pique na cabeça. 
Sem a luz, o escuro não se forma. 
Sem o escuro, a luz não tem sentido. 
O mesmo acontece com a alegria. Dentro da alegria mais genuína, mais intensa, mora a sombra da tristeza. 
A tristeza só existe em função da alegria. É o medo de perder a felicidade que faz com que você se esforce para mantê-la.


Não há alegria inteira, nem tristeza pura, uma depende da outra. Podemos transpirar euforia, mas sobreviverá uma pontinha de melancolia lá no fundo de nosso riso. Porque mantemos a consciência de que a alegria, por mais duradoura que seja, vai passar. Que ela logo se transformará em nostalgia, e que não estaremos mais plenos como daquele jeito de novo – e isso não é ruim e nem é bom, é inevitável da experiência. 
A tristeza dentro da alegria nos permite pensar e entender o quanto aquele momento é importante e que precisamos aproveitá-lo enquanto dura.

A alegria é esta vontade de ser para sempre que termina. A tristeza vem nos consolar a aceitar que o fim de uma lembrança não significa o fim de nossa vida. De igual forma, dentro da tristeza mais severa, da depressão mais aguda, é possível notar a presença de uma alegria discreta, retraída, tímida.


Tudo pode soar péssimo, mas um abraço, um quindim, um filme, o telefonema insistente de um amigo é capaz de nos devolver a vontade de dar a volta por cima. 

A simplicidade é terapêutica, a banalidade nos cura dos grandes males da solidão. 
Haverá sempre o sol por detrás das nuvens escuras dos pensamentos suicidas. Na sombra mais espessa de nosso temperamento, coexistem os raios solares minúsculos do contentamento, das dádivas da rotina e dos pequenos prazeres.
Estaremos desolados com o tempo fechado e chuvoso do rosto, não enxergando nenhuma saída, mas a alegria se conservará perto e nos mostrará que a tristeza também passará, que é uma fase e um ciclo para absorver separações, desentendimentos e traumas. 

A lágrima brilhará como uma vidraça limpa e iluminada. Se a tristeza é saudade dentro da alegria, a alegria é esperança dentro da tristeza.

Nenhum sentimento é definitivo e completo. A luz veste a sombra, a sombra veste a luz. A alegria costura a tristeza, a tristeza costura a alegria. Alfaiates que se revezam no longo pano dos dias.

Fabrício Carpinejar

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Vamos brincar de gangorra?


Quando um está mal, o outro deve estar bem.

Quando um está irritado, o outro deve ser paciente.

Quando um está cansado, o outro deve encontrar disposição.

Quando um adoece, o outro deve mostrar saúde.

Quando um se envaidece de razão, o outro deve ser humilde no
cuidado.

No casal, as fraquezas não podem convergir. Não podem ocorrer
simultaneamente.

Se vê que sua parceira explodiu, escolha um momento distinto
para desabafar e reclamar. Recue de sua catarse. Deixe para o
dia seguinte. Ela nem irá ouvi-lo no acesso de cólera.

Quando os dois decidem ser a parte mais fraca do relacionamento, os laços sucumbem.

Não podem ocupar o mesmo papel, o mesmo script. Só há vaga para um protagonista em cada crise. Alguém terá que ser coadjuvante.

Dois vilões no mesmo filme geram divórcio.

A alternância é o segredo da convivência. Mudar de lugar sempre, analisar quem mais precisa e ceder se for necessário.

O que traz estabilidade é a gangorra: quando a mulher cai, o
homem estende o braço, quando o homem vacila, a mulher acode.

A separação acontece quando duas chagas conversam procurando
mostrar qual é a mais funda. É quando duas feridas travam uma
guerra buscando sangrar mais, e nenhum dos lados estanca a
própria carência.

O sofrimento acentua o orgulho, a dor agrava a cegueira, a
ansiedade de resolver logo a discordância apenas abre a porta
para o fim.

É uma disputa do desespero, e o casal se afoga nas mágoas. Não
haverá sequer um salva-vidas acordado.

Ainda que sobre paixão, ainda que reste confiança, nada segura
o momento em que os dois coincidem em enlouquecer. A loucura
exige troca de plantão.

O casal é capaz de destruir uma história linda e promissora por
uma noite de fúria.

A esposa e o marido se transformam em crianças, e crianças
abandonadas em casa berrando e com medo. Tentarão gritar alto
para chamar os vizinhos e denunciar os maus-tratos. E vão se
indispor e se ofender tanto, e vão se provocar e se agredir tanto, que depois é difícil cicatrizar.

Um tem que ser adulto na hora do pânico. Um tem que ser responsável. Um tem que ser forte o suficiente para preservar as fraquezas do amor.

Fabricio Carpinejar

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Tempo é ternura



Viver tem sido adiantar o serviço do dia seguinte. No domingo, já estamos na segunda, na terça já estamos na quarta e sempre um dia a mais do dia que deveríamos viver. Pelo excesso de antecedência, vamos morrer um mês antes.

Está na hora de encarar a folha branca da agenda e não escrever. O costume é marcar o compromisso e depois adiar, que não deixa de ser uma maneira de ainda cumpri-lo.

Tempo é ternura.

Perder tempo é a maior demonstração de afeto. A maior gentileza. Sair daquele aproveitamento máximo de tarefas. Ler um livro para o filho pequeno dormir. Arrumar as gavetas da escrivaninha de sua mulher quando poderia estar fazendo suas coisas. Consertar os aparelhos da cozinha, trocar as pilhas do controle remoto. Preparar um assado de 40 minutos. Usar pratos desnecessários, não economizar esforço, não simplificar, não poupar trabalho, desperdiçar simpatia.

Levar uma manhã para alinhar os quadros, uma tarde para passar um paninho nas capas dos livros e lembrar as obras que você ainda não leu. Experimentar roupas antigas e não colocar nenhuma fora. Produzir sentido da absoluta falta de lógica.

Tempo é ternura.

O tempo sempre foi algoz dos relacionamentos. Convencionou-se explicar que a paixão é biológica, dura apenas dois anos e o resto da convivência é comodismo. Não é verdade, amor não é intensidade que se extravia na duração.

Somente descobriremos a intensidade se permitirmos durar. Se existe disponibilidade para errar e repetir. Quem repete o erro logo se apaixonará pelo defeito mais do que pelo acerto e buscará acertar o erro mais do que confirmar o acerto. Pois errar duas vezes é talento, acertar uma vez é sorte.

Acima da obsessão de controlar a rotina e os próximos passos, improvisar para permanecer ao lado da mulher. Interromper o que precisamos para despertar novas necessidades.

Intensidade é paciência, é capricho, é não abandonar algo porque não funcionou. É começar a cuidar justamente porque não funcionou.

Casais há mais de três décadas juntos perderam tempo. Criaram mais chances do que os demais. Superaram preconceitos. Perdoaram medos. Dobraram o orgulho ao longo das brigas. Dormiram antes de tomar uma decisão.

Cederam o que tinham de mais precioso: a chance de outras vidas. Dar uma vida a alguém será sempre maior do que qualquer vida imaginada.

Fabrício Carpinejar

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Lição de filha


Enfrentei divórcio no ano passado e fui premiado com Gripe A. Além disso, estava brigado com a minha filha. Quando jurava que ficaria sozinho, ela apareceu subitamente em casa e eu perguntei:

- O que você está fazendo aqui, não estava chateada comigo?

Ela respondeu:

- Sim, estou. Só que antes você precisar melhorar para eu voltar a ter raiva. Dependemos de igualdade de condições.

E me deu chá e me deu sopa e zelou meu sono durante três dias.

Quando me recuperei, ela me olhou e seguiu seu rumo:

- Agora posso retomar a minha brabeza. Está de novo com saúde para discutir.

Salvar primeiro o outro para depois salvar o relacionamento; esta foi a lição que minha filha me alcançou.

Neste final de semana, não direi Feliz Dia dos Pais, mas Feliz Dia dos Filhos!

Fabrício Carpinejar

terça-feira, 30 de julho de 2013

Me ame com fé


A fé casa mais do que o amor.

A fé é uma esperança que não morre.

Que você tenha fé em mim mais do que esperança.

Pela fé acreditará sempre em mim, tanto faz o que aconteça, tanto faz o desespero.

Estará comigo na pobreza, na doença, na falência, na dor, na angústia até a noite escura dobrar a esquina do sol.

Hoje todo mundo não quer relacionamento, mas felicidade. Ser feliz o mais rápido possível.

Felicidade é fácil, a fé é difícil.

Felicidade no empurra ao descarte, fé nos ensina a valorizar o pouco que somos.

Felicidade é atingir objetivos, fé é não largar a mão de nossa companhia mesmo quando os objetivos não são atingidos.

A fé é estar junto mesmo quando somos tristes. É ajudar o outro a se levantar. É não abandonar o outro porque ele está passando dificuldades.

A fé é uma certeza para suportar todas as demais dúvidas.

O amor nunca passa sem a fé. A felicidade passa, sempre passa.

Amor nos leva para fé, a felicidade só nos leva ao egoísmo.

Fabrício Carpinejar

sábado, 20 de julho de 2013

Dia do Amigo

Texto bem atual sobre amizade verdadeira....


Os amigos não precisam estar ao lado para justificar a lealdade. Mandar relatórios do que estão fazendo para mostrar preocupação.

Os amigos são para toda vida, ainda que não estejam conosco a vida inteira.

Temos o costume de confundir amizade com onipresença, e exigimos que as pessoas estejam sempre por perto, de plantão.

Amizade não é dependência, submissão. Não se tem amigos para concordar na íntegra, mas para revisar os rascunhos e duvidar da letra. É independência, é respeito, é pedir uma opinião que não seja igual, uma experiência diferente.

Se o amigo desaparece por semanas, imediatamente se conclui que ele ficou chateado por alguma coisa. Diante de ausências mais longas e severas, cobramos telefonemas e visitas. E já se está falando mal dele por falta de notícias. Logo dele que nunca fez nada de errado!

O que é mais importante: a proximidade física ou a afetiva? A proximidade física nem sempre é afetiva. Amigo pode ser um álibi ou cúmplice ou um bajulador ou um oportunista, ambicionando interesses que não o da simples troca e convívio.

Amigo mesmo demora a ser descoberto. É a permanência de seus conselhos e apoio que dirão de sua perenidade.

Amigo mesmo modifica a nossa história, chega a nos combater pela verdade e discernimento, supera condicionamentos e conluios. São capazes de brigar com a gente pelo nosso bem estar.

Assim como há os amigos imaginários da infância, há os amigos invisíveis na maturidade. Aqueles que não estão perto podem estar dentro. Tenho amigos que nunca mais vi, que nunca mais recebi novidades e os valorizo com o frescor de um encontro recente. Não vou mentir a eles, “vamos nos ligar?”, num esbarrão de rua. Muito menos dar desculpas esfarrapadas ao distanciamento.

Eles me ajudaram e não necessitam atualizar o cadastro para que sejam lembrados. Ou passar em casa todo final de semana ou me convidar para ser padrinho de casamento, dos filhos, dos netos, dos bisnetos. Caso os encontre, haverá a empatia da primeira vez, a empatia da última vez, a empatia incessante de identificação.

Amigos me salvaram da fossa, amigos me salvaram das drogas, amigos me salvaram da inveja, amigos me salvaram da precipitação, amigos me salvaram das brigas, amigos me salvaram de mim.

Os amigos são próprios de fases: da rua, do Ensino Fundamental, do Ensino Médio, da faculdade, do futebol, da poesia, do emprego, da dança, dos cursos de inglês, da capoeira, da academia. Significativos em cada etapa de formação. Não estão na nossa frente diariamente, mas estão em nossa personalidade, determinado, de forma perceptível, as nossas atitudes.

Quantas juras foram feitas em bares a amigos bêbados e trôpegos?

Amigo é o que fica depois da ressaca. É glicose no sangue. A serenidade.

Fabrício Carpinejar

terça-feira, 16 de julho de 2013

Elogio é sal na relação


Meu amigo preparou o almoço. Uma massa pesto maravilhosa.

Quando sua esposa apareceu em casa, fui elogiar:

— Seu marido é um autêntico chef italiano. Cozinhou uma massa e tanto.

Adivinha o que ela respondeu?

— Assim é fácil, qualquer um faz, ele usou molho pronto.

Em vez de comemorar o capricho do marido, ela desdenhou. Ela subestimou. Ela colocou o sujeito para baixo. Ela diminuiu a importância do ato.

De repente, nem percebemos o quanto rebaixamos quem a gente ama.

Pelo pretexto da sinceridade. Pelo pretexto da espontaneidade.

É um desejo de desmascarar totalmente dispensável, é um desejo de ser mais verdadeiro do que a verdade totalmente desnecessário.

A pessoa se esforça em ser gentil e agradar e não respeitamos a tentativa, não reconhecemos a intenção.

Temos que avacalhar, mostrar que o outro não é perfeito, expor fraquezas publicamente, entregar os defeitos. Para quê?

Devia ser o contrário. Os casais deviam se proteger, deviam se cuidar, deviam se unir pelas virtudes.

Os casais deviam se incentivar, se elogiar, se respeitar.

Acordar e já escolher algo bom a ser dito, algo bom a ser sublinhado. Não alimentar o rancor já no café da manhã.

O mundo do trabalho já é tão cheio de crítica, o mundo do trabalho já é tão perverso, não é justo maltratar nossa família.

Fabrício Carpinejar

sábado, 29 de junho de 2013

Pontualidade


Não me importo de esperar vinte minutos com a mão na maçaneta enquanto diz que já está pronta para trocar novamente de vestido.

Não me importo de esperar dez minutos no saguão do cinema cumprimentando conhecidos e tentando segurar o refrigerante e dois baldes de pipoca enquanto vai ao banheiro.

Não me importo de esperar chegar em casa para que me diga quem é o amigo que a abraçou efusivamente na festa.

Não me importo de esperar três horas na salinha do hospital para saber se a nossa criança nasceu.

Não me importo de esperar as longas conversas de sua mãe sobre o meu temperamento.

Não me importo de esperar seu corte de cabelo, que sempre envolve pintura, hidratação e escova.

Não me importo de esperar a aprovação de suas amigas.

Não me importo de esperar nossos filhos regressarem das baladas para me enfurnar em seu cheiro.

Não me importo de esperar que tranque as portas antes de tirar o salto.

Não me importo de esperar que volte das lojas com as sacolas dentro das outras sacolas para parecer que gastou menos.

Não me importo de esperar que faça as pazes com Deus.

Não me importo de esperar quando arruma o armário e doa metade das roupas.

Não me importo em esperar que encontre a roupa que já deu na semana passada.

Não me importo de esperar que o filme acabe para namorar.

Não me importo de esperar que devolva as cobertas que rouba para seu lado de noite.

Não me importo de esperar você consultar suas mensagens antes de sair.

Não me importo de esperar sua irritação em dias de chuva.

Não me importo de esperar você nunca me retornar ligações depois das reuniões.

Não me importo de esperar que se acorde no domingo, com receio de que fique nublada.

Não me importo de esperar que o ciúme desapareça e volte a me ver como se eu fosse somente seu.

Não me importo de esperar sua TPM.

Não me importo de esperar o melhor momento para viajar.

Não me importo de esperar o tempo que precisa para descobrir que me ama. Ou o tempo que precisa para descobrir que não me ama.

Não me importo de esperar que venha de repente nossa música no rádio.

Não me importo de esperar as revelações de fotografias de sua máquina antiga.

Não me importo de esperar o embrulho de um presente.

Não me importo de esperar suas discussões de fim de noite.

Não me importo de esperar seu beijo de café cortado.

Não me importo de esperar sua ressaca depois da dança.

O que desejo dizer é que não precisa se apressar.

Nunca chegará atrasada porque sempre estarei a esperando.

Fabrício Carpinejar
 

quarta-feira, 26 de junho de 2013

A rua da palavra


O marido bate na mulher quando não tem mais palavras.

A mãe bate no filho quando não tem mais palavras.

O motorista sai do carro para brigar quando não tem mais palavras.

Manifestantes invadem lojas e depredam a cidade quando não tem mais palavras.

A palavra é o último reduto da sensibilidade. A fronteira derradeira.

Quem perde a palavra perde o respeito.

Quem perde a palavra perde o silêncio.

Quem perde a palavra perde o direito de protestar.

Quem perde a palavra perde a solidão, o lugar para voltar.

Quem perde a palavra perde a causa, perde o fôlego, perde a justiça.

Perde-se definitivamente.

A palavra é contundência. Depois dela, só vem a crueldade, a truculência, a covardia.

A palavra é firmeza. Depois dela, só vem medo e desconfiança.

A palavra é ouvinte. Depois dela, a memória desaparece.

A palavra é o rosto da voz, essa digital do vento. Depois dela, não restam traços, não resta tinta.

A palavra é responsabilidade, é decisão, é destino. Depois dela, o anonimato é inconsequente e criminoso.

A palavra é fé. Depois dela, seja o que Deus quiser.

A palavra é paz de estar com a verdade. Depois dela, vem o exagero, a distorção, a mentira.

Abdicar da palavra é entregá-la para os sinônimos errados, para as pessoas erradas.

A palavra é o quintal derramado na rua. Depois dela, as vitrines são becos.

A palavra é ter espaço para frente e para trás. Já a violência sem palavras é um avião que não recua, que não dá ré, que somente avança ao desastre.

A palavra é tempo oferecido. Tempo de justificar. Tempo de convencer. Tempo de explicar as escolhas.

Sem palavra, o tempo é ruína, o tempo é explosão, o tempo é avareza.

A palavra é confiança da resposta. Depois dela, somos animais. Só quebramos para mostrar força, só destruímos porque não entendemos o mundo.

A palavra é generosidade. Depois dela, só vem a soberba, a arrogância, o preconceito.

Palavra é vidro. Tem que se preservar inteira para não cortar.


Fabrício Carpinejar


terça-feira, 18 de junho de 2013

A vida é isso...

"Quando pequeno eu ia pra praça, via a paineira, eu não conseguia subir na paineira, tinha aqueles espinhos na paineira. 
É uma árvore cheia de espinhos, espinhos grossos. 
Sempre pensei, “Ai que árvore triste, ninguém sobe nela.” Me dava uma compaixão daquela árvore. 

Quando adulto, na mesma praça, quando eu estava embalando meu filho, embalando, no balanço, eu vi uma criança subindo a paineira, e ela subia a paineira de um jeito que eu nunca tinha imaginado, usando o próprio espinho como degrau. 

Daí eu me dei conta, a vida é isso! Usar a dor para subir mais alto. O espinho não nos atrapalha."

 “A vida é feita de escolhas porque a gente escolhe a própria casualidade. A gente tem o direito de escolher o nosso destino. 

E nunca recuse uma tristeza, porque com certeza ela servirá de apoio para uma alegria!"


Fabrício Carpinejar

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Até abraçar desaprendemos

" Abraço tem q ser devagarinho... sentindo coração com coração..."
Até abraçar desaprendemos. Ninguém mais abraça com vontade. Com sinceridade de velório.
Odeio abraço falso, como aquele beijo de frígida, no qual a face bate na face e os lábios se transformam em beiço. 
Abraço tem que ter pegada, jeito, curva. Aperto suave, que pode virar colo. Alento tenso, que pode virar despedida. 

É pelo abraço que testo o caráter do outro. 
Não confio em quem logo dá tapinhas nas costas. A rapidez dos toques indica a maldade da criatura. Não sou porta para bater. Nem madeira para espantar azar. Abraço com toquinho é hipócrita. É abraço de Judas. De traidor. O sujeito mal encosta a pele e quer se afastar. Pede espaço porque não suporta os pecados dos pensamentos.

Devemos fechar os olhos no abraço, respirar a roupa do abraçado, descobrir o perfume e a demora no banho. 
Abraço não pode ser rápido senão é empurrão. Requer cruzamento dos braços e uma demora do rosto no linho. Abraço é para atravessar o nosso corpo. Ir para a margem oposta. Nadar para ilha e subir ao topo da pedra pela gratidão de sopro. 

Sou adepto a inventar abraços. Criar abraços. Inaugurar abraços. Realizar um dicionário de abraços. Um idioma de abraços. O meu é o de cadeira de balanço. Giro nas pontas dos pés. Não largo, os primeiros minutos são para sufocar, os demais servem para o enlaçado se recuperar do susto. 

Não entendo onde terminará o abraço. Se a pessoa vai chorar ou vai rir. Abraço é confissão. Dez minutinhos de sol e de liberdade.

Fabricio Carpinejar



terça-feira, 16 de abril de 2013

Morrer com saúde


Se eu tivesse seis meses de vida, não voltaria a fumar.

Se eu tivesse seis meses de vida, não empreenderia nenhuma viagem pelo mundo.

Se eu tivesse pouco tempo de vida, não enlouqueceria a resistência com farras e bebedeiras.
......
Não iria surtar dobrando o colesterol e engordando nas mesas das churrascarias.

Absolutamente não me vingaria dos vícios abandonados ao longo dos anos.

Não depredaria a casa bradando justiça.

Não sairia atropelando os amigos com as vontades reprimidas.
....

Não lamentaria que não adiantou em nada a preocupação com o bem-estar, que fui burro me controlando.

O fim não elimina o valor das dietas que experimentei, das fisioterapias que acumulei, das restrições alimentares que adotei.

Temos a sensação de que paramos o que nos prejudica para viver mais.

Eu parei para viver melhor. Mesmo que seja por mais alguns dias.

Viver melhor para mim é viver mais.

Minha mãe de 73 anos soltou uma de suas frases sábias quando passeávamos pelo bairro Petrópolis.

– Quero morrer com saúde.

– Como assim? – repliquei. – O que é morrer com saúde?

– Quero morrer com forças para enfrentar a morte de igual para igual. Morrer mexendo na horta, lendo na varanda, pensando em qual filme ainda não vi. Tão triste morrer e não ter nem força para cumprimentar os anjos.

Eu também quero, mãe. Morrer bonito. Morrer com o rosto descansado e satisfeito. Morrer com um pouco de preguiça. Morrer sobrando. .... Morrer espiando as ofertas dos classificados, completando as palavras cruzadas do jornal. Morrer com as articulações das pernas firmes e os braços levantando o peso das frutas. Morrer sabendo o resultado de meu time e sua posição no campeonato. Morrer com confiança. Morrer respirando largamente. Morrer com a memória das datas prediletas.

Não morrer pessimista. Não morrer desesperançado. Não morrer longe de mim.

Morrer feliz com o que eu tive e fui capaz de fazer.

Morrer acenando com força na janela dos olhos de Deus.

Fabrício Carpinejar



É o amor...

Nos assustamos com o amor, deveríamos nos assustar com a indiferença.

Mas é o amor que tememos, como se não fosse possível, como se fosse um engano, como se fosse o endereço trocado.

"Não pode ser verdade" é o que sussurramos para o batimento.

"Não há ninguém aqui dentro" é o que respondemos para as batidas na porta.

Nos acostumamos a não receber o amor. A não acreditar no amor. A escondê-lo entre as cartas e fotos das gavetas.

Nos conformamos com o pouco para não sofrer em esperar. Nos restringimos às sobras para não adoecer de expectativa.

Diminuímos a esperança para não exigir. Reduzimos nosso apetite para não morrer de fome.

Éramos intensos, passionais demais para o passado. Éramos exagerados, sentimentais demais para os outros.

Éramos aflitos, desesperados demais para as regras. Amávamos mais do que o recomendável.

Sempre pensamos que carregávamos um erro, que o problema estava em extrapolar a medida, que a grande falha consistia em ser transparente, em querer casar e viver com alguém até depois de viver.

Quando nos encontramos, foi o equivalente a sair do manicômio, a fugir do hospital, a voltar para a própria cidade de nascença.

Entre nós, não há estranheza, não há mendicância, não há solidão do sonho.

Amar você não tem tamanho. Não temo falar o que desejo.

Seus olhos crescem nos meus. Suas palavras me devolvem a voz.

Nossa pele floresceu.

Fabrício Carpinejar

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Dependência

A gente reclama muito da dependência, mas como é maravilhosa a dependência, confiar no outro, confiar no outro a ponto de não somente repartir a memória, mas repartir as fantasias . 
Confiar no outro a ponto de esquecer quem se foi assim que o outro esteja junto, é talvez chegar em casa e contar seu dia e só sentir que teve um dia quando a gente conta como foi . 
É como se o ouvido da outra pessoa fosse nossos olhos . 
Gostar é uma confissão . 
Gostar é justamente quando um sussurro funciona melhor que um grito . 
Gostar é não ter vergonha de nossas dúvidas, é falar uma bobagem e ainda se sentir importante . 
É arrumar a cama e nunca estar sozinho . 
É aquela vontade danada de andar de mãos dadas durante o dia e de pés dados durante a noite.

Fabrício Carpinejar

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Bendita


Palavra tem sentimento, muda o destino do casal.
Um termo errado nos precipita ao desterro, o termo certo nos conduz ao paraíso.
Falar não é um detalhe para as mulheres que nasceram para ouvir. É trocar um adjetivo, que renovamos o alvará do amor.
Não podemos, homens, nos dar ao luxo da preguiça. A sedução é trabalho diário e incansável.
Cultive o dicionário, colecione vocábulos, sente na gramática.

Não diga que ela é autoritária, diga que ela é uma liderança.

Não diga que ela é indiscreta, diga que ela é curiosa.

Não diga que ela mente, diga que ela possui uma imaginação poderosa.

Não diga que ela é estourada, diga que ela é corajosa.

Não diga que ela é atrapalhada, diga que ela é perfeccionista.

Não diga que ela é irritante, diga que ela é persistente.

Não diga que ela é consumista, diga que ela sabe escolher.

Não diga que ela é manipuladora, diga que ela é decidida.

Não diga que ela é dramática, diga que ela é emotiva.

Não diga que ela é vulgar, diga que ela ama a simplicidade.

Não diga que ela é imprudente, diga que ela é ousada.

Não diga que ela é ciumenta, diga que ela é interessada.

Não diga que ela é medrosa, diga que ela é sensível.

Não diga que ela cozinha mal, diga que sua comida é rústica.

Não diga que ela exagerou ao cortar o cabelo, diga que ela transpira independência.

Não diga que ela grita, diga que todos precisam ouvi-la.

Não diga que ela é agressiva, diga que ela é lutadora.

Não diga que ela é orgulhosa, diga que ela tem personalidade.

Não diga que ela é possessiva, diga que ela é cuidadosa.

Não diga que ela é mimada, diga que ela é uma princesa.

Não diga que ela não tem razão, diga que sua opinião é importante.

Não diga que ela sempre se atrasa, diga que admira sua calma.

Não diga que ela é confusa, diga que ela é misteriosa.

Não diga que ela é ambiciosa, diga que ela é sonhadora.

Não diga que ela entendeu errado, diga que você explicou muito rápido.

Não diga que ela é fofoqueira, diga que ela é bem informada.

Não diga que ela é obcecada, diga que ela não desiste.

Não diga que ela é maníaca, diga que ela é organizada.

Não diga que ela é gorda, nem tente encontrar um sinônimo, apenas não diga.

Fabrício Carpinejar

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Macho pela metade

Não entendo os barulhos do carro.
Afora a luz obrigatória da gasolina, ignoro o que significam os símbolos menores do painel. Eu ainda me confundo ao disparar o limpador de para-brisa.
Não foi uma vez que saí com farol alto em vez dos normais e recebi advertência dos outros motoristas. Não me pergunte qual a calibragem dos pneus, está anotado em algum lugar.
Metade do manual do veículo é desconhecido para mim. Falei metade, mas metade é otimismo.
Não troquei pneu na vida, o macaco hidráulico não recebeu graxa de minha mão.

Uso carro, não moro no carro.
Se surge um ronronar diferente, não sou como meus amigos que logo arriscam um diagnóstico:
— São as pastilhas dos freios.
— É a embreagem.
— Pode ser as cruzetas.
Admiro o dom mecânico dos colegas. Não alcanço nem o que é cruzeta para participar do leilão de hipóteses e mentir vantagem.
Diante de falhas, abandono o Sandero na oficina e não questiono o orçamento.

Na rua, um ladrão é capaz de levar a estepe do porta-malas que nunca notarei o furto.
Em compensação, sei reconhecer a tosse do meu filho em enfermaria lotada.

Sei reconhecer o choro de meu filho em praça dominical.
Sei reconhecer o riso de meu filho em pleno alvoroço do recreio.
Sei reconhecer o grito de meu filho no estádio de futebol.
O filho é a universidade do meu instinto. Decorei seus timbres da dor ao entusiasmo, do berro à gargalhada.

Meus ouvidos são caseiros. Meus ouvidos são cardíacos. Meus ouvidos são caninos em casa.

São vários anos acordando com seu rosto no café da manhã, antecipando seus desejos, adivinhando seus rancores, repondo as cobertas do meu menino na madrugada.

Pelos silêncios e omissões, identifico quando experimenta a alegria de uma novidade.
Pela maneira de abaixar a cabeça, percebo quando pede ajuda.
Pela pressa da letra no caderno, vejo sua displicência e vontade de voltar aos jogos no computador.

A duração do seu bocejo denuncia a insônia. O olhar parado no copo revela o descontentamento com o dia.
Sofro com seu possível sofrimento. Eu me preocupo com a nova turma, se suporta boicote ou é amado, se está comendo o suficiente, se está feliz, se tem esperança.
Junto pressentimentos, sonho rumores, advogo sinais.

Sou mais pai do que homem.



segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O câncer que levou o seu amor


Meu amigo Antonio ficou viúvo. Sua esposa morreu de câncer de pâncreas. Algo devastador, que derrubou em poucos meses a companhia de temperamento forte, risonho e invencível.

Ele não contou com tempo para se preparar e se despedir. O luto veio como um susto. De repente, depois de 30 anos de casamento, ele se acordava sozinho e tomava café sozinho e conversava sozinho e se desesperava sozinho. Antes, até sofrer, sofria com ela.

Sua primeira atitude, assim que depositou seu coração na pedra do São Miguel e Almas, foi limpar a casa, tirar os objetos de Elisa de perto dos olhos. A casa restou pela metade, uma residência casada com móveis de solteiro. Pôs fora as roupas, os cabides carregados de ombreiras, recolheu os vasos e bibelôs, arregimentou perfumes e produtos de beleza, esvaziou as prateleiras. Não esperou doar para caridade. A dor é puro pânico, egoísta, precisa se libertar da palavra, não consegue ser generosa.

Empilhou caixas e caixas de pertences valiosos na frente do portão, para o lixeiro levar. Em segundos, despachou o que o casal acumulou numa vida inteira. Quando morre a figura de nosso amor, mas o amor não morre, não há o que escolher, tudo é lembrança sangrando de novo, somos crianças mexendo, a cada instante, em cascas de ferida.

Antonio circulava pelos aposentos como um fantasma. Já podia, porém, observar por onde andava. Não tinha que pagar mais pedágio ao tocar em qualquer objeto. A faxina o protegeu dos próprios atos falhos. Ajudava o esquecimento a esquecer.

O espaço dobrou de tamanho e intensidade: vazio, deserto, imenso. Sem nenhuma foto ou quadro na parede. Sem nenhum risco de contato com o passado conjugal.

Mas, ao mexer no armarinho do banheiro e buscar o barbeador, encontrou a escova de cabelos de Elisa no fundo da gaveta.

A escova estava repleta de cabelos da Elisa. Cabelos vivos de Elisa morta.

Ele odiava limpar a escova antes de se pentear, não considerava justo, já que era fruto do descuido dela.

Agora não. Ele começou a suspirar devagar para não chorar. O suspiro é o choro da boca.

Não aceitava que a escova tivesse sobrevivido a sua blitz. Odiou aquele acessório com todo amor e amou com todo ódio.

Nas cerdas da escova, brilhavam cabelos castanhos e longos que ele conhecia como ninguém.

Ele sentou-se no sofá e aproximou o nariz da escova, chegou a raspar a pele, para recuperar o perfume do pescoço de Elisa.

Só que predominava o cheiro de madeira do cabo mais do que o incenso de flor de sua memória.

Como um botânico aflito diante de espécie rara, tratou de tirar um por um os fios da escova.

E fez uma trança dos cabelos de sua mulher morta.

Amarrou a mecha com um laço preto e inspirou longamente sua fragrância. Nebulizou o rosto até reaver o gosto do beijo de Elisa. Nunca o último beijo.

Fabrício Carpinejar

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Carta de intenções


Que eu possa abrir minha casa como uma garrafa de vinho. Que eu possa sair de casa como uma garrafa de champanhe.

Que eu possa respeitar opiniões diferentes da minha. Que eu não tente convencer ninguém a pedir desculpas. Que eu possa me desculpar antes do ódio. Que eu possa descobrir a altura dos postes com pipas. Que eu possa pescar conhecidos nos viadutos. Que eu possa escrever cartas de amor de repente. Que eu possa viajar para adorar a distância. Que eu possa voltar para dizer o que não tive coragem. Que eu possa conversar com estranhos para matar a estranheza.

Que eu possa comprar fiado minha própria fé. Que eu amarre os sapatos dos filhos como se fosse um terço. Que eu possa gemer diante de uma torta de nozes. Que eu pense em meu amor ao atravessar a rua. Que eu pense na rua ao atravessar o amor. Que eu possa engolir o vento em cada esquina.

Que eu possa ouvir as cigarras de noite. Que eu possa diferenciar as árvores. Que eu erre um caminho para descobrir novas paisagens.

Que meu carro tenha cheiro de bala de goma. Que eu ajude sem questionar. Que eu dê conselhos sem condenar. Que eu não exija demais dos outros. Que eu exija demais de mim. Que eu possa dançar com os pés nos ouvidos. Que eu possa aprender a tocar violino. Que eu possa aprender a dizer sim.

Que eu possa tomar banho de cachoeira. Que eu possa madrugar para esquentar a água do chimarrão. Que eu não acorde com o telefone tocando. Que eu não faça piadas de mau gosto. Que eu seja a vontade de rir.

Que eu prepare pratos exóticos para aumentar a fome. Que eu não dedure os amigos para passar bem. Que eu pendure bonecos no varal. Que eu faça sinal para o trem parar. Que eu bata no tapete com a vassoura. Que eu assobie para chamar a alegria.

Que eu possa chorar ao assistir filmes. Que aproveite a luz do corpo para ler de noite. Que eu possa embaralhar o sal com o açúcar. Que não faça fofoca fora do bar. Que eu não seduza para confundir. Que eu seduza para iluminar. Que eu mande flores para meu próprio endereço. Que eu estenda a toalha da mesa como se fosse um lençol. Que eu não sacrifique a confiança pela covardia. Que eu possa cuidar da minha cidade como um irmão caçula. Que eu use a voz como campainha.

Que eu possa repor os pássaros em seus ninhos. Que eu encontre uma loja para consertar chapéus. Que eu encontre uma loja para consertar cabeças. Que eu não mude de ideologia para conseguir um emprego. Que eu não precise gritar dentro de casa. Que os cachorros tenham faixa de segurança. Que minha mulher me responda os beijos com arrepios.

Que eu possa devolver os livros que tomei emprestado. Que eu não peça a devolução dos livros que emprestei. Que eu tenha dúvidas, melhor do que certezas e falir com elas. Que a sorte não seja o cartão furado da loteria. Que eu possa barbear o medo. Que meus amigos deixem de comprar o jornal pelos classificados. Que a única corrente que use seja a do balanço para embalar meu filho.

Que a poesia não fique na estante mais escondida das livrarias. Que eu ligue mais para meus irmãos para falar menos dos outros. Que eu escute minha mãe falar de seus problemas até o fim. Que minha mulher possa entender o que nem preciso falar. Que eu conte meu dia na hora do jantar. Que eu cumprimente meu vizinho sem temer a resposta. Que eu possa dar as roupas que não uso. Que eu possa ler revistas antigas em consultórios. Que a cor da pele não seja maior do que a cor do céu.

Que os gays possam se beijar fora da novela. Que minha letra saiba montar no cavalo das linhas. Que eu ande de bicicleta para me demorar na cidade. Que eu cuide das plantas da mão alisando a chuva. Que eu não fique cobrando para me aliviar do trabalho. Que eu aprenda a guardar segredos sem jurar por Deus.

Que eu tenha menos vaidade. Que eu tenha mais realidade. Que eu invente mentiras convincentes para chegar às verdades.

Que eu não pense na morte antes de dormir. Que eu volte a rezar sem querer. Que eu possa nadar na neblina. Que eu não tenha receio de ser ridículo. Que eu faça amizades falando do tempo. Que eu pare de fumar. Que os ex-fumantes parem com os sermões.

Que eu escreva nos livros o que os livros me escrevem. Que eu possa brincar mais sem contar as horas. Que eu possa amar mais sem contar as horas. Que eu possa puxar os cabelos do vento. Que eu use somente as palavras que tenham sentido. Que eu prove a comida nas panelas. Que eu aceite os conselhos da loucura. Que transforme a raiva em vontade de me entender.

Que o trânsito não seja sauna. Que eu passe a xingar o pai do juiz no estádio. Que meu time não me engane na última hora. Que eu possa assistir shows com meus filhos na garupa. Que eu atinja o segundo andar das ameixeiras. Que eu abra o capô apenas do piano. Que eu não precise fechar as janelas na sinaleira. Que eu visite mais minha sogra. Que o domingo não termine com o futebol. Que o musgo cresça onde há paredes. Que as heras cresçam onde há muros. Que as escadas cresçam onde há joelhos.
Que eu possa caminhar a esmo na respiração. Que eu me levante de bom humor. Que eu possa soltar os vaga-lumes que prendi em potes. Que o governo seja competente para ser esquecido. Que eu faça aniversário de criança nos meus 37 anos.

Que o verão seja se afogar em dunas. Que eu não pergunte a uma mulher sua idade ou se está grávida. Que eu me lembre do nome de colegas da infância. Que eu me lembre dos finais dos filmes.

Que eu lembre do início dos olhos.

Que eu me lembre de ser feliz enquanto ainda estou vivo.

Que eu nunca deixe de sonhar.

Fabrício Carpinejar