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segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Felicidade e sofrimento



Sempre fui considerada uma pessoa excessivamente exigente. Procurei exigir-me muito a mim mesmo, sobretudo desde que comecei a minha carreira profissional. Também procurei exigir àqueles que se encontravam à minha volta. Pensava que era essa a minha missão e pensava também — sem admitir outro tipo de raciocínios — que se os outros não conseguiam o mesmo êxito que eu era, simplesmente, porque não se esforçavam tanto».

São palavras de um homem de negócios numa entrevista concedida a uma rádio local. Mais ou menos assim, continuava ele o relato da sua vida: «Custava-me muito compreender que houvesse pessoas que não conseguiam trabalhar ao mesmo ritmo que eu. Tenho de reconhecer que, de algum modo, os maltratava e os desprezava por causa disso. E lá em casa

— com a minha mulher e com os meus filhos — era exatamente a mesma coisa. Não admitia falhas de nenhum tipo. As coisas eram para serem feitas custasse o que custasse. O resto eram simples justificações de gente preguiçosa».

«Até que um dia fiquei doente. Uma doença inesperada e totalmente imprevista. E tudo mudou da noite para o dia. Senti-me como um pneu a esvaziar. Comecei a perceber que a vida não era tão simples como eu havia pensado até então. Dei-me conta de que os outros também sofriam. Compreendi que não reparar nessa dor era uma atitude inumana. Assim tinha vivido eu durante tantos anos».

«Antes de ficar doente, eu era exageradamente irascível: tudo me irritava e tudo me fazia ferver em pouca água. Agora, pelo contrário, tornei-me muito mais sereno e compreensivo. O sofrimento temperou-me o carácter. Fez-me compreender que há pessoas neste mundo — à nossa volta — que sofrem muito. Há pessoas que vivem com muitas dificuldades — talvez, em parte, por culpa nossa. Cada um de nós devia aprender a deter-se diante do sofrimento dos outros e fazer o possível por remediá-lo».

«Às vezes, só é possível consolar. Isso não é pouco, nem muito menos algo inútil. Aprendi que, com o simples fluir de palavras que infundem esperança, já se alivia muito o coração de quem sofre. Quantas pessoas necessitadas de compreensão e de consolo neste mundo! Quanta pobreza espiritual! — tantas vezes maior e mais envergonhada que a pobreza material».

É um relato de vida que faz pensar. Como é diferente o modo como as pessoas encaram os sofrimentos nesta vida: a umas, ele parece que as torna mais humanas; a outras, pelo contrário, faz-lhes perder a esperança e a alegria de viver. A uns, cura-os da tendência para o egoísmo que todos temos dentro. A outros, pelo contrário, enche-os de cepticismo e de amargura.

É impossível viver nesta Terra sem algum tipo de sofrimento. Por isso, podemos e devemos ser felizes apesar dessa presença constante que nos acompanhará durante todo o nosso caminho — de um modo especial nos últimos momentos. Para que isso seja possível, um cristão sabe que deve olhar para Jesus pregado na Cruz. À primeira vista — disse Bento XVI aos jovens — a Cruz parece ser a negação da vida. Na realidade, é o contrário! Ela é o «sim» de Deus ao homem. Ela é a expressão máxima do Seu Amor por nós. Ela é a única nascente da qual brota a vida eterna.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

sábado, 27 de maio de 2017

Lar, doce Lar!


Está a dizer-nos que um lar é fundamental para que uma família possa subsistir? Não será exagerada tal afirmação? Então, não há muitas pessoas hoje em dia que vivem bem sem terem propriamente um lar?


A pergunta surgiu no final de uma conferência sobre a família.


É verdade, estou convencido disto. Sem um lar lá em casa, uma família não consegue ir para a frente.


A vida mais propriamente humana é a do nosso espírito. Não é a única que temos — mas é a mais essencial. Por isso, os animais não necessitam de um lar para viver — nós, sim!


Uma família constrói-se ao redor do lar. O lar é o âmbito de reunião da família por excelência. O lar é, como diz o dicionário, “o lugar onde se acende o lume na cozinha”.


Calor que reconforta. Mesa ao redor da qual nos sentamos todos. Convívio agradável e distendido que liberta de tantas tensões que a vida traz. Características fundamentais de uma verdadeira família que nos vêm à memória quando refletimos sobre esta simples palavra de três letras.


Claro que pode não existir nenhuma lareira. E até podem faltar os aquecedores. Mas o que tem de estar presente é o “calor de lar” — temperatura que só nós podemos dar.


A indiferença é o melhor modo de gelar um lar. De dinamitá-lo pela raiz. Podem continuar a existir “quatro paredes caiadas e um cheirinho a alecrim”, mas o lar desaparece. Fica somente uma simples pensão — e nada mais.


É o lar que origina uma atmosfera de confiança e de perdão. Sem esse ambiente, não há nenhuma família que possa aguentar-se.


E o lar são as pessoas que o criam e cuidam dele. Não surge automaticamente pelo fato de haver alguns indivíduos da mesma família que, por pura coincidência, habitam debaixo do mesmo tecto.


Ter experiência de o que é um lar é essencial para o homem atual encontrar a verdade sobre si mesmo.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

“A beleza da virtude da temperança”


"Oxalá tudo aquilo que eu tocasse se transformasse em ouro" ― desejou ardentemente um rei mitológico. 
E o “maravilhoso” dom foi-lhe concedido pelo gênio. Porém, a vida não correu como o velho monarca tinha sonhado. 
Tudo o que tocava se convertia em ouro ― também a comida e a bebida que, desesperadamente, tentava engolir. 
Assustado, tomou nos braços a sua pequena filha e ela transformou-se numa estátua dourada. Os seus empregados fugiam dele a sete pés com medo de terem a mesma “sorte”.

Era o homem mais rico do mundo... e o mais desgraçado. 
«Que infeliz sou! Por amor ao ouro, perdi tudo aquilo que na minha vida tinha mais valor». 
Ao ouvir isto, o génio apiedou-se do “pobre” Midas e mandou-o submergir-se nas águas do rio para purificar-se do malefício. 
E tudo voltou à normalidade. A partir de então, o rei nunca mais se deixou “cegar” pelo afã de riquezas: tinha aprendido que na vida havia coisas com mais valor.

Esta velha história sempre se interpretou como um convite a viver a virtude da temperança. 
Só aquele que vive com uma certa exigência pessoal ― sem se deixar escravizar pelos desejos de possuir e acumular muitas coisas ― aprende a usar corretamente aquilo de que necessita e é capaz de alcançar uma felicidade verdadeira nesta vida. 
Sendo isto tão óbvio, porque é que a temperança é vista por muita gente como algo negativo? Fundamentalmente, porque exige esforço. E o esforço é, para muitos, o inimigo número um da felicidade.

Não é possível vivermos de um modo temperado se não estivermos dispostos a dizer que não a algumas das nossas tendências. 
A beleza da virtude da temperança só se pode compreender quando percebemos que vale a pena. Ela não é uma simples negação daquilo que nos atrai. Vê-la desse modo seria um reducionismo! 

A temperança põe ordem na sensibilidade e na afetividade, nos gostos e nos desejos. No fundo, nas tendências mais íntimas que cada um de nós possui. E possuir ordem nessas tendências é o único caminho para sermos felizes de verdade.

Como qualquer virtude, a temperança é, antes de mais nada, uma afirmação do bem e, só como consequência, uma negação a deixar-se arrastar pelo mal. 
Convém recordar que o mal não estava no ouro, mas no coração desordenado do rei Midas. Necessitamos das nossas tendências, mas elas não podem ter sempre a última palavra no nosso atuar. Porquê? Porque, como reconheceu o rei mitológico, há coisas na nossa vida que possuem mais valor.

Um cristão, que vive na graça de Deus, sabe que leva um tesouro no seu coração. A consciência desse tesouro ― no qual encontra verdade, felicidade e sentido para a vida ― leva-o a viver com delicadeza a virtude da temperança.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

domingo, 3 de julho de 2016

O jardim da nossa alma



Ele não podia deixar escapar esta oportunidade. Finalmente tinha encontrado o que procurara com tanto empenho. O preço era fantástico e a casa estava em boas condições. O jardim abandonado fê-lo sonhar com um trabalho que muito o repousava. 

Tinha aprendido, desde pequeno, que cuidar das plantas era o mesmo que descansar. Sempre desejara viver numa casa com jardim, por muito pequeno que ele fosse. Logo que pôde, começou a trabalhar. 

Transformou aquele monte de mato, de pedras e de espinhos num pequeno “oásis”. Que gosto lhe deu esse trabalho! É verdade que tinha demorado o seu tempo. Mas também é verdade que tudo o que vale a pena nesta vida só se consegue com uma generosa dedicação de esforço e de tempo.

Certo dia, enquanto trabalhava na manutenção do seu jardim, passou pela rua uma senhora. Parou e pôs-se a olhar atentamente para as diversas plantas. Enquanto olhava, saiu-lhe um comentário como um suspiro: «Que maravilha! Que coisas tão bonitas faz Deus!». 
Ao ouvir isto, o “jardineiro” não conteve uma observação que, naquele momento, lhe pareceu muito oportuna: «A senhora devia ter visto o aspecto do jardim quando era Ele quem cuidava disto sozinho».

É verdade que Deus faz coisas maravilhosas na nossa vida. Mas também é verdade que Ele conta com a nossa colaboração. 
Ele deseja que o jardim da nossa alma esteja sempre belo e limpo, e dá-nos todas as ajudas necessárias para que isso seja possível. Mas se nós não colaborarmos, respeita a nossa decisão. Se fizesse o contrário, passaria por cima de um dom que foi Ele próprio quem nos deu: a liberdade. 

Por isso, se o jardim da nossa alma está sujo e desleixado, não podemos dizer que a culpa é de Deus. Nem podemos dizer que, ao contrário das outras pessoas, nós não temos jeito para cuidar dele.

Nos dias de hoje, existe um paradoxo muito grande em relação ao modo como se entende a liberdade. Por um lado, exalta-se este dom como se fosse algo absoluto e sem limites. 
Algo que permite ao homem fazer tudo aquilo que lhe apetece sem que ninguém o possa limitar. 

Por outro lado, custa a muitas pessoas aceitar a verdade evidente de que, porque somos livres, somos também responsáveis. 
Somos donos do nosso destino, tanto para o bem como para o mal. É verdade que a liberdade não é absoluta e está condicionada por muitos fatores. Mas também é verdade que ela continua a ser uma liberdade real.

Por isso, negar a existência de dois destinos eternos diferentes – em nome da bondade infinita de Deus – é, na prática, negar a existência da liberdade. 

É verdade que Deus quer que todos os homens se salvem – mas Deus criou o homem livre e responsável. 

Portanto, é o próprio homem quem, com plena autonomia, se exclui voluntariamente da salvação de Deus. Se persistir assim até ao fim, Deus respeitará a sua decisão.
Pe. Rodrigo Lynce de Faria

sexta-feira, 11 de março de 2016

O camponês e o burro


Era uma vez um camponês que tinha um burro. 
Um dia o animal caiu acidentalmente num poço e não conseguia sair de lá. O camponês tentou várias vezes libertar o burro, mas não era possível. 

Pediu ajuda a uns amigos, mas mesmo assim não conseguiram nada. Ao fim de vários dias desistiu. 
O poço estava seco, o burro estava velho e a única solução era enterrá-lo lá.

Pegou numa pá e começou a deitar terra no poço. O burro ficou desesperado ao aperceber-se do que estava a acontecer. 
Começou a zurrar cheio de amargura. Fazia dó ao camponês, mas ele não via outra solução. Até que num momento determinado deixou de ouvir o animal. 
Aproximou-se com temor da boca do poço para contemplar o cemitério. Com espanto viu algo insólito. 
Cada vez que o burro recebia a terra em cima, sacudia-a com decisão e pisava sobre ela. Com esta operação, na qual estava profundamente concentrado, já tinha subido mais de um metro dentro do poço. 
O camponês sorriu. Continuou a deitar terra e em pouco tempo o burro estava cá fora.


Todos nós temos dificuldades na vida. A diferença está no modo como reagimos diante delas. 

Existem pessoas que passam a existência a queixar-se, deixando-se soterrar pelas contrariedades. São pessimistas por natureza. 
Olham com ironia para aqueles que parecem felizes. Pensam que são ingênuos, doidos, que ainda não descobriram que esta vida não tem nenhum sentido. 

Não respeitam nada. Para eles não há nada que seja sagrado. Tudo se pode banalizar, ridicularizar, porque nada tem sentido. 
E se tem, não pensam dedicar nem cinco minutos a pensar nele. 

Talvez tivessem que mudar de vida, de atitude. Isso exige esforço e dá trabalho. Nada vale a pena, porque a alma é pequena.

Um cristão sabe que isso não é verdade. 
Sabe que foi criado por Deus por amor e que está chamado a viver com Ele para sempre na eternidade. 
Sabe que a sua vida tem um sentido e que as dificuldades que lhe surgem também. 

Tem uma profunda confiança em Deus e não duvida que, como diz São Paulo, “tudo é para bem”. 

Esta certeza fá-lo encarar as contrariedades como aquilo que são: uma oportunidade para crescer. 
Crescer no amor a Deus e crescer no amor ao próximo. 

Por isso, quando as dificuldades aparecem, sacode-as de cima com oração, esforço e otimismo. 

Também com a serenidade de quem sabe que a felicidade em plenitude não pode ser alcançada nesta vida. Está reservada para a futura.

E depois pisa essas dificuldades e assim robustece a sua fé e aproxima-se mais da vida que não terá fim. 

Diante das contradições não perde a paz, porque sabe que tudo procede do amor. Tudo está ordenado à salvação do homem, e Deus, que é Amor, não permite nada que não seja com essa finalidade.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

domingo, 22 de novembro de 2015

Não ter medo de dizer que não



Gosto muito do meu filho — dizia um senhor numa reunião de pais na escola — e procuro que ele se dê conta disso. No entanto, reconheço que algumas vezes o meu filho se porta mal. 
É verdade que ele só tem cinco anos de idade. Mas também é verdade que eu tento não me esquecer desse “detalhe” quando converso com ele sobre o seu comportamento.


«No outro dia, um psicólogo disse à minha mulher que nessas idades ninguém se porta propriamente mal. Simplesmente, faz com inocência algo que ainda não aprendeu que está mal. 
Eu, que não sou psicólogo nem nada que se pareça, não estou nada de acordo com isso. 
Já vi o meu filho portar-se mal. São coisas pequenas, evidentemente, mas ele sabe o que faz e tem consciência disso.

«E para o seu bem, procuro atuar com firmeza — não é sinônimo de violência — e dizer-lhe claramente que “não”. 

Ser claro, para mim, não é o mesmo que gritar. Também procuro explicar-lhe o porquê do meu “não”, de modo que ele possa entender. 

Assim, é mais fácil para ele obedecer àquilo que eu lhe digo, mesmo que não lhe apeteça.


«Muitas vezes, apercebo-me de que ele obedece não tanto por entender o que lhe digo, mas por confiar em mim. Porque sou seu pai. E, além disso, seu amigo. 

A paternidade é um fato. A amizade é uma conquista diária. E essa amizade entre nós também cresce quando ele percebe que eu lhe digo que “não” porque gosto dele — quando seria muito mais fácil para mim não lhe dizer nada».

Que gosto dá ouvir estas palavras tão sensatas! 
Os pais, se amam de verdade os seus filhos, não terão receio de, algumas vezes, dizer-lhes que “não”. Que pena se, por temor a contristar o filho ou a passarem eles um mau bocado, se habituem a ceder naquilo que não devem ceder! 
Quantos remorsos depois com o passar dos anos — e eles passam rapidamente — de não ter sabido dizer que “não” a tempo! 
Tudo se complica. Como diz o povo, cheio de sabedoria, é de pequenino que se torce o pepino.

Não é nada lógico dar aos filhos tudo aquilo que eles pedem. Nem deixá-los fazer tudo aquilo que lhes apetece. 
É preciso manter-se firmes, com uma firmeza amável e delicada que procede do amor. E convém não esquecer que a primeira qualidade do amor é a força para fazer o bem.

E se, depois de ter dialogado com os filhos e ouvido os seus argumentos, eles não gostam ou não entendem uma indicação dos pais? 
Nesse caso, penso que os pais não devem ceder naquilo que verdadeiramente consideram que é importante. O contrário seria claudicar num ponto nevrálgico da educação. 

Mais tarde, serão os próprios filhos a ouvir esse “não” no seu interior diante daquilo que poderiam fazer mas sabem que não devem fazer. 
Mas não nos enganemos: é muito difícil que esse “não” seja interiorizado pelos filhos se antes não foi pronunciado pelos pais.


Pe. Rodrigo Lynce de Faria
Spe Deus

sábado, 14 de novembro de 2015

Educação do carácter


Ouvi falar de um livro que conta a história de um grupo de rapazes que são os únicos sobreviventes de um acidente aéreo. Sem a ajuda de nenhum adulto, devem organizar a sua vida numa ilha deserta paradisíaca. Tudo parece fácil no começo. 
No entanto, em pouco tempo, comprovam que conviver uns com os outros não é uma tarefa nada simples.


Surgem conflitos, faltas de entendimento e acaba por aparecer a violência e uma guerra aberta entre eles. Fica claro que, apesar da tendência que todos temos para o bem, a maldade está misteriosamente presente no coração humano. 
Sem uma aprendizagem séria dos valores acumulados pela Humanidade com o passar dos anos ― valores cívicos, morais, de respeito mútuo ― os rapazes encontram-se indefesos diante das suas más tendências. 
Não sabem como dirigi-las ou dominá-las. Consideram tudo o que procede do coração como natural e, por esse motivo, bom. 
A bondade confunde-se com a espontaneidade.


É verdade que possuímos um desejo inato de fazer o bem. Mas também é verdade que a nossa natureza está “ferida” e necessita de muitos cuidados ― uma formação esmerada ― para funcionar corretamente. 

Aprender matemática e português é muito mais fácil do que aprender a ser boa pessoa, a conviver com os outros e a semear a paz à nossa volta. 

Este segundo tipo de conhecimento ― teórico e prático ao mesmo tempo ― também deve ser transmitido na escola. No entanto, em primeiro lugar, deve ser assimilado em casa com os pais e os irmãos no ambiente familiar.


É uma ingenuidade atroz muito difundida pensar que o progresso científico e econômico da sociedade, leva consigo obrigatoriamente um progresso moral. 
Que o digam muitos professores de escolas secundárias com quem tenho falado ultimamente. Dizem-me que, hoje em dia, existem meios técnicos para transmitir os conhecimentos como nunca houve no passado. 

No entanto, muitas vezes, falta essa educação básica de saber comportar-se e de respeitar os outros que arruína o bom ambiente na sala de aulas.


São palavras recentes de um professor: 
«Por muito que tente e me esforce, não consigo dar a matéria. A maior parte das minhas energias gasto-as a ensinar os alunos a estarem atentos, a comportarem-se bem, a respeitarem-se uns aos outros. Aquilo que antes se aprendia em casa com os pais, agora tenho de tentar ensinar na escola».

Por muito progresso que alcancemos, nunca será fácil educar moralmente as pessoas. 
Além disso, não se trata de uma educação “acumulativa” ― como acontece com os conhecimentos científicos ― mas de uma educação que deve, de algum modo, começar do zero em cada geração. 

Em matéria de educação moral e formação do carácter é imprescindível o convencimento da parte dos pais e dos educadores da importância primordial que ela possui. 

Que adianta ter muitos conhecimentos científicos se depois não se sabe conviver pacificamente com os outros respeitando-os? 
As notas escolares não são a única indicação para os pais ― nem muitas vezes a mais importante ― de que os filhos estão a progredir na sua formação pessoal.


Pe. Rodrigo Lynce de Faria

domingo, 20 de setembro de 2015

Saber medir as nossas palavras



Estávamos os três a tomar uma cerveja. A esplanada, quase vazia. Depois de um dia extenuante de trabalho, logicamente, o cansaço fazia-se notar. De repente, um deles fez ao outro uma pergunta indelicada, com uma certa ironia e até violência. Mais do que perguntar, parecia que estava a brincar com uma atitude que não entendia. Instintivamente, fiquei à espera de uma resposta à altura das circunstâncias. Mas ela não veio. Pelo contrário, a contestação foi cordial e sem azedume.


Fez-me pensar. Aquela pessoa levava consigo o seu próprio ambiente. Um ambiente que não dependia de circunstâncias nem de provocações. Podendo fazê-lo, por uma questão de “estrita justiça”, não tinha devolvido o mal com o mal. Demonstrava com isto um senhorio de si próprio fora do comum. Ao outro só restavam duas opções: pedir desculpas pelo modo como tinha abordado o assunto ou fingir que nada tinha acontecido. Escolheu esta última por ser a mais cómoda, e, pensava ele erradamente, a menos humilhante. Que diferença tão grande de nível humano em duas pessoas com a mesma profissão.


O meu amigo cordial tinha um tom humano impressionante. Um tom que facilitava o relacionamento mútuo, que fazia com que os outros se sentissem bem ao seu lado. Sabia estar com todos. Irradiava à sua volta um ambiente agradável, de profunda dignidade. Oferecia uma amizade sincera, sem ocultar a sua identidade de cristão coerente por medo a ser rejeitado. E foi devido a essa sua coerência que a pergunta irónica tinha surgido. Ao fazer-lhe ver a minha admiração pelo modo como tinha actuado, respondeu-me: “não há caridade sem respeito, e não há respeito se não sabemos medir as nossas palavras”.


Saber medir as nossas palavras. Quantas vezes ferimos os outros porque não sabemos medir as nossas palavras. E isso não é hipocrisia nem falta de sinceridade. É simplesmente respeito. É capacidade de nos pormos na situação dos outros e descobrir que não gostaríamos que nos falassem assim. Dizer o que pensamos sem pensar no que dizemos, geralmente, é uma atitude bastante irresponsável. É como atirar uma pedra pela janela sem preocuparmo-nos com os estragos que possa provocar.


Cuidar o modo como dizemos as coisas também não é algo superficial. Quantas vezes, tendo alguma razão, a perdemos não por aquilo que dizemos, mas pelo modo como o fazemos. Quase tudo depende da forma de dizer as coisas. Há muitos modos de dizer a mesma coisa e, habitualmente, não é necessário tornar a verdade antipática a ninguém. A verdade é como uma flor. Não é a mesma coisa oferecê-la a alguém ou atirá-la à sua cara. A segunda atitude não é mais sincera, ainda que muitas pessoas nos tentem convencer do contrário.


Pe. Rodrigo Lynce de Faria

domingo, 23 de março de 2014

Irradiar otimismo


Provavelmente, é um relato inventado. 
Há uns anos atrás, andou a circular pelo ciberespaço. Confortou umas pessoas, encheu outras de esperança, animou alguns ― coisa que sempre se agradece! 

O conteúdo da história era mais ou menos o seguinte: «Sempre estava de bom humor e as suas palavras eram positivas e animadoras. Motivava aqueles que tínhamos a sorte de estar ao seu lado. Irradiava optimismo e, por isso, era muito agradável trabalhar com ele. Se alguém tinha alguma dificuldade, animava aquele que a padecia a ver o lado positivo da situação.

«Certo dia, sem meia tinta, perguntei-lhe abruptamente: “Como é possível que estejas sempre optimista? Como consegues ver a realidade constantemente de um modo tão positivo? Onde vais buscar essa alegria que irradias à tua volta?”. 
A sua resposta ― que me ficou gravada na memória ― ainda hoje tem influência no meu modo de encarar a vida: “Todos os dias, quando me levanto de manhã, digo a mim próprio que tenho duas opções para esse dia: deixar-me levar pelo mau humor ou, pelo contrário, esforçar-me por estar de bom humor. 
Como sou livre, escolho conscientemente a segunda opção”.

«Quando me acontece algo de mal durante o dia, digo a mim próprio que tenho duas opções: escolher o papel de vítima ou, pelo contrário, esforçar-me por aprender alguma coisa com aquilo que me aconteceu. Como sou livre, escolho conscientemente a segunda opção. 
Quando ouço alguém a queixar-se da vida, digo a mim próprio que tenho duas opções: associar-me às suas lamentações ou, pelo contrário, esforçar-me por ver o lado positivo de cada situação. 
Como sou livre, escolho conscientemente a segunda opção.

«Mas isso não é tão fácil assim ― respondi-lhe. “Também não é tão difícil como parece” ― foi a sua contestação imediata. E continuou: A vida é uma escolha constante. As atitudes que tomamos diante dela também o são. É uma decisão de cada um de nós escolher como viver a nossa vida. 
E também é uma decisão de cada um de nós escolher a atitude que vamos ter diante daquilo que nos acontece na nossa vida. 
Como somos livres, temos de escolher conscientemente a melhor opção».

É verdade que esta história é demasiadamente fantasiosa. No entanto, é um relato que nos faz pensar em que a nossa vida é, de algum modo, uma escolha constante. 
Um cristão é chamado por Deus a irradiar um verdadeiro otimismo à sua volta. Um otimismo que procede da fé ― não de uma simples escolha livre da melhor opção.

Não façamos tragédias por tudo e por nada! 
A vida não é tão má como, às vezes, gostamos de a pintar! 
Se há coisas que não nos correm bem, também há outras que são maravilhosas e que nem nos damos conta disso. 
Ao olhar para o mundo que nos rodeia, não nos esqueçamos dessa bondade natural que possui por ter sido criado por Deus. 
Se a aceitarmos, desaparecerão muitos desânimos no nosso viver quotidiano, mesmo no meio das dificuldades. 
E as pessoas à nossa volta nos agradecerão por serem contagiados por essa alegria de viver.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Saber medir as nossas palavras


Estávamos os três a tomar uma cerveja. A esplanada, quase vazia. 
Depois de um dia extenuante de trabalho, logicamente, o cansaço fazia-se notar. 
De repente, um deles fez ao outro uma pergunta indelicada, com uma certa ironia e até violência. Mais do que perguntar, parecia que estava a brincar com uma atitude que não entendia. 
Instintivamente, fiquei à espera de uma resposta à altura das circunstâncias. Mas ela não veio. Pelo contrário, a contestação foi cordial e sem azedume.

Fez-me pensar. Aquela pessoa levava consigo o seu próprio ambiente. Um ambiente que não dependia de circunstâncias nem de provocações. 
Podendo fazê-lo, por uma questão de “estrita justiça”, não tinha devolvido o mal com o mal. Demonstrava com isto um senhorio de si próprio fora do comum. 
Ao outro só restavam duas opções: pedir desculpas pelo modo como tinha abordado o assunto ou fingir que nada tinha acontecido. 
Escolheu esta última por ser a mais cômoda, e, pensava ele erradamente, a menos humilhante. 
Que diferença tão grande de nível humano em duas pessoas com a mesma profissão.

O meu amigo cordial tinha um tom humano impressionante. 
Um tom que facilitava o relacionamento mútuo, que fazia com que os outros se sentissem bem ao seu lado. Sabia estar com todos. Irradiava à sua volta um ambiente agradável, de profunda dignidade. Oferecia uma amizade sincera, sem ocultar a sua identidade de cristão coerente por medo a ser rejeitado. 
E foi devido a essa sua coerência que a pergunta irônica tinha surgido. 
Ao fazer-lhe ver a minha admiração pelo modo como tinha atuado, respondeu-me: “não há caridade sem respeito, e não há respeito se não sabemos medir as nossas palavras”.

Saber medir as nossas palavras. 
Quantas vezes ferimos os outros porque não sabemos medir as nossas palavras. 
E isso não é hipocrisia nem falta de sinceridade. 
É simplesmente respeito. 
É capacidade de nos pormos na situação dos outros e descobrir que não gostaríamos que nos falassem assim. 
Dizer o que pensamos sem pensar no que dizemos, geralmente, é uma atitude bastante irresponsável. 
É como atirar uma pedra pela janela sem preocuparmo-nos com os estragos que possa provocar.

Cuidar o modo como dizemos as coisas também não é algo superficial. 
Quantas vezes, tendo alguma razão, a perdemos não por aquilo que dizemos, mas pelo modo como o fazemos. 
Quase tudo depende da forma de dizer as coisas. 

Há muitos modos de dizer a mesma coisa e, habitualmente, não é necessário tornar a verdade antipática a ninguém. 
A verdade é como uma flor. Não é a mesma coisa oferecê-la a alguém ou atirá-la à sua cara. 
A segunda atitude não é mais sincera, ainda que muitas pessoas nos tentem convencer do contrário.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

domingo, 28 de abril de 2013

O êxito como valor supremo

Narciso era um belo rapaz. A sua mãe, desejando saber se viveria muitos anos, consultou o cego Teresias. «Terá uma longa vida» respondeu o adivinho, «sempre que não olhe demasiado para si mesmo». Ninguém entendeu naquele momento as palavras do sábio. A enigmática resposta caiu no mais completo dos esquecimentos.

Passou o tempo. Narciso cresceu e não correspondia a nenhum dos amores que lhe eram oferecidos. Permanecia insensível ao carinho e ao afeto. Até que um dia de muito calor, o jovem parou diante de uma fonte para se refrescar. Ao inclinar-se para beber, reparou na sua imagem reflectida nas águas. Apaixonou-se loucamente por si mesmo. E ali ficou, dias e dias, indiferente ao mundo que o circundava, numa atitude de total isolamento. Deixou-se consumir pela fome, pela sede e pela solidão, até cair sem vida sobre a erva.

Este mito é muito conhecido. A sua mensagem é clara. O ser humano não está criado para encontrar a felicidade em si mesmo, no seu egoísmo, no seu individualismo. Isso seria narcisismo, amor excessivo e doentio a si próprio, especialmente no aspecto físico.

No entanto, se observarmos bem, a cultura atual é exatamente isto que promove. Fomenta, de muitos modos, o individualismo, que é um verdadeiro cancro da sociedade. Sentir-se bem, sentir-se realizado, triunfar na vida, alcançar o êxito acima de tudo. Até na própria educação dos mais jovens, este é muitas vezes o “valor supremo” transmitido.

Quantas pessoas hoje em dia estão obcecadas pelo êxito. Êxito a qualquer preço. Êxito como o único fim desta vida e sem o qual tudo o resto perde o seu sentido. Nascidos para triunfar. E triunfar já. Aproveitar o puro presente, estimulando o próprio ego, a vida livre de qualquer compromisso, a satisfação imediata dos desejos.

Viver centrados em si mesmos, como Narciso. Isso dá origem à inveja. A diálogos intermináveis com pessoas ausentes, antecipando perguntas e preparando respostas. Um super desenvolvido mundo interior cheio de suspeitas, rancores e um desejo de subir e triunfar a qualquer preço. É o “carpe diem” de Horácio. Aproveita o dia presente. A vida é curta, por isso devemos aproveitá-la enquanto pudermos.

É o estreito mundo do egoísmo, totalmente diferente da grandeza e da paz de centrar a própria existência nos outros e esquecer-nos de nós próprios.
Esse é o verdadeiro caminho da felicidade, mas é um caminho que exige esforço.
Exige não pensar só no momento presente, porque a vida tem um sentido. E esse sentido é transcendente, não está neste mundo, não está no cemitério.
Por isso, como disse um filósofo, qualquer êxito nesta vida é sempre prematuro. E se o vemos como um fim, atuamos como Narciso, deixamo-nos deslumbrar por ele e o convertemos num fracasso.


Pe. Rodrigo Lynce de Faria


quarta-feira, 20 de março de 2013

A ausência do pai na educação dos filhos

Tiveram um filho. O pai estava orgulhoso e trabalhava muito. Não podia perder tempo porque era necessário sustentar a família. Era preciso ganhar dinheiro e essa era a sua principal missão. Não tinha a menor dúvida disso. Se ele a conseguisse cumprir, tudo correria bem e a família seria feliz.

E o pequeno foi crescendo. «Pai, algum dia quero ser como tu. Podes ajudar-me nos trabalhos de casa?». «Gostaria muito, meu filho, mas hoje não é possível. Tenho muito que trabalhar. 
Quando tiveres a minha idade já verás. A vida não é nada fácil. Mas não te preocupes, porque daqui a algum tempo teremos um pouco mais de dinheiro e eu, um pouco mais de tempo. 
Agora pede à tua mãe. Ela tem mais jeito do que eu para essas coisas».

No dia em que o rapaz fez treze anos agradeceu ao pai: «Obrigado pela bola de futebol. Podemos jogar os dois?». «Infelizmente, hoje não pode ser. Tenho muito que trabalhar. 
Mas o que não vão faltar são oportunidades». «Que pena, pai. Mas não importa. Um dia quero ser como tu. Quero aprender a trabalhar muito».

Anos mais tarde, o filho regressou da universidade. Já era um homem responsável. «Filho, estou orgulhoso de ti. Vamos dar um passeio e falar com calma». «Hoje não posso, pai. Tenho compromissos inadiáveis». «Não importa. Ocasiões não nos vão faltar. Daqui a pouco entro na reforma e vai-nos sobrar tempo para conversarmos com serenidade».

Um tempo depois, o pai aposentou-se e o filho, já casado, vivia numa casa das redondezas. Resolveu telefonar-lhe: «Filho, gostaria muito de estar contigo». 
«Seria ótimo, pai, mas neste momento estou com a corda no pescoço. Tenho trabalho até à ponta dos cabelos que, por sinal, já estão a ficar brancos. 
Quando isto passar, tenho a certeza de que não nos vão faltar oportunidades para pormos a conversa em dia». 
Ao desligar o aparelho, o pai deu-se conta de que o filho tinha cumprido o seu desejo. 
Era igual ao seu pai.

Nos dias de hoje, um dos maiores problemas na educação dos filhos é a ausência do pai. 
A educação, para ser equilibrada, necessita dos dois progenitores. A presença paterna na família é diferente e complementar à materna. 
A falta de um modelo na educação, masculino ou feminino, implica quase sempre um desequilíbrio naquele que é educado.

À juventude atual, parecem faltar valores que naturalmente compete ao pai transmitir. 
Como diz I. Iturbe, se a educação dos filhos fosse comparada a um filme, poderíamos dizer que o pai converte-se no principal protagonista ao chegar o delicado momento da adolescência. Os filhos tendem a prestar-lhe mais atenção, especialmente se são rapazes. Sentem nesse momento uma certa confusão e desorientação. 
Necessitam de um apoio firme e seguro. É isso que procuram no seu pai: um modelo com o qual possam identificar-se. 
Se o pai está ausente, outros modelos virão ocupar esse vazio, com grande probabilidade de não serem modelos propriamente exemplares.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria


sábado, 9 de fevereiro de 2013

Os defeitos dos outros

Era já de idade avançada. Considerava-se, com toda a humildade, um verdadeiro especialista em obras de arte. 
Um dia, foi visitar um museu com um grupo de amigos. 
Logo no início da visita, começou a manifestar as suas contundentes opiniões. 
Inadvertidamente, tinha-se esquecido os óculos em casa, mas mesmo assim, não se coibiu de satirizar as diferentes pinturas com a sua veemência característica.

Ao parar diante de um “retrato”, analisou-o com ar arrogante: 
-«O homem está mal vestido. O artista cometeu um erro de palmatória. O modelo é demasiado vulgar. Resumindo e concluindo: 
- Esta pintura não tem qualidade nenhuma». 
A sua mulher, ao aperceber-se da barraca que o marido armava, aproximou-se discretamente e sussurrou-lhe: 
-«Querido, estás a olhar para um espelho». 

Moral da história: custa-nos reconhecer os nossos defeitos. Quando os vemos nos outros, parecem-nos muito grandes.

Além disso, também podemos concluir que, muitas vezes, o melhor modo de nos darmos conta da necessidade que temos de lutar contra os nossos defeitos é vê-los “encarnados” noutra pessoa.

Os defeitos aparecem como aquilo que são: algo mais vivo, mais áspero, menos agradável, mais necessitado de uma mudança urgente. 
As nossas imperfeições ― contempladas com a realidade que dá ver as coisas com uma perspectiva exterior ― parecem-nos menos lógicas e muito menos desculpáveis. 
Para melhorarmos, é preciso que não tenhamos medo de olharmos para elas cara a cara, chamá-las pelo seu nome e esforçar-nos por erradicá-las sem falsas compreensões.

O esforço é exigente, sem dúvida nenhuma. Mas, evidentemente, vale a pena. Não é nada fácil reconhecer os nossos defeitos e admitir a necessidade de esforçarmo-nos por superá-los. 
Mesmo não sendo fácil, esse passo prévio é fundamental para podermos melhorar com o passar do tempo. Não basta deixarmos os anos correrem.

O passar dos anos melhora o vinho do Porto ― mas não o nosso carácter. O que aperfeiçoa o nosso carácter é o esforço por arrancar ― ou pelo menos diminuir ― as nossas imperfeições. 
E não nos enganemos: sem uma visão objetiva dessas imperfeições não há esforço de nenhum tipo. Ficam só os desejos genéricos de «mudar alguma coisa para que fique tudo na mesma».

Todos possuímos ― sabe-se lá porquê ― uma grande perspicácia para ver os defeitos dos outros e uma enorme dificuldade para vislumbrar os próprios. Talvez porque, como diz o ditado, nunca ninguém é bom juiz em causa própria.

Sabendo disso, podíamos avançar muito se, cada vez que vemos noutra pessoa um defeito, nos examinássemos sinceramente para ver se também nós não o temos num grau superior. 

Isso por uma razão muito simples: porque, geralmente, os defeitos que mais nos custam a aceitar nas outras pessoas são precisamente aqueles que nós possuímos. 
Estamos a olhar para um espelho.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria





domingo, 9 de dezembro de 2012

'Um anel especial'

Abriu a porta da joalharia. Era jovem, simpático e bastante decidido. Sem olhar para as vitrinas, afirmou categoricamente que queria comprar um anel especial. O joalheiro mostrou-lhe um que lhe parecia apropriado. O rapaz contemplou-o com calma e, com um sorriso, manifestou o seu agrado. Inquiriu o preço. Preparava-se para abrir a carteira quando o ourives lhe perguntou:


«Vai-se casar em breve?». Gerou-se um momento de silêncio, como se a pergunta o apanhasse desprevenido. «Não. Nem sequer tenho namorada …» respondeu o rapaz. A surpresa do joalheiro divertiu-o. Depois continuou, como quem se convence de que, naquela ocasião, valia a pena dar uma explicação mais pormenorizada.

«É para a minha mãe. Quando eu ainda não tinha nascido, ela ficou sozinha. Alguém lhe aconselhou que interrompesse voluntariamente a gravidez, ou seja, que não me deixasse viver. A lei nessa altura facilitava tudo e, ainda por cima, o Estado “paternalmente” pagava todos os custos. Mas ela negou-se. Deixaram-na ainda mais sozinha. Havia muita gente disposta a ajudá-la a “livrar-se do incômodo” de ter um filho, mas pouca gente disponível para eliminar as dificuldades que tinha na sua vida.

Mas ela negou-se. Teve muitos problemas, muitos. Foi pai e mãe para mim ao mesmo tempo. Também foi amiga, irmã e sobretudo professora. Ensinou-me o sentido da vida. Fez-me ser aquilo que sou. Agora que já tenho algumas possibilidades, quero oferecer-lhe este anel especial. Ela nunca teve nenhum. Mais tarde, comprarei outro para a minha futura noiva. Mas será sempre o segundo. O primeiro, quero que seja para a minha mãe». O joalheiro não disse nada. Somente pediu ao empregado que o rapaz tivesse um desconto que só faziam aos clientes especiais.

Esta história faz-nos pensar. Será que em situações difíceis a “única solução” é suprimir legalmente a vida? Não nos apercebemos que uma lei assim facilita as pressões sobre a mulher para que essa seja vista como a “única solução”? Por acaso o dinheiro não seria melhor empregue em salvar vidas em vez de empregá-lo para eliminá-las?

E os problemas da mulher que está grávida? Será que não nos damos conta de que não podemos resolver os problemas de uma pessoa matando outra pessoa? Essa é a lógica da guerra. Essa é a lógica da violência. Essa não é a lógica da maternidade.

A mulher, numa situação difícil, necessita da nossa ajuda, da ajuda da sociedade. A morte do filho não resolve os seus problemas de pobreza ou falta de condições para o educar. Além disso, a proibição de abortar protege a mulher das fortes pressões a que muitas vezes se vê sujeita por aqueles que tem ao seu lado.

Por último, não nos esqueçamos de pensar com calma que quando falamos do aborto estamos sempre a fazer referência a algo que é para os outros. Nós somos um embrião que foi respeitado.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria


quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Saber medir as nossas palavras

Estávamos os três a tomar uma cerveja. A esplanada, quase vazia. 
Depois de um dia extenuante de trabalho, logicamente, o cansaço fazia-se notar. 
De repente, um deles fez ao outro uma pergunta indelicada, com uma certa ironia e até violência. Mais do que perguntar, parecia que estava a brincar com uma atitude que não entendia. 
Instintivamente, fiquei à espera de uma resposta à altura das circunstâncias. Mas ela não veio. Pelo contrário, a contestação foi cordial e sem azedume.

Fez-me pensar. Aquela pessoa levava consigo o seu próprio ambiente. Um ambiente que não dependia de circunstâncias nem de provocações. 
Podendo fazê-lo, por uma questão de “estrita justiça”, não tinha devolvido o mal com o mal. 
Demonstrava com isto um senhorio de si próprio fora do comum. 
Ao outro só restavam duas opções: pedir desculpas pelo modo como tinha abordado o assunto ou fingir que nada tinha acontecido. 
Escolheu esta última por ser a mais cômoda, e, pensava ele erradamente, a menos humilhante. 
Que diferença tão grande de nível humano em duas pessoas com a mesma profissão.

O meu amigo cordial tinha um tom humano impressionante. 
Um tom que facilitava o relacionamento mútuo, que fazia com que os outros se sentissem bem ao seu lado. Sabia estar com todos. 
Irradiava à sua volta um ambiente agradável, de profunda dignidade. 
Oferecia uma amizade sincera, sem ocultar a sua identidade de cristão coerente por medo a ser rejeitado. E foi devido a essa sua coerência que a pergunta irônica tinha surgido. 
Ao fazer-lhe ver a minha admiração pelo modo como tinha atuado, respondeu-me: “não há caridade sem respeito, e não há respeito se não sabemos medir as nossas palavras”.

Saber medir as nossas palavras. Quantas vezes ferimos os outros porque não sabemos medir as nossas palavras. 
E isso não é hipocrisia nem falta de sinceridade. É simplesmente respeito. 
É capacidade de nos pormos na situação dos outros e descobrir que não gostaríamos que nos falassem assim. 
Dizer o que pensamos sem pensar no que dizemos, geralmente, é uma atitude bastante irresponsável. 
É como atirar uma pedra pela janela sem preocuparmo-nos com os estragos que possa provocar.

Cuidar o modo como dizemos as coisas também não é algo superficial. 
Quantas vezes, tendo alguma razão, a perdemos não por aquilo que dizemos, mas pelo modo como o fazemos. 
Quase tudo depende da forma de dizer as coisas. Há muitos modos de dizer a mesma coisa e, habitualmente, não é necessário tornar a verdade antipática a ninguém. 
A verdade é como uma flor. Não é a mesma coisa oferecê-la a alguém ou atirá-la à sua cara. 
A segunda atitude não é mais sincera, ainda que muitas pessoas nos tentem convencer do contrário.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria / (spedeus.blogspot)


sexta-feira, 6 de julho de 2012

O jardim da nossa alma


Ele não podia deixar escapar esta oportunidade. Finalmente tinha encontrado o que procurara com tanto empenho. O preço era fantástico e a casa estava em boas condições.
O jardim abandonado o fez sonhar com um trabalho que muito o repousava.

Tinha aprendido, desde pequeno, que cuidar das plantas era o mesmo que descansar. Sempre desejara viver numa casa com jardim, por muito pequeno que ele fosse e logo que pode, começou a trabalhar.
Transformou aquele monte de mato, de pedras e de espinhos num pequeno “oásis”.
Que gosto lhe deu esse trabalho! É verdade que tinha demorado o seu tempo.
Mas também é verdade que tudo o que vale a pena nesta vida só se consegue com uma generosa dedicação de esforço e de tempo.

Certo dia, enquanto trabalhava na manutenção do seu jardim, passou pela rua uma senhora. Parou e pôs-se a olhar atentamente para as diversas plantas.
Enquanto olhava, saiu-lhe um comentário como um suspiro: «Que maravilha! Que coisas tão bonitas faz Deus!».
Ao ouvir isto, o “jardineiro” não conteve uma observação que, naquele momento, lhe pareceu muito oportuna: «A senhora devia ter visto o aspecto do jardim quando era Ele quem cuidava disto sozinho».

É verdade que Deus faz coisas maravilhosas na nossa vida. Mas também é verdade que Ele conta com a nossa colaboração.
Ele deseja que o jardim da nossa alma esteja sempre belo e limpo, e dá-nos todas as ajudas necessárias para que isso seja possível.
Mas se nós não colaborarmos, respeita a nossa decisão.
Se fizesse o contrário, passaria por cima de um dom que foi Ele próprio quem nos deu: a liberdade.

Por isso, se o jardim da nossa alma está sujo e desleixado, não podemos dizer que a culpa é de Deus.
Nem podemos dizer que, ao contrário das outras pessoas, nós não temos jeito para cuidar dele.
Nos dias de hoje, existe um paradoxo muito grande em relação ao modo como se entende a liberdade.

Por um lado, exalta-se este dom como se fosse algo absoluto e sem limites.
Algo que permite ao homem fazer tudo aquilo que lhe apetece sem que ninguém o possa limitar.
Por outro lado, custa a muitas pessoas aceitar a verdade evidente de que, porque somos livres, somos também responsáveis.

Somos donos do nosso destino, tanto para o bem como para o mal.
É verdade que a liberdade não é absoluta e está condicionada por muitos fatores.
Mas também é verdade que ela continua a ser uma liberdade real.

Por isso, negar a existência de dois destinos eternos diferentes – em nome da Bondade infinita de Deus – é, na prática, negar a existência da liberdade.
É verdade que Deus quer que todos os homens se salvem – mas Deus criou o homem livre e responsável.
Portanto, é o próprio homem quem, com plena autonomia, se exclui voluntariamente da salvação de Deus.
Se persistir assim até ao fim, Deus respeitará a sua decisão.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria