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segunda-feira, 9 de março de 2015

Lugares sombrios da alma...


Às vezes me pergunto por que é tão difícil aprender as lições da vida. Na escola, fui sempre boa aluna e para aprender um conteúdo de determinada matéria, só tinha que estudá-lo com eficiência. Mas, no meu cotidiano, todos os dias estou faltando com lição que já deveria ter aprendido. E continuo minhas perguntas: 
Quantas vezes terei que repetir os mesmos tombos e as mesmas escorregadas? É claro que com o passar dos anos, tudo isso fica mais preocupante, porque a vida vai se escoando... 
E se não der tempo de aprender?

Estou falando é sobre essa pessoa do lado de dentro que resmunga, fala palavras que não deveriam ser ditas, responde reativamente, sem pensar que pode estar magoando. 
Há palavras que acariciam e outras que causam feridas profundas. E lá vou eu, de novo, ser reprovada na prova.

Quantos habitantes carrego dentro de mim e quantos deles eu não reconheço como parte do meu ser? O que acontece é que cada cara nova que aparece, me deixa confusa, pois tenho que buscar força para suportar as consequências e coragem moral para fazer o que preciso.

Um professor, mestre amigo, me disse um dia, quando eu lhe contava mais uma de minhas escorregadas: É assim mesmo! 
Todos os dias caímos e quase sempre no mesmo buraco. 
Temos que levantar, continuar a caminhada, não olhar para trás e fazer a aprendizagem. 

Mas e a culpa e o arrependimento? perguntei. Isso é como se estivéssemos com um grande pássaro negro sentado nos nossos ombros, continuou me explicando o professor. 
E se não nos livramos dele, nossa caminhada não acontece. Ficamos parados, estáticos, alimentando-nos de lixo emocional.

Agradeci ao professor que terminou sua fala citando um poeta latino, chamado Terêncio:”Sou humano e nada que é humano me é estranho”.

Tenho concluído, após cada tombo, que ser humano significa saber que andamos por lugares sombrios dentro de nós, muitas vezes irreconhecíveis. 
Quando faço uma escolha, por mais inconsciente que ela tenha sido, eu não tenho outro caminho a não ser aceitar a responsabilidade e as consequências dos meus atos e das minhas palavras. 
A consciência envolve o reconhecimento do dano causado a mim mesma, ou ao outro.

Então, lá vou eu... Compaixão deve ser a palavra que vai me guiar. 
Volto a estudar a mesma lição, reconheço minhas limitações e caminho para não ficar, outra vez, de recuperação na escola da vida. Será?

Jane Mahalem, escritora
Nossas Letras
 

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Antinatural


Muitas vezes é necessário avançar na direção oposta para atingir o objetivo final. 
O movimento natural dos nossos sentidos é fluir para fora, encontrar os objetos do mundo e interpretá-los com a ajuda do pensamento. 
Nessa direção chegamos quase sempre a três conhecidos lugares comuns: o lugar do desejo e do querer, o lugar da rejeição ou repulsa ou ao lugar da resignação. 

Vivemos, quase sempre, fechados nesse triângulo: eu quero, não quero, não há nada que eu possa fazer. Muitas vezes, respondemos de três maneiras diferentes para o mesmo fato, dependendo do dia, lugar, hora ou estado emocional. Por exemplo, posso um dia louvar a chuva que cai porque me refrescou, outra vez, indignada, reclamar de sua presença porque atrapalhou meus planos e posso me sentir impotente para revelar sentimentos frente a um fato que só cabe à natureza resolver.

“Remar contra a maré” é uma expressão popular que nos leva a suscitar a força que está escondida e acomodada. 
Nossos sentidos foram treinados na voracidade de, a toda hora e momento, julgar, interpretar e justificar. Esse mundo tão cheio de chamados nos diz que é preciso nos posicionar e ter uma boa opinião formada sobre todos os assuntos. 
Vamos nos perdendo nas palavras, na defesa das ideias e, aos poucos, nos tornamos reféns do ter que falar, ter que fazer, do ter que saber. Ir contra tudo isso é uma atitude antinatural, mas seria, quem sabe, descobrir a nossa força maior que reside no observador que vê o fato sem desejo, repulsa ou julgamento. 

Simplesmente dizer: Está chovendo. 
Quase nunca conseguimos esse olhar calmo e tranqüilo. 
Se estamos na natureza, ouvindo o som dos pássaros, quase sempre nossa mente tagarela se intromete e já fala: Que canto bonito! Que passarinho será esse? 
Se conseguíssemos apenas ouvir e deixar a beleza do canto penetrar profundamente em um lugar silencioso em nós... 

Deixar o canto cantar dentro do nosso ser... 
Observar sem perguntar, evitar nomear , apenas olhar, sentir e ouvir. 
Conseguirmos acompanhar o pôr-do-sol e saudá-lo com um olhar brando e receptivo, sem necessariamente usar palavras para definir. 
Esse contínuo falar, esse incessante desejo de controlar por meio da descrição, da interpretação e da conceituação, nos rouba grande parte do aroma, do sabor e da beleza da vida. 
Recolher os sentidos seria fazer como uma tartaruga que recolhe a cabeça, a cauda e as quatro patas para dentro do casco. 
Olhar para dentro um pouco, domesticar a mente barulhenta.

Isso não seria chato demais? E como pode uma pessoa que escreve e usa as palavras dizer que o silêncio é melhor? 
Penso que a resposta para essas questões consiste em experimentar essa via antinatural e descobrir que, na verdade, ela restaura sabores, texturas e perfumes que redescobrem o frescor da infância. 
Nesse caso, o menos é mais. Enquanto nossos sentidos, treinados avidamente a ir sempre para fora, continuarem nos obrigando a uma tarefa taxionômica infindável, nunca teremos um momento só nosso. Visualizei esse caminho no verso de um poema : “Como a rosa que se fechasse em botão novamente”. Isso é antinatural, mas vai nos levar a visitar lugares novos e desconhecidos que nos habitam.


Jane Mahalem

domingo, 3 de março de 2013

Reencontro

[.....]  Essa frase penetrou profundamente em mim.
Como podemos estar lúcidos e plenos para acreditar naquilo que não estamos vendo? 
Como conseguiremos continuar procurando o que não está presente? 
Nesse mundo materialista e cercado de certezas absolutamente improváveis, continuamos acreditando somente naquilo que vemos ou tocamos. 

Vivemos dentro de uma medíocre normalidade que nos leva aos mesmos trilhos, caminhos largos ou alargados por outros pés. 
Enxergar o que não se vê é sair da confortável estrada para um outro caminho, quase sempre íngreme, a ser inventado pelos nossos próprios passos. 
É sair de trilhos já construídos para encontrar a nossa trilha.

Ver o que não está aqui, continuar procurando o que não estou vendo... Será que poderemos ser chamados de loucos? 
Buscar a transcendência é abrir os olhos para uma nova visão e oferecer os ouvidos a uma nova escuta. Temos padecido de cegueira e de surdez. 
Vivemos o tempo do absurdo. Estamos aqui para empreender uma tarefa única e intransferível. 

Somos únicos e seja lá qual for a idade do nosso corpo, nossa alma pode realizar o benefício de uma diferença. Não devemos nos acomodar a uma miséria confortável e inútil.

O que eu preciso reencontrar? ..... O que ando deixando para trás nessa estrada pela qual estou caminhando?
Jane Mahalem do Amaral
Fragmentos do texto Reencontro : Nossas Letras - Letras, Arte e Cia

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Doce sal



"A aparente diversidade simplesmente se desfaz quando encontramos no tempero da alma o sal que nos iguala e nos embala na dança das palavras."

Jane Mahalem


Nada tudo
Faixa 06 do Novo CD da Marisa Monte: O Que Você Quer Saber de Verdade.

Nada, nada, nada
Tudo, tudo, tudo
Nada e tudo, eu não sei mais
O que não é inteiro
Nosso mundo vai de alma
Com o pé na terra
E no escuro se vê

Já se vê...

É o tempo do muito, do tanto
Que eu vejo a nossa semelhança
E todo o toque já é novidade
Justos a um passo do distante
A nossa diferença nos faz
Iguais ao sabor
Desse sal, doce sal
Que tempera a nossa cidade
Nossa luz, sal do céu
Nos olha e mira, atira
Dispara e se espalha em som


terça-feira, 9 de outubro de 2012

Regredir para evoluir

Estranhamente podemos nos perguntar se o título acima não seria um absurdo. No entanto, creio que podemos compreendê-lo a partir de uma reflexão.
 Algumas vezes, caminhando pela vida, preciso conhecer momentos de retorno, momentos de regressão.
São lugares, fatos e situações vividas dos quais não quero mais me lembrar.
Hoje, julgo aquilo intolerável e me pergunto como pude ter agido daquela forma.
São culpas, remorsos, vergonhas.
A cada fuga desse momento intensifica o medo de olhar de frente para o vivido. E então eu vou me afastando da consciência, ao mesmo tempo em que vou construindo um peso de memória que me retém.
É preciso então fazer o caminho contrário: voltar lá, regredir e olhar de frente para aquilo que eu fui e para aquilo que eu fiz.
É fundamental fazer desse momento uma ocasião de ultrapassagem para que a evolução continue o seu curso.
Não posso fugir do vivido.
Posso, sim, me perdoar e compreender que naquele momento minha limitada visão só me permitiu aquela atitude.
Eu estava enganada, movida por sentimentos menores ou então inconsciente.
Nada mais do que prerrogativas humanas.

Fácil? Não. Pelo contrário, muito difícil encarar nossa pequenez, mas o caminho é só esse e não há outro.

Vários mestres de diferentes tradições nos ensinam sobre a sombra que nos habita. Muitas vezes temos reações perturbadoras que nos assustam.
Algumas pessoas procuram ajuda dizendo “Sou um pessoa amorosa. Não sei de onde vêm esses sentimentos”.
Essa sombra é todo aspecto egoísta, primitivo, egóico, violento e preguiçoso de si mesmo.
Assim, para me livrar dela, eu a reconheço no outro, mas nunca em mim.
A sombra, geralmente, personifica a pessoa que eu não quero ser.
São traços sombrios e imaturos que não passaram pelo forno da consciência e quando saem do esconderijo onde vivem, conduzem as nossas emoções e comportamentos de forma imprevisível.
Isso é quando eu perco a paciência com coisas pequenas, quando não tolero o outro porque vejo nele traços que não quero ver em mim mesma.

A libertação só virá quando eu reconhecer e aceitar o fato de que, como todo mundo, sou luz e escuridão.
Só quando eu conseguir ser a testemunha de ambos é que permitirei a esses dois lados se integrarem e aí posso mudar as tendências e comportamentos inconscientes.
Mudança não vem da tentativa cega de suprimir, ou de recusar o negativo.
Vem pelo poder que ganhamos quando nos tornamos fieis a nós mesmos, sem medo ou julgamento.

Olhar para o meu momento mais amoroso, ou me perceber com raiva é me libertar da cegueira da sombra. Ter coragem para regredir , no espaço-tempo, aos lugares mais obscuros é escolher viver com o meu melhor. É só assim que poderei brilhar.

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terça-feira, 6 de março de 2012

Apodrecendo verde

Às vezes uma fruta apodrece antes de amadurecer... Ainda verde, presa ao pé, ela não cumpre seu ciclo, não realiza sua missão... 
Apodrece. Fica velha, sem passar pela mocidade. 
Enruga sem nunca ter tido uma pele lisa e saudável. Fica opaca antes de ter recebido a graça da luz. 
Não mostra sua cor, pois nunca conheceu os matizes...

Há uma música de Vinícius de Moraes que diz assim: “Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu, porque a vida só se dá pra quem se deu, pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu... 
O que o poeta nos sugere é a troca. E trocar é arriscar: dar o que tem e receber o que o outro pode oferecer. Nessa dança, muitas vezes, preferimos não perder, já que não temos certeza do que iremos ganhar. Assim então, desde bem pequenos, aprendemos a não dividir, a não dar e a não amar, pois isso poderá trazer choro e sofrimento. 
Tudo se fecha em um círculo egóico (egoísta), a vida não devolve e a plenitude nunca chega. A insatisfação torna-se constante e cada vez mais nos aprisionamos em correntes invisíveis.

Não sei se posso fazer essa comparação, mas em um versículo do evangelho de Marcos, Jesus diz uma frase difícil de ser compreendida: “Porque qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á...” Como seria isso? Todos nós queremos salvar nossa vida, não é? Pois acho eu que Jesus fala é desse medo de se dar à vida, do desejo de guardar tudo para si, de preservar para o depois.

Revejo pessoas que conheci, há bastante tempo, e ao reencontrá-las percebo uma luz no olhar que, apesar dos sinais evidentes da velhice, brilha sempre de um jeito novo. 
Essas pessoas amadureceram encarando o desconhecido e quantas vezes se deram à vida, sem avaliar o valor da troca. 
Elas passaram pelos diferentes ciclos e, em cada um, conseguiram sair em espiral. Já em outras pessoas, com a mesma idade, reconheço a estagnação do não vivido. 
Os olhos não brilham, as rugas não nasceram dos sorrisos e a velhice adquire aquele ar de desgaste e tristeza. 
Penso que elas não viveram em espiral, mas ao contrário, se fecharam em círculos e não se ofereceram à entrega.

E o nosso poeta Vinícius continua na sua música: “Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair. Pra que somar se a gente pode dividir." 
Eu francamente já não quero nem saber de quem não vai porque tem medo de sofrer. Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão.”

A cada dia peço sabedoria e coragem para não apodrecer verde...

Jane Mahalem do Amaral (do jornal Comércio da Franca)