quarta-feira, 13 de maio de 2015

A odisseia de dormir junto

Ô delícia.


Dormir junto. Definitivamente a melhor e a pior ideia que o ser humano já teve.

Melhor porque é um dos momentos de maior comunhão da vida. Há quem diga que dormir junto com alguém é um ato mais íntimo do que o próprio sexo. Eu não duvido. Partilhar nossas sagradas e escassas horas de sono com alguém é mesmo um ato de entrega, da mais profunda e sincera generosidade.

Por outro lado… Sério. Gente. Que ideia. Sério. Difícil. Muito difícil.

Tudo começa com o horário de ir deitar.

Às vezes um acaba cedendo ao sono do outro, por mais que esteja absolutamente disposto, animado e- o pior de tudo- falante. Deitam na cama. Um se ajeita no travesseiro, se cobre e fecha deliciosamente os olhos. Mas aí vem o Sem Sono e diz algo urgente do tipo “você viu que vai abrir um restaurante de comida indiana perto da casa da sua tia?”. O Com Sono tenta uma resposta do tipo “Ah é? Legal…”, enquanto se afunda um pouco mais no travesseiro. E o Sem Sono insiste “É, mas não sei se vai dar certo não porque os últimos dois restaurantes indianos que eu conheço acabaram fechando e…”. Pronto, tá na cara que não vai acabar bem. O Sem Sono acaba sem respostas, o Com Sono sem poder dormir.

Mas, por fim, o Sem Sono pára de falar e decide se ajeitar na cama. Um já está lá, paradinho, cochilando e o outro começa a procurar posição. Gira pra lá, gira pra cá, dá pirueta, parece um frango de padaria. Conforme ele gira, o que já cochila vai pulando por causa do balanço do colchão, quase como se estivessem numa cama elástica.

Mas pronto. Adormecem. Que bom. Até que um dos dois dá um daqueles bizarros trimiliques semi epiléticos e o outro quase enfarta de susto. Tudo bem. Passou. Dormem de novo.

De repente um deles acorda assustado com um barulho. Não sabe bem se é uma broca no vizinho, um leitão na varanda, um trator na rua ou o Godzilla na janela. Mas não é nada disso. É só aquela pessoinha amada tentando respirar. Inacreditável. A cada ronco até a estrutura do prédio treme. Uns 6,8 na escala de Richter. E é geralmente nessa hora que elas resolvem extravasar todo seu lado afetuoso, abraçando a outra pessoa bem pertinho só para roncar carinhosamente bem na orelha dela.

Superada (ou tolerada) esta dificuldade começam os problemas de termostato. Enquanto um transpira como se estivesse fazendo sauna no inferno, o outro puxa o edredom até o pescoço. E claro, o edredom é um só e acaba cobrindo também aquele coitado que está morrendo de calor, que acaba tentando escapulir uma perna e um braço para fora da cama. Nessas horas, ar condicionado e ventilador causam mais discórdia do que whatsapp de ex. E nas raríssimas vezes em que há harmonia de temperaturas, começa um tipo de cabo de guerra com a roupa de cama. Só sobrevivem os fortes.

Ainda tem aquelas maravilhas periféricas tipo um que baba no braço do outro, um que range o dente sem parar, um que solta frases non-sense durante a noite, um que levanta 5 vezes para fazer xixi, um que vai avançando no terreno alheio até quase jogar o outro no chão, o outro que bebe 6 litros de água durante a noite. Enfim, essas alegrias todas.

Mas os abraços noturnos compensam tudo. Especialmente quando um coloca o braço embaixo da orelha do outro, que começa a ficar quente e vermelha enquanto o braço formiga até o cotovelo travar de dor. No verão então, é uma maravilha. Você mal aguenta o contato com o lençol e recebe aqueles doces abraços de uma criatura cujo corpo está a 36 graus. Meu Jesus.

Para acordar, nada melhor do que um ter programado o despertador e na hora que toca ninguém saber o que está acontecendo. É o seu? É o meu? É a campainha? Até que um bate naquela porcaria e… Coloca na soneca. Dez minutos depois a porcaria toca de novo. E mais dez. E toca. Mais dez. Toca. Detalhe: são 6:40, sendo que o dono do despertador devia ter levantado às 6 e o outro coitado que já acordou 4 vezes só precisava levantar às 9.

Não é fácil.

Mas quando acaba toda essa saga, você olha para aquela pessoa na cama e acaba sorrindo. Não sabe bem por que, mas tem certeza de que aquilo tudo faz sentido: roncos, babas, trimiliques e tudo mais. Não tem jeito, aquela noite atrapalhada é mesmo boa. E por mais confortável que seja uma noite com a cama todo ao nosso dispor, sem disputas por espaço ou por lençol, fica faltando alguma coisa. Uma cama gostosa, inteira e cheia de travesseiros acaba se tornando uma cama vazia.

Coisas que só o amor explica.

RUTH MANUS

sábado, 28 de março de 2015

Outros ares... outros ritmos...

Bom Dia! Sábado: outros ares... outro ritmo...

Mas o coração é o mesmo: inquieto e esperançoso!

“Em frente ou então enfrente!” (Paola Gavazzi). 

A cada amanhecer é necessário reunir forças, multiplicar energias e renovar o ânimo para dar conta da vida. Tocar em frente não é uma imposição. É uma alternativa bem inteligente. O somatório de avanços poderá render muita satisfação. 

Nem todos estão contentes com a vida que levam. Alguns não fazem nada para alterar a rotina. 
Novos resultados implicam em novas posturas. Viver não é complicado. Mas é necessário prestar atenção na distância que existe entre o sonho e a realidade. 

Os sonhos embalam as buscas. A realidade vai dando o formato possível. Porém, tudo é muito dinâmico. Sem avançar ao menos um palmo, cada dia, é o suficiente para comprometer a caminhada toda. É preciso ir em frente. Se não for assim, você terá que enfrentar as consequências. 

Há uma longa distância entre ir em frente e enfrentar os resquícios advindos de algumas escolhas.
O mais fácil é adiar os enfrentamentos. 

Num primeiro momento é até confortável não enfrentar determinadas situações. Porém, as perdas podem resultar num somatório nada agradável. 

Uma postura mais proativa poderá redesenhar soluções não pensadas anteriormente. A vida sempre surpreende quem flexibiliza possibilidades. Mas nada substitui o ânimo e o vigor de ir em frente. 

Se você não for em frente os objetivos não serão alcançados e a vida desperdiçará aquele sabor do esforço e da persistência. 
Que haja muita inspiração e infinita força de vontade. 

Lamentações não qualificam a vida. 

Um dia será possível olhar para trás e afirmar: valeu a pena! Bênçãos! Paz e Bem! Santa Alegria! Abraço!

Frei Jaime Bettega

quarta-feira, 25 de março de 2015

SUA VIDA VAI MUDAR, SE PASSAR UM MÊS SEM RECLAMAR

Queixa vem do latim, de quassiare, de quassare, que significa golpear violentamente, quebrantar, e expressa uma dor, uma pena, o ressentimento, a inquietação…


Poucos de nós nos damos conta do quanto nos queixamos. De como, sobretudo depois de uma certa idade, reclamamos o tempo todo. Muitas vezes, nem pensamos no que estamos falando. Virou hábito transformar tudo em motivo de reclamação. Estou me referindo aqui àquelas queixas bobas, sem importância, que a gente teima em fazer. 

Uma amiga inglesa que conviveu bastante com brasileiros me disse uma vez que nós nos queixamos excessivamente. Pensando nisso resolvi resumir o artigo que acabo de ler no El País, sobre como deixar de reclamar pode tornar a nossa vida – e a de quem no ouve – melhor.

Para tornar a convivência mais saudável e agradável, dois amigos decidiram fazer um pacto inusitado, à primeira vista, mas de muito bom senso, se a gente pensa bem: resolveram ficar um mês inteiro sem se queixar. 
Sem lamentar esses pequenos acontecimento chatos que vão acontecendo com a gente – levanta-se mais tarde do que queria, se esquece de levar o guarda-chuva e se encharca, tem que engolir desaforo de um conhecido, o choro do bebê da vizinha, enfim… Para ter certeza que passariam pela prova, combinaram de levar o plano adiante no mês de fevereiro, por ser o mais curto do ano.


A primeira experiência foi em 2010. “Como depois nos sentimos mais felizes, decidimos repetir no ano seguinte”, conta um deles, Thierry Blancpain. A coisa evoluiu e, no ano passado, os dois convidaram amigos para entrar no jogo. 
Diante dos resultados positivos, em fevereiro deste ano, abriram para todo mundo. Através de redes sociais, como facebook e twitter, convidaram quem quisesse participar do movimento complaint Restraint February – algo como fevereiro com menos queixas. Esperavam ter 50 inscrições. Receberam 1.750.

Thierry Blancpain explica que os benefícios de se conter para não se queixar à toa variam . Por um lado, aumenta “a sensação de alegria” e diminui a de “estar cansado”. Por outro, adquirimos “conhecimentos sobre a forma como nos comunicamos e como se comunicam as pessoas do nosso entorno”. 
Durante esse mês, a gente se dá conta de que certos conhecidos são muito negativos e fazem a gente mais infeliz. “Pode soar duro, mas acho que não é razoável passar tempo com uma pessoa com a qual nos sentimos pior depois”, diz ele.

Os dois se surpreenderam a com o sucesso da experiência nas redes sociais: algumas pessoas disseram que tinham tornado suas vidas melhores, outras comentaram que se deram conta de que havia pessoas muito negativas em seu entorno. 
Deu tão certo que os dois já estão pensando na campanha de fevereiro do ano que vem. Querem atrair mais gente e, para isso, vão preparar material de divulgação contando os detalhes da experiência, para ajudar a quem quiser aderir ao movimento.

Acho que vão ter mais sucesso quando não se limitarem a se queixar menos apenas no mês de fevereiro. Por que não lançar um movimento desses incluindo os 12 meses do ano? Tem alguma coisa mais desagradável do que alguém se queixando o tempo todo?

Maya Santana

http://www.50emais.com.br/artigos/sua-vida-vai-mudar-se-passar-um-mes-sem-reclamar/

segunda-feira, 9 de março de 2015

Lugares sombrios da alma...


Às vezes me pergunto por que é tão difícil aprender as lições da vida. Na escola, fui sempre boa aluna e para aprender um conteúdo de determinada matéria, só tinha que estudá-lo com eficiência. Mas, no meu cotidiano, todos os dias estou faltando com lição que já deveria ter aprendido. E continuo minhas perguntas: 
Quantas vezes terei que repetir os mesmos tombos e as mesmas escorregadas? É claro que com o passar dos anos, tudo isso fica mais preocupante, porque a vida vai se escoando... 
E se não der tempo de aprender?

Estou falando é sobre essa pessoa do lado de dentro que resmunga, fala palavras que não deveriam ser ditas, responde reativamente, sem pensar que pode estar magoando. 
Há palavras que acariciam e outras que causam feridas profundas. E lá vou eu, de novo, ser reprovada na prova.

Quantos habitantes carrego dentro de mim e quantos deles eu não reconheço como parte do meu ser? O que acontece é que cada cara nova que aparece, me deixa confusa, pois tenho que buscar força para suportar as consequências e coragem moral para fazer o que preciso.

Um professor, mestre amigo, me disse um dia, quando eu lhe contava mais uma de minhas escorregadas: É assim mesmo! 
Todos os dias caímos e quase sempre no mesmo buraco. 
Temos que levantar, continuar a caminhada, não olhar para trás e fazer a aprendizagem. 

Mas e a culpa e o arrependimento? perguntei. Isso é como se estivéssemos com um grande pássaro negro sentado nos nossos ombros, continuou me explicando o professor. 
E se não nos livramos dele, nossa caminhada não acontece. Ficamos parados, estáticos, alimentando-nos de lixo emocional.

Agradeci ao professor que terminou sua fala citando um poeta latino, chamado Terêncio:”Sou humano e nada que é humano me é estranho”.

Tenho concluído, após cada tombo, que ser humano significa saber que andamos por lugares sombrios dentro de nós, muitas vezes irreconhecíveis. 
Quando faço uma escolha, por mais inconsciente que ela tenha sido, eu não tenho outro caminho a não ser aceitar a responsabilidade e as consequências dos meus atos e das minhas palavras. 
A consciência envolve o reconhecimento do dano causado a mim mesma, ou ao outro.

Então, lá vou eu... Compaixão deve ser a palavra que vai me guiar. 
Volto a estudar a mesma lição, reconheço minhas limitações e caminho para não ficar, outra vez, de recuperação na escola da vida. Será?

Jane Mahalem, escritora
Nossas Letras
 

Amor

“A beleza das pessoas está na capacidade de amar e encontrar no próximo a continuidade de seu ser.” 

Alguém afirmou que a vida é um somatório de passagens. Uma etapa se despede para a outra ser iniciada. 

A cada ano a idade vai construindo passagens. Seria interessante internalizar que tudo passa. Uma nova experiência: ou se acha que não se deveria passar ou que está demorando para passar. 

Se existe ainda algum segredo, este tem uma denominação inspiradora: amar. 

O amor não passa. Pelo contrário, constrói passagens. 

A beleza das pessoas está para além da aparência e do físico. 
A capacidade de amar é o maior critério de estética. 

Quando uma pessoa ama, tudo nela se harmoniza e se adequa ( ajusta). 
Quem ama nunca se aquieta. Está sempre em movimento. Pois, é próprio do amor construir saídas: sair de si para ir ao encontro do outro. 

Quem ama verdadeiramente descobre no outro a continuidade de seu ser. 
Quem ama permanece vivo na existência do outro. 

Enquanto o egoísmo leva ao fechamento, o amor provoca libertação. A liberdade é a expressão mais saliente da expansividade do amor. 

Continuar vivo nos outros não é uma ambição. É a normalidade do amor. 

Acontece que o egoísmo tem recebido uma certa maquiagem de amor. 

Nem todos sabem distinguir amor de egoísmo. 
A bondade parece ser o braço visível do amor. Onde está a bondade, o amor se faz construção. 

É simplesmente maravilhosa a vida de quem sai de si e se prolonga na vida dos outros, exercitando a caridade. 
Que a estética alcance a profundidade: lá onde o amor se faz essência!


Frei Jaime Bettega 

sábado, 7 de março de 2015

Dia da Mulher. Eis o porquê


Provavelmente, o filósofo romano Sêneca quando disse que “uma mulher bonita não é aquela de quem se elogiam as pernas ou os braços, mas aquela cuja inteira aparência é de tal beleza que não deixa possibilidades para admirar as partes isoladas”, pretendeu referir-se inclusive ao interior infinito da mulher.

Maravilhosas realistas, as mulheres fazem o que têm que fazer, enfrentam monstros que fazem correr os homens e se doam, sôfrega e absolutamente àqueles a quem amam. Frágeis? Na força física, talvez. A mais infame das forças. 
Se fossem também fortes nesse sentido, isso seria uma injustiça conosco. O que nos restaria? 
Em todo o excedente elas superam-nos, homens, cruelmente expondo toda a fragilidade que incondicionalmente negamos. 
Enquanto isso, nossas heroínas, assumindo suas próprias poucas fraquezas, transformam-nas, assim, em energia pura trabalhando a seu favor; se armam com suas próprias fraquezas. 
São mestras em subordinar a truculência ao sentimento. 
Há nelas um superávit das virtudes que nos faltam.

Deus, ao criar a mulher, equipou-a com tudo o que há de melhor para se instalar num ser humano. Seus olhos falam quando ela sorri, mas principalmente quando choram. 
Há em suas lágrimas muito mais significados do que mil palavras. 
O ventre muda-lhe as formas, dando à mulher mais graça enquanto ali dentro, no mundo bom, são preparadas duas novas vidas: a de um filho e a de um urso. Mexa com seu filho e conhecerá o urso.

Seus braços pequenos são grandes o suficiente para envolver seus amores por toda uma vida. Até o último dos seus dias, seus braços abraçarão. 

Louvadas sejam as mulheres! Louvado seja Deus, por tê-las criado tão perfeitas para o mundo, ainda que o mundo nem sempre as trate como merecem. 
Esqueça a procriação e responda à pergunta: o que faríamos sem elas?

Benditas sejam vocês, mulheres, que tornam o mundo viável à vida e fazem a vida valer a pena ser vivida.

Carlos Alberto de Oliveira 





terça-feira, 3 de março de 2015

Reflexão

"Descarte: coisas que você não usa, sentimentos que não fazem bem, preocupações que pesam, medos que paralisam.”


São poucos os que não são tentados pelo desejo de acumular. 
É quase natural o querer possuir. Até o desnecessário é guardado com o pretexto que poderá ser útil, um dia. Assim como algumas coisas devem ser retidas, muitas não deveriam ocupar espaço. 

O interessante é que além das coisas materiais, guarda-se sentimentos e acontecimentos que não plenificam a vida. 

Porém, chega um momento em que é preciso avaliar e desfazer-se. 
Alguns adiam, escondendo-se atrás de desculpas. 

Como faz bem libertar-se do que pesa e só ocupa espaço. Além do mais, outros poderão usufruir. 

Quantos estariam precisando do que está guardado em gavetas e armários! 
No campo material, com um pouco de insistência, a limpeza acontece. 

O mais difícil e exigente parece residir no campo dos sentimentos. Não são poucos os que vivem de forma pesada. 
Recolhem mágoas, colecionam ressentimentos, permitem-se odiar. 
Deixam a amargura estampar o semblante, esquecem-se de sorrir. 
Com os passar dos dias, vão se distanciando da felicidade. 
Como faz bem descartar alguns sentimentos, afastar o excesso de preocupações, mandar para longe os medos, que sugam as energias. 

Viver de forma leve e simples supõe determinação. 
Imersos num mundo que direciona e influencia, a todo instante é necessário resgatar as metas, redesenhar os sonhos e reunir as melhores energias. 

Ocupados excessivamente com o material, corre-se o risco de perder a melhor parte da vida. E o tempo não volta atrás. 
Então, o que tem que ser feito já está agendado: hoje. 

Bênçãos! Paz e Bem! Santa Alegria! Abraços!



Frei Jaime Bettega 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Da desimportância das pequenas coisas da vida


Sempre ouvi sermões sobre a importância de valorizar as pequenas coisas da vida. Acontece que, adulto, percebi que as valorizei demais – e fui soterrado por miudezas.

Sempre ouvi – e li – sermões sobre a importância de valorizar as pequenas coisas da vida. Os pequenos momentos, as pequenas alegrias. Inspirações.

Detalhes, miudezas.

Quando o meu pai morreu, pensei em todos os clichês sobre a morte (e espantado concluí que eram terrivelmente verdadeiros) e enfim percebi que não era a negligência a esses pequenos momentos que me emurchecia. Não o descaso com as simplicidades do dia a dia.

Era rigorosamente o contrário.

Subitamente, no meio de uma travessia, durante um trauma, no limiar da vida, você refaz a medida de todas as coisas. O metro de todas as batalhas perdidas (confessemos: nenhuma batalha é vencida). E no metro de todas as coisas vê a pequenez dos tantos esforços a causas tão pequenas.

Quase toda a minha vida não admitia atrasos a compromissos, quaisquer que fossem os compromissos. Uma dessas pequenas coisas da vida, que me ensinaram a valorizar tanto quanto um abraço em uma pessoa querida. Alegrava-me com nascimentos, chegadas, conquistas; entristecia-me com mortes, violências, partidas. Invariavelmente, contudo, estava na hora exata no escritório, despachando as ordens do dia. Fui sozinho quando deveria ter ido junto, deixei de passar mais tempo com quem amava para não modificar minha agenda, submeti-me a empregos maçantes, dias maçantes, encontros maçantes com pessoas desinteressantes porque, de alguma maneira, era necessário fazê-lo.

Às vezes, por delicadeza. Às vezes cortesia.

Os pequenos momentos da vida são esses, e ocupam vida demais. Ser rígido no trabalho, pontual; cortês; exigir-se demais, impor-se um sarrafo inutilmente elevado para objetivos os mais rasteiros: um pouco mais de dinheiro, um pouco mais de atenção, um pouco mais de prestígio, um pouco mais de desejo.

Todas essas pequenas coisas.

Não é preciso valorizar as pequenas coisas da vida, tangíveis ou não, pois, em sua multidão de pequenezas, já nos soterram dia a dia.

Preciso é enxergar as coisas grandes, muito mais do que grandes, as coisas que ficarão.

Renato Essenfelder



sábado, 21 de fevereiro de 2015

Decepção



Bom dia! Disfarçando o cansaço, apostando nos motivos que fazem viver...

“Quando há uma grande decepção, não sabemos se esse é o fim da história. Pode ser apenas o começo de uma grande aventura.” (Pema Chödrön).


Qual é o tamanho da decepção? Ela não tem tamanho. O que pode ter tamanho é a intensidade de amor dedicado. Interessante como a decepção é dolorida. Porém, antes da dor, estava um grande sentimento de amor, de confiança e cumplicidade.

Só tem dor porque houve amor. E viver sem amar não dá em nada. A vida, cedo ou tarde, será ‘cobrada’ pelo amor. Não querer experimentar o sofrimento é o mesmo que não querer amar. Impossível amar sem correr riscos.

Pode não dar certo. A decepção poderá invadir o espaço existencial. Mas por causa do amor, tudo vale a pena. E a se a decepção chegar, é possível refazer-se e continuar abrindo novos caminhos. Se algo terminou, pode-se apostar em algo que está por iniciar. O que não convém é ficar remoendo o que não tem volta.

Quanta gente que estaciona na tristeza. Energias desperdiçadas. Céu sem estrelas. O bom senso acena para a continuidade da vida. Voltar à normalidade é uma opção com múltiplas possibilidades. O mundo não termina simplesmente pela proximidade de uma decepção. Pode estremecer, mas ressurgirá vigoroso e encantador. Essa é a vida que, um dia, cada qual recebeu como um grande presente.

E por ser assim, vale a pena. Aconteceu tal coisa? Não é o fim da história.

Tem tudo para ser o começo de uma grande aventura. Bênçãos! Paz e Bem! Santa Alegria! Abraços!




Frei Jaime Bettega OFM

Minha vida

Oliver Sacks diante da morte

Traduzimos na íntegra o texto do neurocientista para o The New York Times sobre seus últimos meses de vida após descobrir um câncer terminal



Um mês atrás, parecia que eu gozava de boa saúde, poderia se considerar até mesmo excelente. Aos 81 anos de idade, ainda nado 1500 metros por dia. Mas minha boa fortuna já havia se esgotado – algumas semanas atrás fiquei ciente de que tenho múltiplas metástases no fígado. Nove anos atrás descobrimos que eu tinha um raro tumor no olho, um melanoma ocular. Ainda que a radiação e o uso de lasers para remover o tumor me tenha deixado cego daquele olho, apenas em casos muito raros tumores deste tipo fazem metástase. Ainda assim, estou entre os 2% que não têm sorte.

Sinto gratidão pelos nove anos de boa saúde e produtividade desde o primeiro diagnóstico, mas agora me deparo com a morte. O câncer ocupa um terço de meu fígado, e embora seu avanço possa ser desacelerado, não há como parar esse tipo particular de câncer.



É só minha a decisão de como viver os meses que me restam. Tenho que viver da forma mais rica, profunda e produtiva que conseguir. E nisso me encorajo com as palavras de um de meus filósofos favoritos, David Hume, que, ao descobrir aos 65 anos de idade que uma doença o levaria à morte, escreveu uma curta autobiografia num único dia de abril de 1776. A ela ele deu o título de “Minha vida.”


“Neste momento me deparo com uma dissolução muito rápida,” escreveu ele. “De minha condição, sofro muito pouco com dor, e o mais estranho é que, não obstante a grande derrocada de minha compleição, nunca cheguei a sofrer um momento sequer de esmorecimento do humor. Mantenho o mesmo ardor de sempre pelo estudo, e a mesma alegria na companhia dos outros.”

Tenho sorte de passar dos 80, e os 15 anos que superaram as seis décadas e cinco anos de Hume me foram igualmente plenos de trabalho e amor. Nesse período publiquei cinco livros e completei uma autobiografia (um bocado maior do que as poucas páginas de Hume) a ser publicada nessa primavera; tenho vários outros livros quase prontos.

Hume continuou, “Sou ... um homem de disposições brandas, em comando do meu próprio temperamento, de humor aberto, social e alegre, dado ao apego, mas pouco suscetível à inimizade, e de grande moderação em todas minhas paixões.”

Nisso não sou como Hume. Embora eu tenha vivido relacionamentos amorosos e amizades, e não tenha inimigos verdadeiros, não posso dizer (nem ninguém que me conhece diria) que sou um homem de disposição branda. Pelo contrário, sou um homem de disposição veemente, de entusiasmos violentos, e extremamente desprovido de moderação com relação a todas as minhas paixões.


Ainda assim, uma frase do ensaio de Hume me é marcante como especialmente verdadeira no meu caso: “É difícil”, escreveu ele, “alguém ter mais desapego pela vida do que neste momento.”Ao longo dos últimos dias, tenho sido capaz de ver minha vida como se de uma grande altitude, como uma espécie de paisagem distante, e com um sentido aprofundado da conexão entre todas as partes. E isso não significa que minha vida acabou.


Pelo contrário, me sinto intensamente vivo, e quero e espero que no tempo que me sobra que eu aprofunde minhas amizades, diga adeus para aqueles que amo, escreva mais, viaje se tiver a força, e alcance novos níveis de entendimento e discernimento.


Isso demandará audácia, clareza e conversas diretas; tentar acertar minhas contas com o mundo. Mas haverá tempo, também, para alguma diversão (e até mesmo para alguma bobeira, sem dúvida).


Repentinamente me sinto possuidor de um foco muito claro, e de perspectiva. Não há mais tempo para nada que não seja essencial. Preciso focar em mim mesmo, no meu trabalho e nos meus amigos. Não vou mais assistir o jornal na TV todas as noites. Não vou mais prestar atenção para política ou para argumentos sobre aquecimento global.


Não se trata de indiferença, mas de desapego – ainda me importo muito com o Oriente Médio, com o aquecimento global, com o crescimento da desigualdade, mas estas coisas não estão mais na minha alçada; pertencem ao futuro. Regozijo-me ao encontrar jovens capazes – até mesmo aqueles que fizeram minhas biópsias e diagnosticaram minhas metástases. Sinto que o futuro está em boas mãos.


Cada vez estou mais consciente, nos últimos 10 anos mais ou menos, das mortes de meus contemporâneos. A minha geração está de saída, e senti cada morte como uma ruptura, como se parte de mim se rasgasse. Não haverá ninguém como nós quando nos formos, mas na verdade não há ninguém que seja como outro alguém, nunca houve. Quando as pessoas morrem, são insubstituíveis. Deixam buracos que não podem ser preenchidos, pois é o destino – o destino genético e neural – de cada ser humano ser um indivíduo único, encontrar seu próprio caminho, viver sua própria vida, e morrer sua própria morte.


Não posso fingir que não tenho medo. Mas meu sentimento predominante é a gratidão. Amei e fui amado; ofereci muito, e recebi algo em troca; li, viajei, pensei e escrevi. Comuniquei-me com o mundo com a comunicação especial dos escritores e leitores.


Acima de tudo, tenho sido um ser senciente, um animal pensante, nesse belo planeta, e isso por si só foi um enorme privilégio, e uma aventura.

—Oliver Sacks

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Faça de seu caminho um espelho de si mesmo


A natureza segue suas próprias regras: desta maneira, você tem que estar preparado para súbitas mudanças do outono, o gelo escorregadio no inverno, as tentações das flores na primavera, a sede e as chuvas de verão. 
Em cada uma destas estações, aproveite o que há de melhor, e não reclame das suas características.

Faça do seu caminho um espelho de si mesmo: não se deixe de maneira nenhuma influenciar pela maneira como os outros cuidam de seus caminhos. 
Você tem sua alma para escutar, e os pássaros para contar o que sua alma está dizendo. 
Que suas histórias sejam belas e agradem tudo que está a sua volta. 
Sobretudo, que as histórias que sua alma conta durante a jornada sejam refletidas em cada segundo de percurso.

Ame seu caminho: sem isso, nada faz sentido.

Paulo Coelho

sábado, 31 de janeiro de 2015

É preciso... e possível


O que mais dói na miséria é a ignorância que ela tem de si mesma.”

Colho essas palavras no texto de abertura do livro Vozes anoitecidas, do ganhador do Prêmio Camões, em 2013, o moçambicano Mia Couto. E sobre elas me debruço.

É importante considerar a amplitude de significados que ambos os vocábulos abrangem. Nem toda miséria está necessariamente ligada à falta de recursos materiais, e nem toda ignorância à falta de escolaridade ou à rudeza de atitudes. Assim, tomando ambos os vocábulos em sua multiplicidade de facetas, entre miséria e ignorância há convergência, porque ignorância é miséria, e há reciprocidade, porque - como se observa nas palavras do escritor - à miséria corresponde uma doída ignorância: a de si mesma.

Seja a miséria sujeito (e reflexo) da ignorância, ou a ignorância sujeito da miséria, ambas estão fundidas, calcadas e caladas no mesmo vazio, no mesmo torporoso breu. Diz Mia Couto: “Existe no nada essa ilusão de plenitude que faz parar a vida e anoitecer as vozes.” Chego a pensar que, no abismo que habita esse nada, um breve, tênue, fio de luz arrisca-se a evocar o gume de um punhal - frio ensaio de dor e morte penetrando o “cômodo” marasmo da treva.

É preciso que uma lua grande e clara atravesse o oco dessa noite para que a mais mínima possibilidade de dia nela se desvele.

É preciso que essa clara lua ceda lugar a um abrasado sol, para que as pálpebras, ainda que cerradas, pressintam a cálida beleza da vida.

É preciso que uma rajada de luz plena corte as entranhas desse mudo abismo para que a vida se mova, e os olhos e as bocas se abram sem medo ao azul.

É preciso que o sol amanheça o homem para que se saiba: é necessário e possível despertar vozes anoitecidas.


Eny Miranda, médica, poeta e cronista

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Gratidão: a melhor coisa que alguém pode ter na vida


Ao invés de estar sempre reclamando das coisas más da vida, que tal pensar em agradecer tudo o que de bom esse mundo tem pra nos dar?
Quantas vezes já mostramos nossa gratidão por ter uns olhos que nos permitem ver, uma natureza maravilhosa com a qual podemos compartilhar nosso lugar na Terra, quantas vezes já mostramos gratidão por existir?

Essa é a perspectiva de Louie Schwartzberg, cineasta e fotógrafo, que não deixa a beleza da natureza escapar à sua lente. 
Ele faz espantosas fotografias em time-lapse e, ao longo do palestra que deu no TED, vai juntando essas imagens com um discurso poderoso e inspirador, que nos convida a repensar nossa forma de entender o mundo e a nossa própria existência.

As palavras e imagens abaixo servem de meditação e mostram por que devemos estar agradecidos por cada dia que nos é oferecido (o vídeo está legendado).

Do site: http://www.contioutra.com/



terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Solidão


Estar só não é para gente que transforma tudo em um dramalhão mexicano, e sim para quem sabe ver de ângulos diferentes, sem se sentir vítima do destino. 
Abaixo aos vínculos pela metade! Esteja inteiro nos momentos com você mesmo, se enfrentando sem medo, sem máscaras e Smartphones

Como ser capaz de lidar com a solidão em uma sociedade que é regida pelas aparências? 
E nesses 8.748.364 e muito mais de pessoas pelo mundo, muita gente prefere estar mal acompanhado para não aparentá-la, mesmo sem ganhar uma verdadeira companhia nessa dança de relacionamentos mimetizantes, que só servem para pessoas que querem se esconder de si mesmas, e fazem diversos malabarismos para manter relações que desafiam até a lei da gravidade. 

Inundados de amor líquido, estar só começa a ter conotação de fracasso, esquisitice ou problema, mas porque você não pode aparentar a solidão estando muito bem acompanhado? 
A partir daí começa aquele teatro: vida virtual, milhares de amigos, aquisições pessoais e nenhum significado. 

Aparecer sozinho em um lugar pode significar tanta coisa, isso vai falar mais do entendedor do que de você mesmo, por que não se permitir dar as mãos para você mesmo? 
O que eu falo aqui, longe de um egocentrismo idiota, é mais um gesto de ser uma boa companhia para si . 
Passe uns minutinhos ou horas exercitando o diálogo interno, crianças são especialistas nisso, e não é a toa que as vezes sentimos saudade daquelas épocas remotas. 

Como diz Clarice, a solidão tem lá sua plenitude: “ Que minha solidão me sirva de companhia, que eu tenha a coragem de me enfrentar, que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo”.

Eu gosto de andar por aí, sem marcar data nem horário, um encontro casual e inesperado, caminhando livremente com o vento batendo em meus cabelos, seja acompanhada de uma boa música, ou ouvindo a música dos dias. 
Começo a lembrar de tudo que eu já vivi até aqui, os figurantes ganham a cena principal, e visualizo fantasiosamente todas as pessoas que já estiveram ao meu lado nessas andanças. 
Algumas eu quero que estejam mais vezes, outras me presentearam com questionamentos e me deixaram em dúvida, ou me deram certezas demais, e por fim um outro grupo das que eu prefiro correr para bem longe. 

Uma caminhada com você mesmo é sempre muito reveladora, os momentos de introspeção devem ser divertidos, qual é o sentido de fechar a cara e se isolar ao estarmos ao alcance dos olhos dos outros, estando acompanhados somente dos nossos? 

Como dizia Jung quem olha para fora sonha quem olha para dentro acorda, e ao meu ver o despertar precede muitos encontros de valor inestimável.

Daqui em diante, eu só quero lembrar das boas companhias, que tem o dom de transformar horas em minutos, e para mim que sempre tive aversão a relógios e aquele tic- tac nervoso, esse fator está presente em todos os meus argumentos pró- existência. 
Que tal sentir o que te cerca, observando e se deixando observar sem medo, sem máscaras e sem precisar estar acompanhado? 
Vai sem medo! No começo é assustador mas depois o encontro vai ficando cada vez mais interessante, e você não precisa pagar a conta, o preço ainda não foi lançado no sistema.

E o que eu aprendendo nessas andanças? Só anda comigo quem se apaixonar pela minha solidão e vice-versa.


Lia Holanda
© obvious: http://lounge.obviousmag.org/

domingo, 4 de janeiro de 2015

Sobre a tolerância

A humilhação vem da intolerância e o Jornal Hoje conta sobre a tolerância, sobre a capacidade de aceitar a diversidade, as diferenças...


[....]

... Para muita gente é difícil aceitar quem é diferente.
Quem tem opção sexual diferente, quem torce para time diferente, quem gosta de coisas diferentes.

Aceitar as diferenças significa entender que o mundo não é formado pelo nosso reflexo. 
Aceitar é ser tolerante, é ter respeito pelo outro e essa atitude só faz bem tanto para o indivíduo quanto para a sociedade. 

Ser tolerante significa ter paciência, saber ouvir e pensar mais antes de agir.

"Tolerância é algo que permite que as pessoas sejam mais ouvidas ao longo do tempo e permite que pessoas errem menos. 

Capacidade de aceitar diferença, direitos do outro é primeiro importante para a vida pessoal, porque todos vão ter experiências diferentes, vão ter amigos, familiares com jeitos diferentes", explica Fernando Abrúcio, cientista político.

"É bom ser tolerante. Não necessariamente quem é tolerante é bom porque ser bom exige uma completude muito maior do que a tolerância. 

Mas ser intolerante é maldade. Isto é a intolerância, é a "inaceitação" à não aceitação da pessoa do jeito que ela é imaginando que o único modo de ser é como eu sou. 

Todo intolerante é tolo ao não ver a diversidade humana na sua exuberância", analisa o filósofo Mário Sérgio Cortella

Fonte: http://g1.globo.com/jornal-hoje

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Como conviver com alguém de temperamento difícil?



Nenhuma pessoa pode ser taxada pela característica mais evidente, ou seja, eu não posso julgar alguém apenas por ter um temperamento forte

Quando pensamos em determinados comportamentos e situações, logo nos lembramos dos momentos nos quais não conseguimos lidar com determinados tipos de pessoas pelas características que elas possuem.

Pessoas consideradas "difíceis" encontraremos em todos os lugares: no trabalho, na escola, na família, na comunidade, entre nossos amigos, enfim, no convívio social sempre encontraremos pessoas com as quais teremos algumas ou muitas dificuldades.

O que popularmente chamam de "temperamento forte", pode revelar uma pessoa determinada, firme em seus propósitos, mas também alguém que pode dificultar relacionamentos, ser dura em seus pensamentos e, muitas vezes, alguém que pode ter barreiras nos seus relacionamentos em grupo. Nosso temperamento traz características herdadas de nossos pais. Se este "nosso tempero" é forte, logo lembramos que pode ter uma dose de "pimenta", de "sal" e outros tantos sabores.

Nenhuma pessoa pode ser taxada pela característica mais evidente, ou seja, eu não posso julgar alguém apenas por ter um temperamento forte. Mas como ajudar e ser ajudado nestes casos?

Nos relacionamentos cotidianos, vamos aprendendo a perceber as pessoas e a lidar com seus comportamentos. 
O primeiro ponto que podemos pensar é: "Será que esta pessoa tem algum comportamento que me irrita, pois se parece em algo comigo?". 
Será que você também é uma pessoa difícil? 

Procure, então, perceber-se, deixe de lado as acusações e passe a observar-se melhor. Ao perceber seus valores, sua forma de agir e perceber o mundo, muitas coisas poderão ser clareadas.
Claro que pessoas mal humoradas, de atitudes negativas, que apenas criticam ou para as quais o mundo sempre é ruim, pouco colaboram quando estão convivendo com os demais.

Com uma pessoa assim, é importante que sejamos assertivos, ou seja, que sejamos claros ao dizer, de forma adequada, os comportamentos dela que prejudicam aquele ambiente. 
Quando deixamos o fato de lado, eles podem "crescer" e quando percebemos todo o relacionamento pode ser perdido. Não "caia no jogo". Você pode ter um temperamento também forte e facilmente irritar-se e até alimentar aquela situação constrangedora. 

Acalme-se, olhe para a situação de forma racional e dê uma resposta diferente.

Compreender a forma da outra pessoa pensar também ajuda bastante. Procure pensar antes de dizer, não reaja de forma impulsiva. 
Quando uma situação está muito difícil, às vezes é melhor recuar e conversar quando ambos estiverem mais calmos.

Gosto muito de uma citação do Padre Joãozinho que diz assim: 

"Nós precisamos viver como patos e não como esponjas. Os patos têm uma glândula que distribui óleo em suas penas para torná-las impermeáveis. Depois que eles mergulham, sacodem as penas e já estão prontos para outra. Tudo fica por fora deles, nem a água nem a sujeira os atingem. 
Por outro lado, quando vivemos como esponja, absorvemos tudo que as pessoas nos dizem e acabamos nos tornando complexos, cheios de ressentimento".

Paciência e benevolência são poderosos instrumentos dos quais precisamos nos lembrar para um bom relacionamento com nossa família, filhos, amigos, trabalho, comunidade, escola. Pensemos nisso!


Elaine Ribeiro dos Santos

Natais e mudas de alface


A manhã chuvosa parecia costurada nos embaraços de uma noite mal dormida. O vulto de mulher prateado pelos raios de um sol recém nascido recolhia do tempo as agruras de saber-se temporário, imperfeito, afeito aos desajustes de um amor que adormeceu, mas que não desaprendera de amanhecer.

Era um corpo de dor, de mestruadas esperanças, de saudades e partos. Corpo de mãe, corpo de cumprir ofício de curar joelhos esfolados, de dar banhos que tinham o poder de lavar corpos e almas num mesmo acontecimento.

Corpo de amamentar filhos que crescem.

Aquela mulher e aquelas manhãs de dezembro. As recordações de seu tempo de menina, pobreza reconhecida, trazida na cara e denunciada pela moldura de olhos que não sabiam mentir.

O plantio programado, compromisso que nem mesmo a dor acontecida nas recentes horas poderia adiar, tinha ares de ritual religioso. A sementeira ao lado, moldada numa caixa de papelão resistente, sobre o canteiro que nasceu de suas mãos pequenas, esperava pela oportunidade de cumprir no tempo o destino de dar continuidade à obra da criação.

Morrer e viver são atos que se conjugam sem pressa.

A mulher sabia de tudo isso. As mudas miúdas também. Dotadas de sabedoria vegetal, cresciam ao seu tempo com a mesma simplicidade que é própria de quem não procura outro destino senão o seu.

Aquela mulher sabia mais. As mudas não mudam.

São sempre as mesmas desde o tempo de sua mãe. Ofício aprendido que se estende no tempo, feito consumação de uma despedida que se cumpre aos poucos, bem aos poucos.

Mudas de alface estão carregadas de sentido. Nelas, prepara-se o futuro que afugenta a fome, traz variações ao modo de carecer.

Recordo-me com saudade. O tempo era de chuvas. Jabuticabeiras explodiam.

Pequenos frutos pendurados em seu corpo de árvore-mãe, tal qual a minha mãe e seus meninos pendurados na cintura, entrelaçados nas pernas e puxando seus braços.

Dezembro tinha cores e histórias diferentes. Vitrines iluminadas, cartões de ocasião sendo preparados pela minha irmã, para que mesmo com simplicidade pudéssemos desejar votos de felicidades.

Presépio sendo retirado da caixa, árvores coloridas de bolas vermelhas, anunciando que nossa pobreza seria ainda mais exposta. Mas não havia problema. Nossa árvore, mesmo tão pobre, já era nossa alegria. As jabuticabeiras nos curavam de tudo...

Minha mãe e sua capacidade de replantar o mundo a partir de mudas de alface era o símbolo mais vivo de nosso Natal. Com seu jeito simples e hábitos rotineiros, ela condensava todas as virtudes que o acontecimento nos sugeria.

“O menino Jesus é quem merece presente neste dia!”, ensinava-nos como se quisesse modificar a ordem do mundo.

E assim acreditávamos.

Nossos presentes eram poucos. Quase nenhum. Só mesmo para não passar em branco, mas o mais importante nós não deixávamos de receber. O sorriso farto, a oração em família, a missa do galo e o nosso Natal já estava completo.

Aquela mulher nos fazia esquecer o que não tínhamos. Transplantava-nos, como fazia com as mudas de alface.
Deixávamos o chão estreito da sementeira e caíamos com nossas raízes nos canteiros fartos da simplicidade que ela sabia construir.

E assim era o nosso Natal.

Um acontecimento para nunca mais esquecer.

Padre Fábio de Melo

Feliz Transformação


A proxima-se o Réveillon . Um dezembro meio calado afivela suas malas já com certa pressa. Dentro delas, bem acomodadas, todas as lembranças e histórias, alegrias e tristezas, benesses e agruras dos últimos trezentos e cinquenta e tantos dias.

O ano de número dois mil e quatorze vai saindo de cena, cansado, surrado, por alguns até amaldiçoado.

E nós? Como ficamos nós?

Simples: nós ficamos aqui, preparando os caminhos para um outro ano, jurando uns aos outros e tentando nos convencer a nós mesmos de que será um ano maravilhoso, repleto daqueles votos que repetimos incansavelmente durante os intermináveis abraços e apertos de mão que distribuímos entre o dia de Natal e o trinta e um de dezembro. 
Muita paz, saúde, prosperidade, dinheiro no bolso etc.

Tenho a sensação de que cada um de nós, ao repetir a cantilena de votos de um novo ano melhor, na verdade, intimamente fica tentando se convencer de que, por alguma mágica maluca, a mudança do calendário por si só há de melhorar o mundo e as pessoas.

Sempre nutri certa desconfiança em relação a essa crença de que, mudando o número do calendário, há uma chance excepcional de que tudo a minha volta se transforme para melhor e que a vida passe a sorrir mais para mim.
[....]

O âmago da questão – sem mais rodeios – é que, ano após ano, temos a sensação de que tudo à nossa volta se repete...
[...]

.... Entra ano e sai ano, fazemos promessas de mudanças, votos de transformação e vamos repetindo à exaustão um modelo de vida e um corpo de crenças e ideologias que nos mantém atrelados a nossos pequenos vícios, às pequeninas imperfeições e preguiças que, somados, travam nosso progresso pessoal e assim esmaece o brilho dos votos que nos fazemos uns aos outros sob os fogos de infinitas noites de réveillon.

O que precisamos, mais do que um novo calendário, é de novas atitudes. 
Mais do que promessas regadas a champanhe e sopa de lentilhas, necessitamos é de uma decisão firme e coerente em prol da nossa transformação pessoal, da qual nascerá a transformação da sociedade.
Podem vir 2015, 2016... Se esses novos números nos encontrarem refratários às mudanças, hábeis apenas em pronunciar belos e estéreis presságios aos outros, o país nunca será aquele que sonhamos.

Por isso, eu desejo a você que está lendo esse texto, não saúde ou prosperidade, ou dinheiro no bolso. Desejo a você, atitude.

Desejo a você que pare de olhar para o calendário e volte os seus olhos para o seu interior, num profundo e sério exame de consciência, a fim de detectar onde está a necessidade de transformação para que você passe a ser tudo aquilo de bom que deseja aos outros, seja em janeiro, fevereiro ou setembro, seja que ano for.

Ronaldo Silva

Lá vamos nós...



Lá vamos nós novamente...

Comemoramos o Natal,

E com certeza, desejamos sonhos possíveis e impossíveis.

E por alguns dias abrimos espaço para sermos mais fraternos e solidários.

Lá vamos nós novamente...

Fazer um balanço do que foi; para sanar o que virá.

Buscaremos no novo ano sonhos antigos,

Amores perdidos, aquisições mil.

Lá vamos nós novamente...

Reinventar a vida, aceitar a morte.

Abrir feridas como também fechá-las.

Sulcar o rosto para contar histórias.

Provavelmente iremos rir muito, assim como chorar e nos indignar.

Vamos nos surpreender e sem dúvida nos entediar com a mesmice.

Contaremos os dias, fecharemos os meses;

E chegará o final de ano novamente para alguns;

Enquanto que para outros, será nova a Pátria.

Roda mundo, roda gigante... roda moinho, roda peão.

Lá vamos nós novamente, buscar realizações nas bobices recheando a vida,

E para tudo isso deveremos encontrar a fé ... somente a fé.

É....Novamente lá vamos nós!

Heloísa Bittar Gimenes

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Momentos especiais


A vida presenteia a todos nós com momentos especiais, únicos!

Alguns não percebem quando eles chegam e simplesmente os ignoram, perdendo a alquimia existencial. 
Outros os vivem profundamente, sabendo o quanto eles deixarão saudades... 

Todos têm momentos mágicos que podem ser vividos em janeiro, junho, julho ou em um doce novembro. 
Independente de datas eles surgirão e se estivermos despertos os guardaremos, feito tesouros, para todo o sempre! 

Essa é a grande diferença entre quem vê a vida em preto e branco e quem a vê colorida, com poesia, perfume e música...

Lígia Guerra

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

O que é a vida?

O que é a vida? 
A vida é a nossa participação na história. 



Como as estações do ano ou como as paisagens, 
a vida vai mudando e nós com ela. 
Mas nós também mudamos a história. 
A história era diferente antes de nós 
e não será igual depois de nós. 
Nós mudamos a história com a nossa vida: 
as nossas acções, boas e más, 
as nossas palavras, 
as nossas opiniões 
e as nossas decisões, 
os nossos amores e os nossos ódios... 
Tudo é vida, tudo é história.

Mas a vida não se cruza só com a história. 
Na nossa vida temos factos e temos pessoas. 

Cruzamo-nos com os outros, 
que também têm as suas vidas e as suas histórias. 
Como os castelos. 
Pedra sobre pedra, 
fortalezas, onde só entra quem deixamos, 
o sítio de encontro, 
o lugar da segurança, 
para os que amam, o lugar do amor. 

Bem situados, 
normalmente nos altos das vilas ou das cidades, 
de lá nós vemos quem se aproxima: 
amigos que nos querem bem, 
os mal intencionados, 
que nos deixam assustados, 
os desconhecidos que nos visitam, 
os amores que vêm à procura do nosso coração...

O que é a vida? 
É mostrar-se e esconder-se, 
é arriscar e recuar, 
observar e participar, 
é duvidar e acreditar.

E é amar. 
Amar tudo e todos, é certo, é cristão,
mas amar quem vive no nosso coração. 
Grande castelo o nosso coração! 
Amamos com mais ou menos intensidade, 
com mais ou menos paixão, 
mais presentes ou mais ausentes, 
mas amamos os que trazemos dentro de nós. 
Com esses, 
muitos ou poucos, que importa?, 
construímos a nossa vida de cada dia. 
Porque nascemos para amar, 
vivemos a amar 
e morremos amados.

O que é a vida? 
É o livro do qual se é o autor 
e talvez o seu único leitor. 
São as páginas que lemos, 
escrevemos 
e voltamos a ler 
para ver o que ficou escrito lá atrás 
e que já não nos lembramos; 
são os capítulos que o ordenam, 
lhe dão sentido e força, 
são os outros personagens, 
os que estão sempre em cena 
e os que vão e vêm; 
são as folhas por escrever, 
desafios desconhecidos numa história em construção.

No livro da vida não há ficção. 
Tudo aconteceu, 
tudo é real, tal e qual, 
não adianta ter vergonha.

O que é a vida? 
É ler o seu próprio livro: 
chorar, rir, sonhar... 
E não desistir de amar.


Fr. Filipe


Pense em mim


Pense em mim
Se você me ama,

Não chore...

Se você conhece o mistério insondável do céu onde me encontro...

Se você pudesse ver e sentir o que eu sinto e vejo nestes horizontes sem fim e nesta luz
que tudo alcança e penetra você jamais choraria por mim.

Estou agora absorvida pelo encanto de Deus, pelas suas expressões de infinita beleza.

Em confronto com esta nova vida, as coisas do tempo passado são pequenas e insignificantes.

Conservo ainda todo o meu afeto por você
e uma ternura que jamais lhe pude, em verdade, revelar.

Amamo-nos ternamente em vida,
mas tudo era então muito fugaz e limitado.

Pense em mim assim.
Nas suas lutas, pense nesta maravilhosa morada, onde, juntos, viveremos no enlevo mais puro e mais intenso, junto à fonte inesgotável de alegria e do amor.

Se você verdadeiramente me ama, não chore mais por mim.

"Eu estou em paz."

do site: http://www.paulinas.org.br/

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Pedido


Ouço os sinos:
Dobram, redobram,
Anunciando aos homens
A chegada do Menino.

Onde estão os homens?

Olho a estrela:
Brilha, rebrilha,
Indicando aos homens
O caminho do Menino.
E onde os homens estão?

Vejo o Menino esperando,
Deitadinho entre as palhas,
E renascendo, a cada ano...
E cansando de esperar.

Menino, não te vás embora,
Espera mais um pouquinho!
Sei de uma estrela enorme
Que brilha no alto da noite
Saudando a Tua chegada.

Menino, não te vás embora,
Espera um pouquinho mais!
Sei de três nobres senhores
Que, partindo do Oriente
E seguindo a Estrela-Guia,
Logo Te irão encontrar,
E com ouro, mirra e incenso,
Irão e Te presentear.
E sei também de pastores 
Que, seguindo a Fé e a Palavra,
Logo Te irão adorar.

(Não nos shoppings,
Nem nas luzes
De outras muitas estrelas,
Geradas nas mãos dos homens.
- Eis os homens! -
Não nas mil e uma caixas
Vestidas de ouros e pratas
Que se amontoam nas lojas,
Nas casas, nos olhos...
E em muitos corações.
Não no farfalhar das sedas
Ou nos laços de celofane
Que se compram e se vendem
- Filas enormes! - 
Em mercados vazios de Fé).

Não, Menino, não vás embora:
Fica e me mostra o caminho
Da Tua estrela luminosa.
Revela-me a paz do Teu ninho.
Envolve-me no hálito-agasalho
Do Amor, 
Da confiança na essência do Homem.

Não, Menino, não vás embora:
Fica. E me mostra o caminho
Que leva ao singelo, à ternura,
Às palhas da manjedoura;
A novo sopro de esperança
No humano coração.

Eis o que procuro
Nas madrugadas nebulosas 
(Onde a Estrela?) 
Destes dias seculares:
O espírito do Teu Natal.
Hoje tão difícil... tão difícil...
Ah, Menino, não te vás!

Eny Miranda

domingo, 14 de dezembro de 2014

Ler o mundo


Fui convidada pela Juliana, da Escola Dante Guedini, que faz um belo trabalho, na Sala de Leituras, para dois encontros com uma escritora (eu) e os alunos, basicamente das 7ª e 8ª séries. 

Pedi que os alunos me ajudassem com perguntas e elas foram ótimas: 
qual o meu sonho; 
como começou a minha paixão por ler; 
qual a primeira dificuldade minha ao escrever; 
como lido com o tema e com o título do que escrevo (escrevo o que realmente sinto e penso?); 
quais as minhas referências como escritora-leitora. 
Perguntas que me ajudaram a conhecê-los.

Lembrei-me, antes de encontrá-los, da minha experiência como alfabetizadora. Descobri maravilhas sobre o ato de ler, tantos anos atrás. 
Cada um aprende a ler segundo uma experiência íntima, particular. 
Vi uma criança aprender, pelo som da letra, o método fonético desenvolvido (e criticado) por Maria Montessori. 
Na época era popular o método global, de Paulo Freire, na alfabetização dos adultos (o famoso MOBRAL, extinto pela ditadura militar, considerado subversivo). 
Muitas crianças eu vi aprenderem a ler com frases e até mesmo textos criados, oralmente, por elas, seguindo Freire.

Mas também vi criança aprendendo pelo antiquado método silábico, usado nas cartilhas. 
As cartilhas eram criticadas, nos idos dos anos 70, como método arcaico de alfabetização, que impedia a criatividade da criança. 
Mas vi criança se alfabetizar com a junção de letras: “b” + “a” = “ba”, considerado um péssimo método.

Aprendi, como alfabetizadora, que a gente aprende a ler, de maneira pessoal, da mesma maneira como se bebe, ou se come, ou se cheira e se toca o mundo ao redor. 
Há os detalhistas que, enquanto não veem todos os detalhes, não conseguem apreender a experiência e dar nome a ela. 
Há o que precisa de uma visão panorâmica, para situar o detalhe senão se perde, sem perceber o contexto.

Há pessoas que necessitam viver sensações: a experiência tem de ser concreta, sensorial, para conseguirem registrar experiência: são incapazes de abstrair. 

Em geral, crianças pequenas precisam de experiências sensoriais, antes de alcançar a abstração, e apreendem as experiências por “tentativa e erro”.

Outros apreendem um padrão e, através dele, encontram um sentido na experiência, organizando a sua percepção e, finalmente, alcançam o aprendizado.

Alfabetizar revela os diferentes tipos, humanos, de inteligência. 

Ler cria o futuro escritor e suas diferentes escritas também. 

É milagroso, para o alfabetizador, ver pipocar, um aqui, outro acolá, o leitor e o escritor futuros da nossa língua portuguesa. 

Quando nada parece estar a acontecer, silenciosa metamorfose vai ocorrendo. 
Alguém cego e surdo para os sinais crípticos, misteriosos, se torna, finalmente, alguém letrado e culto: cidadão da própria língua.

Obrigada, turma da E.E. Dante Guedini pela conversa sobre leitura/escritura: meu mundinho se alfabetizou mais, em leitura e escrita, com a experiência de nosso encontro. 

Alfabetização é um processo infinito, quando queremos ler o mundo, mais do que ler livros.


Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista

Quatro conselhos dos santos para a educação dos seus filhos


“Como poderão os filhos ser bons, se os pais não prestam? Só por milagre”. 
Com essa frase, Santo Afonso de Ligório resume a grave responsabilidade dos pais na formação da consciência de seus filhos. 

Como ensinou Nosso Senhor, pelos seus frutos os conhecereis. São muitíssimos os nomes de santos que tiveram pais ou mães igualmente virtuosos: Santo Agostinho e Santa Mônica, São Gregório Magno e Santa Sílvia, Santa Catarina da Suécia e Santa Brígida… e a lista se estende. 
São verdadeiramente almas gigantes, que só puderam se elevar porque receberam uma educação exemplar de seus pais.

Vão aqui quatro conselhos dos santos para você educar os seus filhos. Nem todas são exortações muito agradáveis aos ouvidos, mas, com certeza todas serão de grande valor para a sua família.

1. Ser obediente a Deus


“ Se queremos saber mandar, temos primeiro de saber obedecer, procurando impor-nos mais com o amor do que com o temor.” (São João Bosco)
Antes de impor a autoridade sobre os filhos, é preciso lembrar que há uma autoridade à qual todos os homens devem obedecer. 
Tanto maior será o respeito dos filhos por seus pais, quanto maior for o respeito destes ao Pai dos céus. 
O filho que vê o pai trabalhando, tratando com respeito a sua mulher, cuidando das necessidades da casa e rezando - em suma, cumprindo o seu dever de cristão e pai de família -, não só será dócil às suas instruções, como seguirá o seu exemplo, ao crescer. 
Portanto, em primeiro lugar, o Reino de Deus, isto é, o cumprimento da Palavra. 
As outras coisas virão por acréscimo.

2. Corrigir por amor, não por ira
“ Tome-se como regra nunca pôr as mãos num filho enquanto dura a ira ou cólera; espere-se até que se tenha aquietado por completo.” (Santo Afonso de Ligório)

“Quando, porém, se tornarem necessárias medidas repressivas, e consequentemente a mudança de sistema, uma vez que certas índoles só com o rigor se podem dominar, cumpre fazê-lo de tal maneira que não apareça o mínimo sinal de paixão.” (São João Bosco)

Os conselhos de Santo Afonso e São João Bosco são o mesmo conselho do Autor Sagrado: “Vós, pais, não provoqueis revolta nos vossos filhos” (Ef 6, 4). 
Se é verdade que, como adverte o Livro dos Provérbios, “quem poupa a vara, odeia seu filho” (13, 24), também é verdade que toda correção deve ser feita de modo racional e equilibrado, inspirada pelo amor, não pela ira. 
Caso contrário, também a criança aprende a irar-se, sem que mude de comportamento. 
Aqui, é importante evitar não só as agressões físicas, mas também os gritos e as palavras exasperadas, que mais servem para intimidar as pessoas que para melhorar o seu caráter.

3. Dar bom exemplo

“ Os pais estão igualmente obrigados a dar bom exemplo a seus filhos. 
Estes, principalmente quando pequenos, imitam tudo o que veem, com a agravante de seguirem mais facilmente ao mal, ao qual nos sentimos inclinados por natureza, que o bem, que contraria nossas inclinações perversas. 
Como poderão os filhos comportar-se irrepreensivelmente, se ouvirem seus pais blasfemar a miúdo, falar mal do próximo, injuriá-lo e desejar-lhe mal, prometer vingar-se, conversar sobre coisas indecentes e defender máximas ímpias, como estas: Deus não é tão severo como dizem os Padres; ele é indulgente com certos pecados, etc.? 
O que se tornará a filha que ouve sua mãe dizer: É preciso deixar-se ver no mundo e não se enclausurar como uma freira em casa? 
Que bem se pode esperar dos filhos que veem o pai o dia inteiro sentado na taberna e, depois, chegar bêbado a casa, ou então visitar casas suspeitas, confessando-se uma só vez no ano ou só muito raramente? 

S. Tomás diz que tais pais, de certo modo, obrigam seus filhos a pecar.” (Santo Afonso de Ligório)

As palavras de Santo Afonso são suficientemente claras. 
Aqueles que dão mau exemplo de vida, “de certo modo, os obrigam seus filhos a pecar”. 
Se essa sentença é verdade para o mal, também o é para o bem. 
Pais que vivem uma vida de oração e virtudes excitarão o coração de seus filhos para o serviço de Deus e das almas. 
O casal de beatos Luís Martin e Zélia Guérin educou tão bem suas cinco filhas, que todas elas se tornaram religiosas, entre elas Santa Teresinha do Menino Jesus, que é doutora da Igreja.

O pai que, lendo essas linhas, lamentou não ter dado uma boa educação a seus filhos - pois não tinha conhecido Nosso Senhor quando começou a sua família - deve, antes, louvar a Deus pelo conhecimento que agora tem e ainda pode dar a seus filhos, por meio de conselhos. 

É preciso, agora, buscar a conversão da própria família, sobretudo com uma vida de muita oração e penitência, evitando inquietações e escrúpulos desnecessários, afinal, Deus não nos pede conta daquilo que ignoramos. 
Uma vez conscientes da Sua vontade, todavia, é importante trabalhar com temor e tremor na própria salvação e na dos outros, sabendo que a quem muito foi dado, muito será cobrado.

4. Agir com prudência e vigilância

“Os pais são os culpados, pois quando se trata de seus cavalos, eles mandam aos cavalariços que cuidem bem deles, e não deixam que cresçam sem serem domados, e desde cedo põem neles freio e outros arreios. Mas quando se trata de seus filhos jovens, deixam-nos soltos por todas as partes durante muito tempo, e assim perdem a castidade, se mancham com desonestidades e jogos, e desperdiçam o tempo com espetáculos imorais. (...)

Cuidamos mais de nossos asnos e de nossos cavalos, do que de nossos filhos. 
O que possui uma mula, se preocupa em encontrar um bom cuidador, que não seja nem rude, nem desonesto, nem ébrio, mas um homem que conheça bem o seu ofício. Todavia, quando se trata de procurar um professor para a alma da criança, contratamos o primeiro que aparece. 
E, no entanto, não há arte superior a esta. 
O que é comparável à arte de formar uma alma, de plasmar a inteligência e o espírito de um jovem? 

Quem professa esta ciência deve proceder com mais cuidado que um pintor ou um escultor ao realizar sua obra.” (São João Crisóstomo)
São João Crisóstomo viveu no século IV, mas esse conselho é válido sobretudo para os nossos tempos, em que as crianças são entregues a um sistema educacional corrompido, muitas vezes com a displicência dos pais, que querem passar toda a sua responsabilidade de educá-las para o Estado.

“Quando se trata de procurar um professor para a alma da criança, contratamos o primeiro que aparece”. Essa sentença convida todos os pais a um exame de consciência: como me relaciono com a escola dos meus filhos? 
Sei ou procuro saber o que os professores estão passando para eles, quais livros estão sendo usados para a sua instrução e como é o ambiente em que convivem? 
Em casa, deixo os meus filhos jovens “soltos por todas as partes”, deixando que façam o que querem, sem freios e sem disciplina? 
Converso com eles com frequência, agindo verdadeiramente como pai? 
O exame deve incluir, evidentemente, o propósito de agir com mais pulso e cuidado na orientação da prole.

É preciso empregar muita diligência nesses exames, pois, como diz Santa Teresinha do Menino Jesus, as crianças “são como uma cera mole sobre a qual se pode depositar tanto as impressões das virtudes como do mal”, e os primeiros responsáveis por moldar essas pequenas almas são justamente os pais. 

A santa religiosa de Lisieux exclamava: “Ah! quantas almas chegariam à santidade se fossem bem dirigidas!...”

Lembremo-nos sempre que Deus pedirá conta daquilo que fizemos com as almas de nossos filhos e peçamos a Sua graça para imitarmos a Sagrada Família de Nazaré, na qual Nosso Senhor cresceu, rodeado de carinho, atenção e amor.

Padre Paulo Ricardo
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terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Sinto-me completa


O meu rosto parece-te enrugado?
São as cicatrizes das feridas
que a vida vai-me deixando...
São as marcas de experiências vividas...

Nem tudo é sombra,
nem tudo é sol...

A minha alma machucasse 
e ao mesmo tempo sente-se acarinhada...

perguntas-me se trocava a leveza do sentir,
pela dureza daquilo que me marcou?

Não... Amei tudo o que vivi até aqui...
Nada teria sentido se fosse de outra forma...

Aprendi, ensinei, 
sorri, chorei, 
doei de mim...
Umas vezes sem retorno,
noutras tantas, também recebi...
perdi, ganhei...

E agora queres também saber se valeu a pena?
Valeu e continua a valer, 
com toda a certeza!
Valeu por tudo o que foi e não volta mais...
Vale por tudo o que é...vivido... Sentido...
Valerá, talvez, por tudo o que ainda está para vir, 
enquanto Deus assim mo permitir!

Sou enrugada pela vida... É certo, 
carrego no peito dores, desalentos, desamores...
Alegrias, euforias, emoções e contentamentos...
Memórias intemporais que não se perdem no tempo...

Mas acima de tudo,
sou imensamente feliz com as rugas
que me tornam mais completa...

Com elas aprendi o milagre 
de sentir,
de sofrer, 
de sorrir 
de viver! 

(Rómy Pinto)

O tamanho das pessoas


Os tamanhos variam conforme o grau de envolvimento...

Uma pessoa é enorme para ti, quando fala do que leu e viveu, quando te trata com carinho e respeito, quando te olha nos olhos e sorri .

É pequena para ti quando só pensa em si mesma, quando se comporta de uma maneira pouco gentil, quando fracassa justamente no momento em que teria que demonstrar o que há de mais importante entre duas pessoas: a amizade, o carinho, o respeito, o zelo e até mesmo o amor

Uma pessoa é gigante para ti quando se interessa pela tua vida, quando procura alternativas para o seu crescimento, quando sonha junto contigo. E pequena quando se desvia do assunto.

Uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende, quando se coloca no lugar do outro, quando age não de acordo com o que esperam dela, mas de acordo com o que espera de si mesma.

Uma pessoa é pequena quando se deixa reger por comportamentos da moda.

Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza ou miudeza dentro de um relacionamento, pode crescer ou decrescer num espaço de poucas semanas.

Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande.
Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo.

É difícil conviver com esta elasticidade: as pessoas se agigantam e se encolhem aos nossos olhos. O nosso julgamento é feito não através de centímetros e metros, mas de acções e reacções, de expectativas e frustrações.

Uma pessoa é única ao estender a mão, e ao recolhê-la inesperadamente torna-se mais uma.
O egoísmo unifica os insignificantes.
Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande... é a sua sensibilidade, sem tamanho...

Martha Medeiros