segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Diálogo e gestos de amor

 Da relação do casal no que diz respeito ao diálogo e aos gestos de amor.


Uma tentação errada é pensar que os gestos de amor se resumem à relação sexual.
Perceber que uma relação a dois é uma construção baseada na amizade, no diálogo, no perdão. 
Perceber que uma relação não é uma realidade estática mas que vive em constante dinamismo, mesmo com as rotinas. Por isso evolui, consolida-se.

Quando se fala em diálogo numa relação a dois não é tanto saber se há temas para evitar o silêncio. 
O diálogo é fundamental em qualquer relação, e em especial numa relação em que os dois são um só. Por isso, o silêncio pode ser diálogo, se for saudável. 

O silêncio forçado, que cala problemas, esse sim prejudica não só o diálogo mas até a própria relação. O diálogo existe quando existe honestidade e naturalidade.

Casar na Igreja leva-me a perceber que o meu companheiro/a tem uma dimensão sagrada na minha vida. Não foi por acaso que ele apareceu. Porque não vê-lo como aquele que Deus colocou no meu caminho para a felicidade de ambos e para a prática do amor? Se vir aquele com quem fiz aliança e partilho a minha vida como um dom de Deus, sinto-me amado quando amo e sou feliz quando o faço feliz.

Uma relação para toda a vida ou, como diz o ritual "até que a morte nos separe", leva inevitavelmente para a rotina. 
E há rotinas saudáveis, como por exemplo, a de todos os dias chegar a casa e poder partilhar as alegrias e preocupações do meu dia. 

O desafio para qualquer vida, pessoal, conjugal ou comunitária é descobrir a novidade na rotina dos dias.
Piores rotinas são as das atitudes. A rotina do amuo, da birra, da mesma reação a qualquer ação/provocação. Estas rotinas é que são danosas numa relação.
Também, como em qualquer vida ou relação, há momentos difíceis. Na vida todos temos dificuldades.

Dificuldades não são necessariamente impedimentos. As dificuldades devem levar-me ao amor primeiro, àquilo que me fez amar a pessoa com quem casei. Esse amor primeiro, o fogo que arde sem se ver, não se apaga.

Perceber que a minha vida, a minha relação é única. Porque cada história de amor é única. Não se pode medir nem comparar. Por isso é importante a intimidade do casal. O que é íntimo não se divulga nem se comenta. Não se trata de um acordo, trata-se de respeito pelo que vivo com o outro e só a nós diz respeito.

Tudo na vida do casal deve ter o seu tempo e o seu lugar: o trabalho, os amigos, os filhos quando vierem... e o meu companheiro/a. Os filhos não podem substituir o outro. Eles têm o seu lugar. São o fruto da vida de casal.
Os gestos de amor acompanham a vida do casal. Não precisam de originalidade, precisam de atenção. 

Como uma planta que precisa de ser regada e de ter sol ou luz, como o fogo que precisa de alguma coisa que o faça manter aceso, assim numa relação os gestos de amor alimentam e manifestam o amor ao longo da vida.
Uma palavra sobre a sexualidade. Para a Igreja uma pessoa não é um objecto. 
O instinto, o desejo de possessão não glorificam o ser humano. Por isso, a sexualidade na vida conjugal deve respeitar o outro, sempre nesta atitude de liberdade e responsabilidade.

E que seja, também ela, um gesto de amor.

Fr. Filipe

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

My way: as cicatrizes também podem indicar novos caminhos


A felicidade se define melhor como estar do que como ser. E ela está mais no jeito de ir do que no de chegar, de concluir. Mesmo porque, enquanto vivemos, sempre haverá aonde chegar. 

Amar a corrida e não a linha de chegada. Sem necessariamente abrir mão do coração, cujos caminhos são mais complexos que os caminhos do andar que se faz ao andar. 
Na verdade, não é fácil botar um cabresto nos nossos desejos, subordinando-os ao receituário da razão. E razão convincente; e consequente. 
Também não vale empacar, recusando-nos, radicalmente, a determinadas posições, mesmo sendo válidas. Tampouco não fazer nada. 
Na prática, ora os caminhos se apresentam largos, ora estreitos; ora trilhas, veredas. “Per aspera ad astra”. Por caminhos ásperos se vai até às estrelas.

Tropeçando. Descansando e recomeçando. 
Treinando, ensaiando, escrevendo a vida. 
Aliás, a vida de cada pessoa sempre dá um livro. E livro único, que jamais se repete. Sem poder rasurar nem passar a borracha. 
Mas vivendo e aprendendo. 
Semeando e colhendo. 

Para tudo há que haver um caminho. E com jeito vai. Mas evitando apelar para o jeitinho, essa praga que está na raiz da nossa cultura. 
Também sem quebrar o galho, numa pseudo solução, expressão antiecológica até no nome.

Enquanto caminhamos, temos vida. Não importa tanto o que se faz. A maneira como se faz é que interessa. Competir consigo mesmo na caminhada em busca do aperfeiçoamento. 
Não existe perfeição entre os humanos. 
Nem nos grandes santos nem nos maiores empreendedores. 
Nem nos gênios. Em ninguém. Ninguém, absolutamente ninguém, é dono da verdade.

Mapa, GPS, pontos cardeais, bússola. Setas. Satélite. Guia turístico. 
É triste a paisagem de um rio seco. 
Mas, mesmo assim, desprovido das águas, seu leito ainda serve de caminho pela trilha batida. 

As cicatrizes também podem indicar novos caminhos. 
A soma de momentos fugazes de gozo não agrega felicidade. 
Importa fazer felicidade, e fazer, da felicidade, “my way”.

Antônio de Oliveira

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Racista, machista e homofóbico jamais. Mas gordofóbico tudo bem?


Agradeço todos os dias por viver num meio no qual convivo com pessoas que, em sua grande maioria, não emitem nem toleram comentários racistas, homofóbicos, machistas ou discriminatórios em geral, nas suas mais diversas e infelizes formas.

Felizmente, vivemos numa sociedade que suporta cada vez menos a ignorância e a pobreza de espírito.

No entanto, me canso de ver essas mesmas pessoas, supostamente tão sensatas, dizendo, sem qualquer pudor, culpa ou constrangimento algo desnecessário e agressivo sobre “aquele gordo” ou “uma gorda aí”.

Me parece haver uma espécie de “zona franca” na qual as pessoas resolveram que falar de forma discriminatória de gente que está acima do peso ideal, teoricamente não tem problema, não é discriminação, não é errado.

Frequentemente, a justificativa é que “hoje em dia, só é gordo quem quer”. Mentira. Todos sabemos o quão mentiroso isso é. Se fosse assim, com certeza não veríamos o Ministério da Saúde divulgar que quase 50% da população brasileira está acima do peso.

Obviamente, não estou afirmando que o sobrepeso e a obesidade devam ser encarados como fatos imutáveis ou que não haja necessidade de combatê-los. Claro que não. Questões de saúde devem ser prioridade para qualquer pessoa. O que estou falando é que o excesso de peso alheio não dá a ninguém a prerrogativa de julgá-lo. Só isso.

A pessoa que está acima do peso com frequência é vista como preguiçosa, descuidada, como alguém que poderia estar magro e esbelto e optou por não estar. Interessante que muitas das pessoas que falam “daquele gordo” estão entre aquelas que há anos afirmam que vão perder 2 quilinhos para o verão e nunca o fazem. “Mas na hora que eu quiser eu perco”. Bullshit. Você quer perder e não perde.

Fazer dieta nunca é fácil. Renunciar à cervejinha, ao chocolatinho, ao pãozinho francês, à carne vermelha é duro. Correr na esteira também. Mas mais difícil do que isso é lutar contra um metabolismo lento, uma tireóide desobediente, uma genética desfavorável, um pós-gravidez cruel, uma menopausa avassaladora. E ainda pior é ter que conviver com os olhares tortos, as risadas por detrás das mãos, os comentários que se finge não perceber por instinto de sobrevivência.

E se a pessoa que está acima do peso for mulher, pior ainda. Com a persistente ideia de mulher objeto, uma mulher gorda é vista como sinônimo de inutilidade. Afinal, “para que serve uma mulher gorda?”. Só para zoar na balada com seus “bróder”, né? Credo.

Constata-se o óbvio: gordura não é escolha. E alguns lutam mais contra isso, outros menos.

E daí? O que você tem a ver com isso?

Alguém te julga porque você ainda não foi consultar um psicólogo para cuidar dos seus traumas de infância? Ou porque ainda não foi no dermatologista ver aquela pinta que pode ser câncer de pele? Será que você não tem problemas até mais graves do que muita “gente gorda”, mas que apenas não são tão evidentes?

Será que não tem muita “gente gorda” mais saudável e bem resolvida do que você? Será que não tem gente acima do peso com uma auto estima bem maior do que a sua? Mais seguro, mais bem disposto, mais feliz?

O fato é, com que direito as pessoas decidiram condenar os quilos alheios? E, pior, por que elas resolveram achar que chamar alguém de gordo, com ar pejorativo ou hostil não é algo grave? Não é tão asqueroso quanto discriminação por cor, orientação sexual ou gênero?

Pois é. O peso alheio não te diz respeito. O que diz respeito a todos nós é aquela ideia antiga, antiquada, talvez um pouco demodée, de respeitar os outros, ainda que sem patente alta ou bigode grosso. Se não por vontade ou generosidade, talvez por decência. Será que soa tão estranho assim?

RUTH MANUS

Do http://blogs.estadao.com.br/

Há sempre alguém que precisa de ti



O MUNDO INTEIRO está cheio de pessoas.

Há pessoas caladas que precisam de alguém para conversar.

Há pessoas tristes que precisam de alguém para confortá-las.

Há pessoas tímidas que precisam de alguém para ajudá-las a vencer a timidez.

Há pessoas sozinhas que precisam de alguém para brincar.

Há pessoas com medo, que precisam de alguém para lhes dar a mão.

Há pessoas fortes que precisam de alguém para fazê-las
pensar na melhor maneira de usarem a sua força.

Há pessoas habilidosas que precisam de alguém para ajudá-las a descobrir a melhor maneira de usarem sua habilidade.

Há pessoas apressadas que precisam de alguém para lhes
mostrar tudo o que não têm tempo para ver.

Há pessoas impulsivas que precisam de alguém para ajudá-las a não magoarem os outros.

Há pessoas que se sentem de fora e precisam de alguém
para lhes mostrar o caminho de entrada.

Há pessoas que dizem que não servem para nada e precisam de alguém para as ajudar a descobrir como são importantes. PRECISAM DE ALGUÉM, TALVEZ DE TI...

Felipe Aquino

sábado, 12 de julho de 2014

As palavras mais doídas são as não ditas


A Copa do Mundo foi um anúncio de vergonha desde o dia em que ficou decidido que seria realizada no Brasil. O vexame de 7 a 1 foi a conclusão de um processo equivocado. E foi triste. Mesmo quem, como eu, não concordava com essa Copa dessa forma, sentiu pesar pela derrota, e muitas, muitas pessoas proferiram sua revolta e raiva aos quatro cantos do estádio, das ruas, das redes sociais.
Uma infinidade de palavras e palavrões. Disseram o que queriam dizer. E será que dizer o pior é o pior que pode haver?

***

João queria pedir desculpas. Teresa queria declarar o seu amor. Luíza, desaguar os anos de mágoa. Pedro queria pedir um abraço. Joana, perdão. Lúcio queria apenas licença para ser quem era. Paulo, aprovação. Camila, explicação. Helena queria dizer que não faria de novo. Não, outra vez não. Fabrício queria um sorriso. Ana, devolução. José queria dizer obrigado. Marília só queria que soubesse que havia perdoado. Foi, deu, ficou pra trás. Cecília queria dizer não. Augusto, sim. Frederico queria dizer adeus.

Mas João não disse. Nem Teresa. Nem Luíza. Pedro. Joana. Ou Paulo. Camila. Helena. Não disse o Fabrício. Nem a Ana. O José. Marília ou Cecília. O Augusto não disse. Frederico também não.

Não disseram porque tiveram medo. Por causa da distância. Não disseram porque faltaram as palavras. Faltou a oportunidade, a força de vontade. 
Não disseram porque emudeceram, porque as línguas eram diferentes como diferentes eram os sinais. 
Não disseram porque não valeria à pena. 
Não faria a diferença. 
Porque não conseguiram. 
Porque deixaram para depois, e o depois nunca chegou.

São infinitas as razões e não razões pelas quais deixamos de dizer algo que precisávamos ter dito, gostaríamos de ter dito. Não apenas por falar. Para desatar nós e seguir adiante. 

É que o silêncio, às vezes, é menos assustador que a palavra. 
No silêncio, somos rei e senhor. Nosso domínio é soberano, porque só a nós diz respeito. 
Quebrar o silêncio é arcar com as consequências. É enfrentar. 

O silêncio não traz enfrentamento, e os riscos são poucos. Mas as alegrias também. 
Quantas pessoas passam a vida sem ter dito o que realmente queriam? 
Sem ter feito as pazes ou ter rompido o que deveria ser rompido? 
Sem dar sequência ou terminar o que deveria ser terminado? 
Um ponto final ou um ponto de partida. 
Não. As palavras não ditas são reticências.

A palavra não dita consome e esmaga. 
Dependendo daquilo que se quer dizer, o não dizer é um discurso calado, solitário e ininterrupto. É um nó que não desata. 
Um conjunto de letras e sílabas com o peso de todas as letras, todas as sílabas e todas as combinações possíveis do todos os alfabetos, porque é aquilo que não teve um fim. Ficou por ser. 

A palavra não dita é a palavra que, presa, aprisiona. Entristece. 
Não são as palavras feias as mais doídas. 
As mais doídas são as palavras não ditas.

Se você tem algo por dizer, diga. Não deixe para depois, porque o depois pode não chegar.

Do Blog Estadão

Portas


Se você abre uma porta, você pode ou não entrar em uma nova sala. Você pode não entrar e ficar observando a vida. Mas se você vence a dúvida, o temor, e entra, dá um grande passo: nesta sala vive-se ! Mas, também, tem um preço... 

São inúmeras outras portas que você descobre. Às vezes curte-se mil e uma. 
O grande segredo é saber quando e qual porta deve ser aberta. 

A vida não é rigorosa, ela propicia erros e acertos. 
Os erros podem ser transformados em acertos quando com eles se aprende. Não existe a segurança do acerto eterno. 

A vida é generosa, a cada sala que se vive, descobre-se tantas outras portas. E a vida enriquece quem se arrisca a abrir novas portas. Ela privilegia quem descobre seus segredos e generosamente oferece afortunadas portas. 

Mas a vida também pode ser dura e severa. Se você não ultrapassar a porta, terá sempre a mesma porta pela frente. É a repetição perante a criação, é a monotonia monocromática perante a multiplicidade das cores, é a estagnação da vida... 

Para a vida, as portas não são obstáculos, mas diferentes passagens!

Içami Tiba

terça-feira, 8 de julho de 2014

Permanecer vivo até o último momento


Muitas pessoas já deixaram de viver, embora continuem trabalhando, comendo, e tendo suas atividades sociais de sempre. Fazem tudo de maneira automática, sem compreender o momento mágico que cada dia traz em si, sem parar para pensar no milagre da vida, sem entender que o próximo minuto pode ser o seu último momento na face deste planeta.

Um dia, apesar de todo o avanço da ciência, deixaremos este mundo, e teremos um funeral. 

Recordando trechos de uma poema antigo:

Quando a indesejada das gentes chegar

Talvez eu tenha medo. Talvez eu sorria e diga:

O meu dia foi bom, a noite pode descer.

Encontrará lavrado o campo, a mesa posta, a casa limpa, cada coisa em seu lugar.

Assim, se tivermos que morrer hoje, apesar de tudo o que tenha ocorrido em nossas vidas, apesar das derrotas, das injustiças que sofremos ou que fizermos alguém sofrer, temos que permanecer vivos até o último minuto, e certamente afirmar: “o meu dia foi bom, a noite pode descer.”

por Paulo Coelho

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Xô, Rainha Vermelha!

“Nós nos tornamos máquinas de trabalhar e estamos transformando nossas crianças em máquinas de aprender”. Augusto Cury, médico psiquiatra e escritor



Vocês se lembram da história Alice no país das maravilhas?

Hão de estar lembrados da rainha vermelha. Foi ela que tomou Alice pela mão e a arrastou a toda velocidade pelo mundo encantado do fundo do espelho, gritando: “Depressa! Depressa! Não tente falar! Depressa!” Era um excelente personagem imaginário e muito divertido para crianças que há anos leram a história.

Sou capaz de apostar que as crianças de hoje não a consideram tão engraçada nem tão imaginária. É que a rainha vermelha saiu das páginas de ficção e transmitiu seus hábitos a pais e mães em toda parte. Se conseguirmos parar um instante para refletir, veremos que a tendência em relação aos nossos filhos é a de torná-los adultos o mais rápido possível. Ou ainda: transformá-los em máquinas de aprender.

Hoje em dia os pais pensam que depois da escola é preciso haver um complemento enriquecedor sob a forma de aulas de inglês, natação, balé, academia, aulas particulares, caratê, religião...

Curioso também é notar que paralelamente a esses procedimentos cresce o número de psicólogos que estão atendendo crianças em seus consultórios. A criança já está indo para o divã da terapia em lugar de passar tardes sob uma mangueira ouvindo bem-te-vis e imaginando figuras nos contornos das nuvens.

“Isto é coisa do passado!”, diria o leitor, “não leva a nada no futuro”, completaria ele. Mas as gerações nascidas nos anos 50 e 60 já provaram que uma infância mais próxima do parcimonioso ócio junto à natureza conseguiu levar homens a cargos de alta relevância nas empresas, nas indústrias, na política, na economia, nas artes, na cultura em geral. A pressa e o acúmulo de atividades não são sinônimos de formação precoce para o sucesso. Triste ainda é ver que os olhos de tantas crianças bem nutridas estão fixos não na natureza, não nos livros, mas na tela hipnotizadora da Internet, sob quaisquer aparelhos, do simples computador ao WhatsApp.

A verdade é que as crianças não são mais chamadas “crianças”. São todas “pré” alguma coisa. Mal o bebê sai do seu cercadinho, está em idade pré-escolar; quando chega à idade escolar, nós o agarramos pelo braço e o consideramos pré-adolescente. Quando chega à adolescência, tendo de enfrentar os problemas complexos dessa época, continuamos a impedir que ele siga o ritmo natural da vida e dizemos que ele já é um jovem adulto.

“Estamos quase chegando”, conseguiu Alice arquejar finalmente. “Quase chegando?”, repetiu a rainha vermelha, “Ora, já passamos por lá há 10 minutos. Depressa, depressa, vamos mais rápido!”

Parece ser comum os pais dizerem algo parecido a “Se você não conseguir notas melhores, nunca chegará à faculdade. E se não entrar para a faculdade, nunca chegará a ter um emprego bem remunerado!” E lá vai o menino com a pressão do mundo adulto sobre os ombros: “Depressa! Depressa! Você tem de vencer. Seja esperto! Não se deixe ficar para trás. Corra! Corra! Depressa!”

Não condeno em hipótese alguma pais nortearem a vida de seus filhos pela responsabilidade para com suas funções escolares, a cortesia, a educação social, o respeito às instituições... Ressalto de forma convicta que o acúmulo de atividades (muito além da capacidade natural de absorção da criança) mais a exigência do compromisso com o êxito, com margem mínima de erro, não pode ser considerado formação ideal e saudável. Nem eficaz: basta exemplificar com o número assustador de jovens japoneses que se suicidam por não serem aprovados nos exames introdutórios aos cursos superiores. É muita pressão.

Já é tempo de examinarmos os nossos próprios atos em relação às crianças e adolescentes. Penso nos filhos: é preciso abraçá-los, protegê-los, acolhê-los, tirá-los o quanto antes das mãos da rainha vermelha. Se uma língua estrangeira é vital na época de hoje, que ela seja estudada de forma pontual e sensata, mas nunca concomitantemente com dez ou doze outras tarefas, de modo a não permitir à criança, ao adolescente, ao jovem o contato consigo mesmo e com a própria vida.

Comecemos a insistir para que as crianças sejam crianças e façamos a rainha vermelha voltar ao livro de histórias, de onde ela nunca deveria ter saído.

PS: meu prezado leitor - confesso que o título deste artigo encimava um texto de teor político; a rainha vermelha representava nossa presidente, cujo partido se tinge da mesma cor. Havia coerência entre a pressa na história de ficção e a pressa em entupir, por um exemplo, salas de aula de cursos superiores com alunos bolsistas, sem o mérito da capacidade e o desprezo pela excelência no ensino e na pesquisa. Optei pela criança, pois é mais fácil endireitar o broto que o galho velho, retorcido.

Do Jornal Comércio da Franca
Everton de Paula, acadêmico e editor

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Deus e a beleza


Uma velhinha de voz trêmula e pele cheia de rugas pediu “Mestre, fale-nos sobre Deus...”
Mestre Benjamin fez silêncio. Olhou para o vazio. Vagarosamente um sorriso foi-se abrindo.
“Quantas pessoas aqui na minha tenda estão pensando no ar? ‘Por favor, levantem uma mão...’
Ninguém levantou a mão.
‘Ninguém levantou a mão... Ninguém está pensando no ar. E, no entanto, todos nós o estamos respirando.

O ar é a nossa vida e não precisamos pensar nele e nem dizer o seu nome para que ele nos dê vida. 
Mas o homem que se afoga do fundo das águas só pensa no ar. Deus é assim. 
Não é preciso pensar nele e pronunciar o seu nome. Ao contrário, quando se pensa nele o tempo todo é porque está se afogando...

Que desejamos para os nossos filhos? Que eles sejam felizes. 
Sorrimos ao vê-los por ai a correr, a pular, a cantar, a brincar, pensando nas coisas de criança. Mas enquanto brincam e riem eles não pensam em nós. 

Se um filho ao se levantar viesse até você e o elogiasse, e agradecesse porque você lhe deu a vida e jurasse amor para sempre, e fizesse a mesma coisa na hora do almoço, e repetisse os mesmos gestos e palavras ao meio da tarde, e de noite fizesse tudo de novo, suspeitaríamos de que alguma coisa não está bem.
O que desejamos é que eles gozem a vida sem pensar em nós.
Quem pensa demais e fala demais sobre Deus é porque não o está respirando.”

Fez-se silêncio. Foi quando uma lufada de vento entrou pela tenda fazendo balançar a lâmpada de óleo que pendia do teto.

“Deus é como o vento. Sentimos na pele quando ele passa, ouvimos a sua música nas folhas das árvores e o seu assobio nas gretas das portas.
Mas não sabemos de onde vem e nem para onde vai.
Na flauta o vento se transforma em melodia. Mas não é possível engarrafá-lo. Mas as religiões tentam engarrafá-lo em lugares fechados a que eles dão o nome de ‘casa de Deus’. Mas se Deus mora numa casa estará ele ausente do resto do mundo? Vento engarrafado não sopra... ”

Ouviu-se então o pio distante de uma coruja.
“Deus é como um pássaro encantado que nunca se vê. Só se ouve o seu canto...
Deus é uma suspeita do nosso coração de que o universo tem um coração que pulsa como o nosso. 
Suspeita... Nenhuma certeza. Fujam dos que têm certezas. Olhem bem: eles trazem gaiolas nas suas mãos.
Deus nos deu asas.

Tudo o que vive é pulsação do sagrado. As aves dos céus, os lírios dos campos... Até o mais insignificante grilo, no seu cricri rítmico, é uma música do Grande Mistério.

É preciso esquecer os nomes de Deus que as religiões inventaram para encontrá-lo sem nome no assombro da vida.
Reverência pela vida: é a forma mais alta de oração. Sem nome... O nome de Deus não pode ser pronunciado...
Não precisamos dizer o nome ‘rosa’ para sentir o seu perfume.
Não precisamos dizer o nome ‘mel’ para sentir a sua doçura.
Muitas pessoas que jamais pronunciam o nome de Deus o conhecem como reverência pela vida.

Há pessoas que se sentem religiosas por acreditar em Deus. De que vale isso? Os demônios também acreditam e estremecem ao ouvir o seu nome ( Tiago 2.19 ). 

A pergunta não deveria ser ‘Você acredita em Deus?’ mas ‘Você se comove com a beleza?’ Deus nunca foi visto por ninguém. Ele se mostra na experiência da beleza.

Os homens religiosos procuram Deus no invisível e no mundo após a morte. Quando alguém morre eles repetem como consolo: ‘Deus o levou para si’. Então, enquanto vivo, ele estava distante de Deus?
Deus é Deus dos mortos ou Deus dos vivos? Deus não mora no mundo dos mortos. Ele mora no nosso mundo, passeia pelo jardim.
Deus é beleza. E se ele ama o que é feio é só para torná-lo belo... Por isso ele ama os desertos: porque neles se escondem fontes...

Quer ver Deus? Veja a beleza do sol que se põe, sem pensar em Deus.
Quer ouvir Deus? Entregue-se à beleza da música, sem pensar em Deus.
Quer sentir o cheiro de Deus? Respire fundo o cheiro do jasmim, sem pensar em Deus.
Quer saber como é o coração de Deus? Empurre uma criança num balanço, porque Deus tem um coração de criança, sem pensar em Deus.

Ouvidas essas palavras a velhinha sorriu para o Mestre Benjamin e fez um gesto com a sua mão, abençoando-o.

Rubem Alves

Eu gostaria de dar um conselho:
‘Não sejam curiosos a respeito de Deus, pois eu sou curioso sobre todas as coisas e não sou curioso a respeito de Deus. Não há palavra capaz de dizer quando eu me sinto em paz perante Deus e a morte. Escuto e vejo Deus em todos os objetos, embora de Deus eu não entenda nem um pouquinho... Eu vejo Deus em cada uma das vinte quatro horas e em cada instante de cada uma delas, nos rostos dos homens e das mulheres eu vejo Deus...’ (Walt Whitman)
‘Sejamos simples e calmos como os regatos e as árvores, e Deus amar-nos-á fazendo de nós belos como as árvores e os regatos, e dar-nos-á verdor na sua primavera e um rio aonde ir ter quando acabemos.’ (Alberto Caeiro )”

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Crie árvores, seja amigo!


Uma das coisas que eu acho fascinante em Jesus, é a capacidade que ele tinha de encontrar no meio da multidão, pessoas.

Ele era capaz de reconhecer em cima de uma árvore um homem, e descobrir nele um amigo.
Bonito uma amizade que nasce a partir da precariedade, quando você chega desprevenido, o outro viu o que você tem de pior, e mesmo assim, ele se apaixonou por você. Amor concreto, cotidiano, diário.
Jesus se apaixonava assim pelas pessoas e as tornava suas amigas. As trazia para perto Dele.
É fascinante olhar para a capacidade que esse homem, que esse Deus tem, de investigar a miséria do outro e encontrar a pedra preciosa que está escondida. Isso é Páscoa, isso é ressurreição. 
É quando no sepulcro do nosso coração, alguém descobre um fio de vida, e ao puxar esse fio, vai fazendo com que a gente se torne melhor.
Não há nada mais bonito do que você ser achado quando você está perdido.
Não há nada mais bonito do que você ser encontrado, no momento que você não sabe para onde ir e não sabe nem onde está...
O amor humano tem a capacidade de ser o amor de Deus na nossa vida por causa disso: porque ele nos elege!
Por isso que é bom termos amigos, porque na verdade, as pessoas amigas antecipam no tempo, aquilo que acreditamos ser eterno...
Quando elas são capazes de olhar para nós e descobrir o que temos de bonito. Mesmo que isso, as vezes costuma ficar escondido por trás daquilo que é precário.
Por isso, agradeço muito a Deus pelos amigos que tenho. 
Pelas pessoas que descobriram no que eu tenho de pior, uma coisinha que eu tenho de bom, e mesmo assim continuam ao meu lado, me ajudando a ser gente, me ajudando a ser mais de Deus, ajudando a buscar dentro de mim, a essência boa que acreditamos que Deus colocou em cada um de nós.

Ter amigos, é como arvorear: lançar galhos, lançar raízes... 
Para que o outro quando olhar a árvore, saiba que nós estamos ali...
Que nós permanecemos para fazer sombra, para trazer ao outro, um pouco de aconchego que ás vezes ele precisa na vida...

ARVOREIE! CRIE ÁRVORES! SEJA AMIGO

Padre Fábio de Mello

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Que Mundo Maravilhoso

                              

Eu vejo as árvores verdes, rosas vermelhas também;
Eu as vejo florescer para mim e você;
E eu penso comigo... que mundo maravilhoso.

Eu vejo os céus tão azuis e as nuvens tão brancas;
O brilho abençoado do dia, e a escuridão sagrada da noite;
E eu penso comigo... que mundo maravilhoso.

As cores do arco-íris, tão bonitas no céu;
Estão também nos rostos das pessoas que se vão;
Vejo amigos apertando as mãos, dizendo: "como você vai?"
Eles realmente dizem: "eu te amo!"

Eu ouço bebês chorando, eu os vejo crescer;
Eles aprenderão muito mais que eu jamais saberei;
E eu penso comigo... que mundo maravilhoso.

Sim, eu penso comigo... que mundo maravilhoso!

Original - Inglês: David Attenborough


What a Wonderful World
I see trees of green, red roses too;
I see them bloom for me and you;
And I think to myself, what a wonderful world.

I see skies so blue and clouds of white;
The bright blessed days, the dark sacred night;
And I think to myself, what a wonderful world.

The colors of the rainbow, so pretty in the sky;
Are also on the faces of people going by;
I see friends shaking hands, saying, "how do you do?"
They're really saying, "I love you!"

I hear babies cry, I watch them grow;
They'll learn much more, than I'll never know;
And I think to myself, what a wonderful world.

Yes, I think to myself, what a wonderful world!



sábado, 7 de junho de 2014

A árvore torta


Nos conta a lenda, que um dia diante da velha árvore torta, um pinheiro todo vergado pelo tempo, o sábio da aldeia ofereceu a sua própria casa para aquele discípulo que “conseguisse ver o pinheiro na posição correta”.

Todos se aproximaram e ficaram pensando na possibilidade de ganhar a casa e o prestígio, mas como seria “enxergar o pinheiro na posição correta”? O mesmo era tão torto que a pessoa candidata ao prêmio teria que ser no mínimo contorcionista.

Ninguém ganhou o prêmio e o velho sábio explicou ao povo ansioso, que ver aquela árvore em sua posição correta era “vê-la como uma árvore torta”.

Nós temos em nós, esse jeito, essa mania de querer “consertar as coisas, as pessoas, e tudo mais” de acordo com a nossa visão pessoal. Não que não tenhamos que evoluir e construir nossa evolução e corrigir erros em nosso contexto. Falo de ver as coisas de nosso único ângulo.

Quando olhamos para uma árvore torta é extremamente importante enxergá-la como árvore torta, sem querer endireitá-la, pois é assim que ela é. Se você tentar “endireitar” a velha árvore torta, ela vai rachar e morrer, por isso é fundamental aceitá-la como ela é.

Nos relacionamentos, é comum um criar no outro expectativas próprias, esperar que o outro faça aquilo que ele “sonha” e não o que o outro pode oferecer. Sofremos antecipadamente por criarmos expectativas que não estão ao alcance dos outros, porque temos essa visão de “consertar” o que achamos errado.

Se tentássemos enxergar as coisas como elas realmente são, muito sofrimento seria poupado.

Os pais sofreriam menos com os seus filhos, pois os conhecendo, não colocariam expectativas que são suas, na vida dos mesmos, gerando crianças doentes, frustradas, rebeldes e até vazias.

Tente, pelo menos tente, ver as pessoas como elas realmente são, pare de imaginar como elas deveriam ser, ou tentar consertá-las da maneira que você acha melhor. O torto pode ser a melhor forma de uma árvore crescer.

Não crie mais dificuldades no seu relacionamento. Se vemos as coisas como elas são muitas dos nossos problemas deixam de existir, sem mágoas, sem brigas, sem ressentimentos.

Perdemos muito tempo em nossa vida com pequenas coisas, com críticas vazias, lamentando o leite já derramado, sem entender que este tempo não voltará para nós, é um tempo jogado fora. Neste ínterim muitas outras coisas aconteceram ao nosso redor e nós deixamos passar: o nosso sorriso, a atenção com a nossa família, a partilha da alegria com os nossos amigos, a nossa atitude positiva diante da vida…

Ficamos sem forças para rezar, nos distanciamos de Deus e de nós mesmos, muitas vezes nos tornamos um templo vazio e abandonado… Tudo isso por tentarmos DESENTORTAR pessoas.

A vida passa muito rápido para tantas oportunidades jogadas fora. Vivamos intensamente com positividade!

O tempo passa. A vida acontece. As distâncias separam, mas não fazem esquecer o que realmente sentimos, pois não há distância capaz de superar os sentimentos.

Às vezes, vivemos amargurados, querendo que nossa opinião prevaleça. Implicamos com tudo e com todos. Só nos satisfazemos se tudo ocorrer exclusivamente de acordo com nossa vontade. E então nos tornamos egoístas, pequenos, e vemos todos como árvores tortas. Nos tornamos também diabéticos, pois como nos diz o poeta Mário Quintana, diabético é aquele que não consegue ser doce.

Que possamos, tortos ou não, darmos frutos doces, sombras frondosas, termos raízes fincadas em valores firmes, que mesmo o maior vendaval não tire o nosso chão. Que nossos galhos e folhas sejam flexíveis e estejam, acima de tudo, buscando sempre a luz do sol que aquece o nosso coração, e ao anoitecer, a lua com seus mistérios, nos encha a alma de paixão.

Há um tempo, como nos diz Fernando Pessoa, em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.

Olhe para você mesmo com os “olhos de ver” e enxergue as possibilidades, as coisas que você ainda pode fazer e não fez. Pode ser que a sua árvore seja torta aos olhos das outras pessoas, mas pode ser a mais frutífera, a mais bonita, a mais doce, a mais perfumada da região, e isso, não depende de mais ninguém para acontecer, depende só de você.

Beth Landim


sexta-feira, 6 de junho de 2014

A Inutilidade e o Verdadeiro Amor…

Nos diz Padre Fábio de Melo, sobre a velhice… do seu DVD “No meu interior tem Deus”,
( não deixe de ver e principalmente de ouvir com o “coração”). 

“… A velhice nos trás direitos maravilhosos. Enquanto a juventude é cheia de obrigações. 
A velhice é o tempo em que passa a utilidade e aí fica somente o significado da pessoa. 
É o momento que a gente se purifica. 
É o momento que a gente vai tendo a oportunidade de saber quem nos ama de verdade. Porque só nos ama pra ficar até o fim aquele que, depois da nossa utilidade, descobriu o nosso significado. É por isso que sempre rezo para envelhecer ao lado de quem me ama. 

Para poder ter a tranqüilidade de não ser útil, mas ao mesmo tempo não perder o valor. 
Se você quiser saber se alguém te ama de verdade, é só identificar se ele seria capaz de tolerar a sua inutilidade. 

Quer saber se você ama alguém? Pergunte a si mesmo, quem nesta vida que pode ficar inútil pra você sem que você sinta o desejo de jogá-lo fora. E é assim que nós descobrimos o significado do amor… 
Só o amor nos dá condições de cuidar do outro até o fim! Feliz daquele que tem ao fim da vida a graça de ser olhado nos olhos, e ouvir a fala que diz: – Você não serve pra nada, mas eu não sei viver sem você!”

O que falta muitas vezes para poder resolver os nossos problemas é a simplicidade em enxergá-los. Devemos retirar os excessos. 
Não permitir que os nossos excessos venham obscurecer a nossa visão, ou até mesmo de nos impedir de encaminhar uma solução para aquilo que nos faz sofrer. Isso é ter fé. 
É a gente acreditar que Deus está ao nosso lado no momento da nossa luta, no momento da nossa dor. E que, portanto, a gente tem o direito de ser simples.

É interessante observar os movimentos de nossas mudanças interiores. Nem sempre sabemos identificar o nascimento da inadequação que gera todo o processo. O fato é que um dia a gente acorda e percebe que a roupa não nos serve mais. Como se no curto espaço do descanso de uma noite a alma sofresse dilatação, deixando de caber no espaço antigo onde antes tão bem se acomodava. É inevitável. Mais cedo ou mais tarde, os sonhos da juventude perdem o viço. O que antes nos causava gozo, aos poucos, bem ao poucos deixa de causar. Nossos valores vão se tornando mais consistentes.

Mas não precisamos necessariamente chegar à velhice extrema, para entendermos o sentido da inutilidade que leva ao amor… Perder tempo, gastar tempo, ou melhor dizendo “Ter a utilidade do seu tempo” para as coisas que nos levam aos verdadeiros sentimentos… 
Se permitir “jogar conversa fora” com seus filhos, seus amigos, fazer piqueniques e voltar a ser criança, andar na chuva, sentir o cheiro da terra molhada, passear na praça, na praia, no bosque… 
sentir a liberdade do rosto te acariciando a pele… 
jogar frescobol, voleibol, “buraco”, seja o que for, apenas com o intuito de reunir os amigos, e a família… 

Assim como faziam os homens das cavernas. Acendiam a fogueira e ao seu redor conversavam, conversavam e conversavam… e assim os laços iam se tecendo, os abraços se alongavam e a vida mesmo na rusticidade daqueles tempos, era aconchegante!!! 

Tempo… sempre o tempo do Senhor a nos ensinar… 
Assim como na história de Alice no País das Maravilhas em que seu coelho, corria com o relógio pendurado atrás do tempo… Estamos hoje nós a fazer o mesmo… 

Que o tempo da inutilidade amorosa, possa ser constante no tempo de nossa utilidade existencial. 
Que a simplicidade faça morada em nossos corações, atitudes e sentimentos. E que nossos sentimentos estejam sempre no ritmo e no compasso do “amor inútil” aquele que traz pleno significado. 

Que saibamos respeitar a dor de cada hora, a esperança de cada momento, sendo ao mesmo tempo de Aço e de Flores… 
Que possamos sentir a esperança brotar de cada coração, nos fazendo pessoas melhores, menos complicadas, de aço, para enfrentar os desafios, mas sem perder a doçura de ser simplesmente humano… 

Um tempo para nos purificar… Primeiro consigo mesmo, pois muitas vezes somos nosso maior carrasco e depois com todas as pessoas que nos cercam. 
É essa sensibilidade de enxergar cada tempo com sabedoria, que nos levará a conhecer o significado do amor…

http://fmanha.com.br/

terça-feira, 3 de junho de 2014

Tédio


Infinidade de papéis
Espalhados sobre a minha mesa.
Palavras.
Verdades.

Meus poetas, uma Bíblia.
O Livro dos Espíritos.
Uma biografia do Raulzito.
Apontamentos de uma palestra.

Fazendo sombra a todos eles
eu, meu tédio
e a palavra engasgada.

Pela janela, o céu indiferente.
O cafezal cansado me espia.

A seca. O vento.

Todos os papéis se agitam de repente,
pela ação da brisa que entra.
Todos menos a Bíblia e um recorte 
com oração de Santa Rita de Cássia.

O sagrado não se mexe.
No sagrado não se mexe!

Mas urge mexer
Na baderna da minha mesa
e no caos da minha vida.

Olho pela janela novamente.
antes que minha vista alcance o cafezal
a roseira me oferece pétalas ressequidas.

Na cozinha, toca o telefone.
Vou voando atender.
“Alguém lembrou-se de mim nesse deserto!”

Era engano. Mais um.

A vida, às vezes, parece um longo engano.

Ronaldo Silva - Nossas Letras

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Presente de mãe


Ela se lembra daquele dia à saída do hospital. A enfermeira trazendo-lhe um serzinho enrolado como um charuto no fofo cobertorzinho com vira-manta bordada: “Toma, agora é você quem cuida! Boa sorte!”.

A moça, inocente de vida, nada para oferecer, pegou nos braços o recém-nascido. Sentiu-se flutuar! Não sabia se por felicidade genuína ou se por efeito do enorme senso de responsabilidade que a invadia, tudo acompanhado de descomunal sentimento de confusa impotência! Medo!!!

Tremeu! Apertou suavemente o bebê ao peito, contemplou–lhe o rostinho, as mãozinhas sempre próximas do queixo tentando escaparem-se do agasalho, como que já tateando o mundo... Sorriu-lhe. E ela, ao erguer a face para despedir-se da enfermeira, viu que de dentro de si erguia-se também outro ser. Era uma loba, uma tigresa, uma leoa?! A Mulher!

Ela dava à luz um filho, e o filho dava a ela todo o Universo!


Inerita Alcantara - Nossas Letras

O vazio existencial


Quem acordou um dia com um oco no peito, sentindo-se coisa e não gente?

- De repente, um enfaro, nada apaixona, nada faz mover um fio de cabelo?

- No raio de um instante, o desejo de sumir no mundo, repugnância pelo que vê, toca, ouve, fala; enjoo da própria rotina, vista, assim, sem sentido?

- Nauseado, a vomitar as vísceras vorazes de “mais e mais” sensações que, no andamento, lhe parecem bestas, inúteis, vãs?

- No triz de uma madrugada, pergunta-se: o que faz, fez, fará aqui, agora, com o que escolheu, batalhou, alcançou em parte, ou...?

- No átimo de um milionésimo segundo, se vê em um carnaval fora de hora, todos lhe parecem emborrachados de felicidades compradas ou falseadas. Para, abismado, olhos vítreos, se sente um ET, alienígena da grotesca coreografia de “família Doriana”, de “adolescência eterna”, de “politicamente correto”, etc. e tal?

Quem não?

Sensações passageiras, que nomeamos como tédio, desesperança, desespero, angústia. Realista para uns, pessimista para outros, alguns nomeiam “isso” de lucidez. Lucidez estranha, um facho de escuridão como disse Freud, para enxergar o que não emerge quando sob holofote.

Falta de sentido, falta de significado do vivido no passado e do que se vive no presente, mas também para o por vir, subjuntiva e futura mente: um vácuo, um oco, o vazio, o nada.

Alguns veem a incompletude e a vizinhança da morte. Outros descrevem o cavo do “nada”, sem possível preenchimento. Certezas em ruínas: uma Pompeia interior.

Outros ainda, aterrados, sentem-se fantasmas deambulantes do que pensam ser, não sentem que têm uma existência real, substantiva, na base do “eu sou”, ou melhor, do “eu é”. O eu existe para o outro, para o mundo? Apagar o passado e o futuro é Pompeia, sem o museu a declarar que existiu Pompeia.

Preencher esse vazio com coisas concretas ou com projetos (vá lá, uma abstração) é desviar da capacidade de se sentir já, aqui. É preciso não ser analfabeto emocional, ou não ser alfabetizado funcionalmente apenas nas emoções. Se não conseguir relacionar emoção/situação/experiência, não terá consciência do diagnóstico, do tal vazio existencial.

Se esse raio cai muitas vezes no mesmo lugar, atenção, está na hora de sintonizar consigo mesmo.

A oficina está do lado de dentro de você.

Maria Luiza Salomão - Nossa Letras

terça-feira, 20 de maio de 2014

Os Estatutos do Homem

Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)


Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.

Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.

O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.

Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.

Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre

o coração do homem.

Santiago do Chile, abril de 1964

Thiago de Mello nasceu na cidade de Barreirinha, no coração do Amazonas, no dia 30 de março de 1926. Em Manaus, capital do Estado, fez seus primeiros estudos. No Rio de Janeiro, cursou a Faculdade de Medicina até o quarto ano, mas acabou optando por deixar os estudos médicos e dedicar-se à poesia. Ficou conhecido internacionalmente por sua luta em prol dos direitos humanos, pela ecologia e pela paz mundial, o autor foi perseguido pela ditadura militar implantada no Brasil em 1964. Foi obrigado a deixar o nosso país, tendo se exilado no Chile onde produziu grande parte de sua obra.

do blog Educar faz a diferença

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Capacidade de amar


Uma das características da infância é a incapacidade de dividir coisas. Uma criança não pode dividir porque não se possui, porque ainda não sabe o que ela é. Você começa a identificar a maturidade a partir do momento em que uma criança consegue perceber as regras de um joguinho.

A maturidade faz parte de um processo. Em um processo não podemos queimar etapas. Ele é lento, chato e demorado.

Não nascemos amando, pelo contrário, queremos ter a posse dos outros. Essa é a forma de amar da criança, pois ela não consegue pensar de maneira diferente. Ela não consegue entender que o outro não é ela. Quantas pessoas, já adultas, ainda pensam assim, trata-se da incapacidade de amar devido à falta de maturidade.

Na maturidade de Jesus você encontra a capacidade imensa de amar o outro como ele é. 
Amar significa amar o outro como ele é. Por isso quando falamos em amar os outros podemos perceber o quanto deixamos de ser crianças. Devemos nos questionar a todo o momento com relação à nossa maturidade.

Pessoas imaturas sofrem dobrado. Pessoas imaturas querem modificar os fatos; ao passo que pessoas maduras deixam que os fatos as modifiquem. 
A maturidade nos faz perceber que não podemos mudar os fatos. Um imaturo ganha um limão e o chupa fazendo careta. O maduro faz uma limonada com o limão que ganhou.

Muitas vezes, os nossos relacionamentos de amizade são uns fracassos porque somos imaturos. 
Amigos não são o que imaginamos, mas o que eles são e com todos os defeitos. Amizade é processo de maturidade que nos leva ao verdadeiro encontro com as pessoas que estão ao nosso lado. Elas têm todos os defeitos, mas fazem parte da nossa vida e não as trocamos por nada deste mundo. Isso porque temos alma de cristão e aquele que tem alma de cristão não tem medo dos defeitos dos outros, porque sabemos que esses defeitos não serão espelhos para nós; mas seremos instrumentos de Deus para que os superem.

Padre só pode ser padre a partir do momento em que é apaixonado pelos calvários da humanidade. 
Se você não consegue lidar com os limites dos outros, é porque você não consegue lidar com os seus limites. A rejeição é um processo de ver-se.

Toda vez que eu quero buscar no outro o que me falta, eu o torno um objeto. Eu posso até admirar no outro o que eu não tenho em mim, mas eu não tenho o direito de fazer dele uma representação daquilo que me falta. Isso não é amor, isso é coisa de criança!

O anonimato é um perigo para nós. É sempre bom que estejamos com pessoas que saibam quem somos nós e que decisões nós tomamos na vida. É sempre bom estarmos em um lugar que nos proteja.

Amar alguém é viver o exercício constante de não querer fazer do outro o que nós gostaríamos que ele fosse. A experiência de amar e ser amado é, acima de tudo, a experiência do respeito.

Como está a nossa capacidade de amar? 
Uma coisa é amar por necessidade e outra é amar por valor. Amar por necessidade é querer sempre que o outro seja o que você quer. Amar por valor é amar o outro como ele é quando ele não tem mais nada a oferecer, quando ele é um inútil e, por isso, você o ama tanto. Na hora em que forem embora as suas utilidades você saberá o quanto é amado.

Tudo vai ser perdido, só espero que você não se perca. Enquanto você não se perder de si mesmo você será amado, pois o que você é significa muito mais do que você faz.

O convite da vida cristã é este: que você possa ser mais do que você faz!

Pe. Fábio de Melo

quarta-feira, 14 de maio de 2014

A paciência tudo alcança


“Respira. Serás mãe por toda a vida. 
Ensine as coisas importantes. As de verdade. 
A pular poças de água, a observar os bichinhos, a dar beijos de borboleta e abraços bem fortes. 

Não se esqueça desses abraços e não os negue nunca. 
Pode ser que daqui a alguns anos, os abraços que você sinta falta, sejam aqueles que você não deu. 
Diga ao seu filho o quanto você o ama, sempre que pensar nisso. 
Deixe ele imaginar. Imagine com ele. 

As paredes podem ser pintadas de novo, as coisas quebram e são substituídas. 
Os gritos da mãe ficam. Muitas vezes você pode lavar os pratos mais tarde. 
Enquanto você limpa, ele cresce. Ele não precisa de tantos brinquedos. 

Trabalhe menos e ame mais. 

Menos presente e mais presença! E, acima de tudo, respira. 

Serás mãe por toda a vida. Ele será criança só uma vez.” 

(Autor desconhecido)

Li esta mensagem no facebook e gostaria de partilhar com vocês e de destacar o que mais me tocou.


Não devemos perder as oportunidades incríveis nesta fase de infância de nossos filhos. 
Às vezes nos distraímos demais com coisas não importantes! 

Para o autor desconhecido, importante é fazer coisas junto de nossos filhos, brincando, apreciando os momentos, vivendo com atenção às belezas de nossa volta. Já repararam como as criancinhas são acometidas de surpresa e exaltação diante do belo, ainda que este belo seja uma simples formiguinha carregando uma folha? 
Simplicidade diante da vida nos faz mais parecidos com esses pequeninos, que olham o mundo de um jeito todo especial. 
Também é muito importante ensinar a abraçar, a demonstrar afetos, a valorizar o sentimento que sentimos uns pelos outros. E mais, para quem é cristão, ensinar a amar é um mandamento! Também o amor precisa de “exercício” – abraços, beijos que revelem o que a alma sente. 
Se não ensinamos nossos filhos a expressarem e a receberem amor, quem é que vai ensinar?!

“As paredes podem ser pintadas de novo, as coisas quebram e são substituídas. Os gritos da mãe ficam.” 
É claro que queremos uma casa arrumada, limpa, com enfeites etc. Mas isso não pode virar escravidão! 

O fato de haver criança em uma casa significa sujeira, bagunça e vasos quebrados de vez em quando… 

“A paciência tudo alcança” – dizia St. Teresa de Ávila – nos ensinando que, com paciência, tudo vai sendo construído e reconstruído. 
Como mães, precisamos de muita paciência! 

Lembro-me de um padre me aconselhando neste sentido. Na época, ele me perguntou quantos anos tinham meus filhos, para, em seguida, dizer: “você vai precisar de muita paciência…” 

Ah, os nossos gritos… como ressoam nos ouvidos indefesos dos pequenos. 
É preciso autocontrole que vem da virtude da paciência. E, com paciência, tudo caminha melhor. 

“Respira. Serás mãe por toda a vida.” De fato, respirar ajuda – e muito – a ter paciência. 
É engraçado que precisamos ser lembradas de que temos que respirar (parece absurdo já que respiramos involuntariamente para sobreviver…). 
É que “respirar” aqui tem um sentido: enquanto inspiramos devagar e, em seguida, conscientemente expiramos devagar, nosso coração se lembra do que é relevante nesta vida e de que não vale a pena estressar-se por coisas pequenas e passageiras.

Que riqueza tão grande são nossos filhos! 
Que oportunidade de crescimento e amadurecimento temos pelo fato de sermos mães – afinal é também por isso que os filhos estão aí, não? 

Aprendamos, pois, a curtir a infância, não deixando que o tempo passe rápido demais a ponto de não apreciarmos os encantos desta fase…

Santa Teresa d’Ávila, rogai por nós!

Cristiane
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sábado, 10 de maio de 2014

A canção de qualquer mãe

Filhos!

Que nossa vida, meus filhos, tecida de encontros e desencontros, como a de todo mundo, tenha por baixo um rio de águas generosas, um entendimento acima das palavras e um afeto além dos gestos – algo que só pode nascer entre nós.

Que quando eu me aproxime, meu filho, você não se encolha nem um milímetro com medo de voltar a ser menino, você que já é um homem.

Que quando eu a olhe, minha filha, você não se sinta criticada ou avaliada, mas simplesmente adorada, como desde o primeiro instante.

Que, quando se lembrarem de sua infância, não recordem os dias difíceis (vocês nem sabiam), o trabalho cansativo, a saúde não tão boa, o casamento numa pequena ou grande crise, os nervos à flor da pele – aqueles dias em que, até hoje arrependida, dei um tapa que ainda agora dói em mim, ou disse uma palavra injusta.

Lembrem-se dos deliciosos momentos em família, das risadas, das histórias na hora de dormir, do bolo que embatumou, mas que vocês, pequenos, comeram dizendo que estava maravilhoso.

Que pensando em sua adolescência não recordem minhas distrações, minhas imperfeições e impropriedades, mas as caminhadas pela praia, o sorvete na esquina, a lição de casa na mesa de jantar, a sensação de aconchego, sentados na sala cada um com sua ocupação.

Que quando precisarem de mim, meus filhos, vocês nunca hesitem em chamar: mãe!

Seja para prender um botão de camisa, ficar com uma criança, segurar a mão, tentar fazer baixar a febre, socorrer com qualquer tipo de recurso, ou apenas escutar alguma queixa ou preocupação.

Não é preciso constrangerem-se de ser filhos querendo mãe, só porque vocês também já estão grisalhos, ou com filhos crescidos, com suas alegrias e dores, como eu tenho e tive as minhas.

Que, independendo da hora e do lugar, a gente se sinta bem pensando no outro. Que essa consciência faça expandir-se a vida e o coração, na certeza de que aquela pessoa, seja onde for, vai saber entender; o que não entender vai absorver; e o que não absorver vai enfeitar e tornar bom.

Que quando nos afastarmos isso seja sem dilaceramento, ainda que com passageira tristeza, porque todos devem seguir seu caminho, mesmo que isso signifique alguma distância: e que todo reencontro seja de grandes abraços e boas risadas. Esse é um tipo de amor que independe de presença e tempo.

Que quando estivermos juntos vocês encarem com algum bom humor e muita naturalidade se houver raízes grisalhas no meu cabelo, se eu começar a repetir histórias, e se tantas vezes só de olhar para vocês meus olhos se encherem de lágrimas: serão apenas de alegria porque vocês estão aí.

Que quando pareço mais cansada vocês não tenham receio de que eu precise de mais ajuda do que vocês podem me dar: provavelmente não precisarei de mais apoio do que do seu carinho, da sua atenção natural e jamais forçada. E, se precisar de mais que isso, não se culpem se por vezes for difícil, ou trabalhoso ou tedioso, se lhes causar susto ou dor: as coisas são assim.

Que, se um dia eu começar a me confundir, esse eventual efeito de um longo tempo de vida não os assuste: tentem entrar no meu novo mundo, sem drama nem culpa, mesmo quando se impacientarem.

Toda a transformação do nascimento à morte é um dom da natureza, e uma forma de crescimento.

Que em qualquer momento, meus filhos, sendo eu qualquer mãe, de qualquer raça, credo, idade ou instrução, vocês possam perceber em mim, ainda que numa cintilação breve, a inapagável sensação de quando vocês foram colocados pela primeira vez nos meus braços: misto de susto, plenitude e ternura, maior e mais importante do que todas as glórias da arte e da ciência, mais sério do que as tentativas dos filósofos de explicar os enigmas da existência.

A sensação que vinha do seu cheiro, da sua pele, de seu rostinho, e da consciência de que ali havia, a partir de mim e desse amor, uma nova pessoa, com seu destino e sua vida, nesta bela e complicada terra.

E assim sendo, meus filhos, vocês terão sempre me dado muito mais do que esperei ou mereci ou imaginei ter.

Lya Luft


Dia das Mães


Uma das melhores definições de coração de mãe está na Bíblia.
Antecipando o espírito natalino para o Dia das Mães, há que respirar um ar de mistério. Deixando-se embalar pela música. Envolvendo-se no ambiente de despojamento em que Jesus nasceu em Belém.

Pobreza e mistério soam como sinônimos: difícil admitir a pobreza, impossível desvendar o mistério. Em meio a todas essas coisas que estavam acontecendo, Maria as absorvia e as guardava em seu coração.
Guardar no coração significa agasalhar sentimentos purificando-os, como que num cantinho, num cadinho em que se realiza a fusão dos ingredientes instintivos e inexplicáveis da vida humana.

Gerar, gestar, dar à luz. Carne de sua carne, vida de sua vida...
Essa experiência começa no seio materno:
escola particular, com aulas particulares, durante nove meses.
Esse, um título superior a qualquer diploma, a qualquer medalha.

Ali, no recôndito, inicia-se o mistério: gerar conscientemente uma vida humana. Escondidinho, ali está o feto, que só se revela à medida que a gravidez se desenvolve. Ali, no seio materno, se engendra o filho, engendra-se a filha, futura mãe em potencial.

Ser mãe não é produzir em série, descaracterizando a obra da criação.
Ser mãe é participar do mistério da criação.
Ser mãe é escrever um livro da vida que jamais se repete.

Depois que a criança nasce, grande expectativa é que ela própria reconheça sua mãe ao pronunciar, pela primeira vez, a palavra mamãe. 
Uma palavra genérica, que vale para todas as mães, porém, ao mesmo tempo, inconfundível. 
Mãe é uma só. Única. Por isso, mesmo quando nem tudo são flores, é aos braços maternos que recorrem os adultos. 
Braços que se dobram sobre o colo. Tomar ao colo, como se faz com uma criancinha, continua significando, para os adultos, toda a proteção, todo o carinho, todo o amparo que lhes advém pelo fio condutor que aponta para o colo do útero.

Ah! Por falar nisso, hoje é Dia das Mães. Então, um feliz Dias das Mães!

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Mães e mulheres


Se a mulher parar e analisar o que será sua vida depois de mãe, ela não vai querer ter filhos. A sobrevida maternal é desfiar de insanidades. 
Nunca mais, por exemplo, dormir noite inteira, muito menos cumprir o ritual de filme americano: escovar dentes, pentear cabelos, pôr linda camisola, deitar-se languidamente, acender o abajur, ler sem interrupção sobre almofadas macias, desligar o abajur, virar-se para o canto, apagar e só acordar na manhã seguinte quando o olho abrir sozinho. 
Uma noite inteira, depois? Nem sob o efeito de poderoso soporífero, daqueles derruba leão, desculpe, leoa. (A mulher não pensa nisso, quando decide se tornar mãe.)

Suspeita nunca confirmada: desconfio que, no momento do parto, nasce-nos poderosa mola invisível. 
O filho geme no quarto ao lado e nos surpreendemos: sem saber como, acordamos em pé ao lado do berço ou da cama - tenha o filho a idade que tiver. 
A mãe sente quando ele ficará doente, a despeito da febre ou da dor ainda não manifestas. 
Ela sabe, percebe, lê nas entrelinhas quando a mentira permeia ou embasa o discurso dele. 
Ela se contorce pela dor do filho seja quando ele arranca dente, toma soco, sofre injustiças ou perde um amor. 
Ela compartilha, mensura a dor do filho pela sua própria, de mãe. 
Mãe tem sexto sentido. Tem poder adivinhadeiro. (A mulher sofre metamorfoses internas e externas para virar mãe.)

Elas trabalham em pé o tempo inteiro, não têm férias, salários, descanso remunerado e estão em atividade segundo após segundo, ano após ano. 
A única promoção que ganham é a mudança de status acompanhada do dobro de trabalho e preocupação, quando passam de mãe para avó. 
No entanto creem-se recompensadas ao receber olhar, abraço, beijo, bilhete, flor, cartão dos filhos ou dos filhos destes. (A mulher é profissional, a mãe é só poesia.)

Filhos, ao nascer, poderão fazer a mãe se angustiar e, quem sabe, se frustrar - mesmo com pré-natal supervisionado por tecnologia e profissionais dedicados. 
Algo pode dar errado com relação ao bebê. É angustiante produzir algo, pedacinho por pedacinho, sem idéia do resultado, além de que, podem ser decepcionantes coisas mínimas: onde ela sonhava placidez, dão-lhe o aflito bebê; no lugar do loirinho de olhos azuis, apresentam-lhe o moreno de olhos de jabuticaba; não a menina delicada, mas o menino agitado e inquieto. 
Fica-se permanentemente sob a espada. Podem surgir grandes complicações: a doença insidiosa e irrecuperável, a exigência de cuidados constantes. 
Bem, se a desesperança frustra, os filhos entram em suas vidas como avassaladores tsunamis, e elas conseguem coragem e disposição, reorganizam o caos e oferecem inimagináveis exemplos de formas de amar. (Mulheres são previsíveis, mães surpreendentes.)

Gerar e parir um ser não conferem santidade a nenhuma mulher. 
A tarefa executada diária e diuturnamente de transformar o ser bruto que recebeu em ser humano, esta sim torna a maternidade santificadora. Mães, por serem pessoas, às vezes se tornam feras. 
No oposto da criatura que parece idealizada e moldada segundo estereótipo de perfeição, há mulheres que relegam os filhos, que não se importam com eles, que são egoístas, vivem encapsuladas, se mostram incapazes de amar. (Algumas são apenas mulheres que pariram; aquelas outras são mães.)

Há pais maravilhosos que compartilham e participam da vida do filho. 
Pudesse, eu os premiaria: sentir o primeiro movimento do filho no útero; perder o ar quando ele se empelotar e deformar a barriga, mais o primeiro sorriso consciente do bebê. 
Torceria para que, um dia, recebessem desenhado no papel de embrulhar pão, o rabisco de estranho alienígena de corpo redondo e pernas finas, dois riscos no lugar do cabelo, coração enorme circundando tudo e três palavras: eu amo você. 
Para mães, o mínimo é sempre mais.

Lúcia Helena Maníglia Brigagão -Jornal Comércio da Franca

terça-feira, 6 de maio de 2014

A caixinha



Certa vez, um granjeiro, incomodado com a baixa produtividade de sua granja resolveu procurar um sábio, para que o ajudasse com seu problema.
Chegando à moradia do sábio, contou seu problema. O sábio, então, escreveu algo em um pedaço de papel e colocou em uma pequena caixa. Depois a fechou e a lacrou com cera quente. Feito isto, entregou a caixinha ao granjeiro, dizendo:
- Leve esta caixa por todos os lados de sua granja, três vezes ao dia, durante um ano, mas nunca a abra.

Na manhã seguinte, ao ir ao campo segurando a caixa, encontrou um empregado da limpeza dormindo quando deveria estar trabalhando. Acordou-o e chamou sua atenção. Mais à frente, dois empregados jogavam baralho, e também levaram um puxão de orelha.
À tarde, quando foi aos criadouros, encontrou os frangos sem ração suficiente.
À noite, indo à cozinha, deu-se conta de que o cozinheiro estava desperdiçando os gêneros.
A partir daí, todos os dias, ao percorrer sua granja, de um lado para outro, carregando a caixinha, ele encontrava coisas que precisavam ser corrigidas.

Ao final do ano, voltou a encontrar o sábio e lhe disse:
- Deixe esta caixa comigo por mais um ano? Minha granja melhorou o rendimento desde que estou com esse amuleto.
O sábio riu e, abrindo a caixa, disse:
- Podes ter este amuleto pelo resto de sua vida.

No papel havia escrito a seguinte frase:

“SE QUERES QUE AS COISAS MELHOREM, DEVES ACOMPANHÁ-LAS CONSTANTEMENTE”.

Compartilhei esta conhecida história para refletirmos sobre a importância da constância e do comprometimento...

Carlos Hilsdorf
PÁGINA OFICIAL: Carlos Hilsdorf

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Mãe


“Mãe é tudo igual” é a máxima que, vira e mexe, aparece nas conversas, quando, frequentemente falamos delas. Eu sempre preferi a outra frase não menos clichê: “mãe é mãe”. Assim, sem negociação. Mãe é mãe. E isso é a mais pura e óbvia verdade. Elas não são todas iguais, apesar de compartilharem desse amor só comum a elas.
Mães são diferentes. 
Existe aquela que é “melhor amiga da filha”, outra se mantém a vida toda mais reservada, no lugar de mãe. Mães boas de cuidar de criança, outras melhores quando os filhos são adultos. 
Mãe não é tudo igual e sabemos: não tem certo ou errado. 
Mãe é mãe. E quando a coisa aperta, não tem jeito, tem situações que só mãe resolve. Não há amiga, namorado, pai, irmão, padre ou guru que tenha as palavras dela.

Cada mãe tem a sua sabedoria. Cabe a nós, filhas, saber desfrutá-la da melhor maneira. Porque mãe é mãe, na hora que ela percebe detalhes que a gente deixa passar. Desde esquecer o pijama para levar na viagem do colégio, até o sexto sentido para te avisar que uma certa amiga, bem, não é sua amiga de verdade e que vai passar a perna em você. 
Mãe é mãe quando percebe nossas loucuras, os exageros, os dramas. Uma menina fazendo birrinha. Lembro de ver minha mãe e minha avó passeando juntas e achar engraçado ela fazer coisas que só filha faz com mãe. 
Pedir cuidado ao mesmo tempo que cuida. Talvez essa seja uma das trocas mais especiais entre mãe e filha. Essa cumplicidade que só vai se repetir quando nós formos mães.

Mãe é mãe nos pequenos cuidados. Compra um docinho para você na tpm, te chama para assistir um filminho na TV, quando você está doente e chatinha, dá uma ajuda quando você está dura no fim do mês. 
E mãe é mãe também nos mimos: quando acha que você tem razão em todas as suas brigas com outras pessoas – que não ela, é claro – quando diz que você está linda mesmo você se sentindo um lixo. 
Mãe é mãe e liga. Sim, ela telefona em várias horas erradas: às vezes, no meio da sua reunião de trabalho, ou na academia. 
Ela liga para saber do tempo da praia, para papear, fofocar do vizinho da frente, saber se você está bem, se já fez as pazes com seu irmão, se está precisando de lençóis novos. 
E mãe é mãe nas duras, como deveria ser. Na hora que tem que te ensinar a ser forte, a ser mulher, a correr atrás do seu. Ela dá chacoalhão quando você está dramatizando seus problemas, manda aquele “eu te avisei” em situações que você não ouviu ela, enche o saco, critica algumas escolhas. E já sabemos: muito provavelmente ficaremos iguaizinhas a elas. 
Quem nunca se viu repetindo uma atitude da mãe que se prometeu que jamais faria ? Mãe é amor.

Então, mãe não é tudo igual, mas mãe é mãe e, se eu pudesse, faria como o sábio poeta Drummond que disse: “Fosse eu Rei do Mundo/ baixava uma lei: Mãe não morre nunca/ mãe ficará sempre junto do seu filho/ e ele, velho, embora/ será pequenino/ feito grão de milho”.


Marilia Neustein - http://blogs.estadao.com.br/

domingo, 13 de abril de 2014

O amor precisa ser paciente


Que me perdoem, mas a palavra "amor" é usada com tanto abuso quanto uma vaca que pacientemente se deixa ordenhar até o leite secar.Tem sido explorada além dos limites.

Há muitos outros termos deixados de lado que fogem ao clichê: benevolência, bondade, generosidade, consideração, perseverança, fidelidade ou prontidão para o sacrifício.

Quando dizemos "amar ao próximo", poderíamos, neste caso considerar amar uma coerção. Gostar significa mais do que amar.

Pode-se amar sem gostar.

Precisamos gostar de uma forma tal que possamos também amar.

De todos os tipos de amor, o mais difícil é o amor por aqueles que estão mais próximos de nós.

Como amar os entes queridos?

O amor requer a sabedoria da vida. Precisamos, por exemplo, saber qual é o melhor momento de buscar atenção. Ninguém deve reclamar com o marido que o condomínio subiu assim que ele chega do trabalho depois de discutir com o chefe.

Da mesma forma, não devemos repreender uma criança que chega da escola com a nota baixa e, de raiva, bate a porta com força. precisamos aprender a esperar, descobrir o motivo da irritação e só então lembrar a ela que as portas foram feitas para para serem abertas e fechadas, e não para descarregarmos nela a nossa cólera.

Devemos nos controlar para não responder à raiva com mais raiva.

Por que essas situações acontecem? Porque as pessoas respondem ao ódio com ódio, à agressão com agressão, à cólera com cólera...

A ternura no amor também precisa ser sensata.
Não convém usar apelidos carinhosos em excesso, nem tratar o ser amado como criança: "Amoreco, você não quer provar um pedacinho pequetitinho disso aqui, meu fofinho(a)?
Como alguém já disse: "Essa pieguice toda me deixa enjoado".

Será que percebemos que deveríamos ser gratos às pessoas que amamos?

Elas nos ajudam a amadurecer e nos ensinam a ser tolerantes, a conhecer os outros e a nós próprios.

Com frequência, gostamos tanto de nós mesmos que ansiamos pela companhia de seres igualmente adoráveis.

No entanto, as pessoas que amamos muitas vezes são diferentes de nós e temos de amá-las apesar dessas diferenças.

Curamos a vaidade dizendo "obrigado".

Agradecer nos ensina a reparar em quem amamos porque, quando agradecemos, esquecemos um pouco de nós mesmos e prestamos atenção na pessoa que havia reparado em nós.

É possível nos aproximar ou nos afastar de quem amamos.

Podemos tentar nos aproximar, agradecendo fatos banais como, por exemplo, não terem incomodado nosso sono gritando, chorando, pregando um quadro na parede ou aprendendo uma língua estrangeira em voz alta.

Mais do que tudo, o amor precisa ser paciente para sobreviver.

Pe. Jan Twardowski

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Meu primeiro caderno


Eu não sei se você se recorda do seu primeiro caderno.
Eu me recordo do meu.
Com ele eu aprendi muita coisa, foi nele que eu descobri que
as experiência dos erros.
Ela é tão importante quanto a experiência dos acertos.
Porque vistos de um jeito certo, os erros, eles nos preparam
para as nossas vitórias e conquistas futuras.
Porque não há aprendizado na vida que não passe pela
as experiências dos erros.
O caderno é uma metáfora da vida, quando os erros eram demais.
Eu me recordo que a nossa professora nos sugeria que a gente
virasse a página, era um jeito interessante de descobrir a graça
que há nos recomeços.
Ao virar a página os erros cometidos deixavam de nos incomodar
e a partir deles, a gente seguia um pouco mais crescidos.
Erros podem ser fontes de virtudes.
Na vida é a mesma coisa, o erro tem que estar a serviço do
aprendizado, ele não tem que ser fonte de culpas, de vergonha.
Nenhum ser humano pode ser verdadeiramente grande, sem que
seja capaz de reconhecer os erros que cometeu na vida.
Uma coisa é a gente se sentir culpado, culpas nos paralisam,
arrependimentos não, eles nos lançam para frente e nos
ajudam a corrigir os erros cometidos.
Deus é semelhante ao caderno, Ele nos permite os erros para que
a gente aprenda a fazer o jeito certo.
Você tem errado muito?
Não importa, aceite de Deus essa nova página de vida que tem
o nome de "Hoje"!
Recorde-se das lições do seu primeiro caderno.
Quando os erros são demais, vire a página !!


Pe. Fábio de Melo